Antes do sexo, o carinho que sustenta o amor:

Antes do sexo, o carinho que sustenta o amor:


Categoria: Sociedade, saúde e relacionamentos

Autor: João Carlos Quelhas

Há casais que partilham a mesma casa durante décadas e, lentamente, deixam de partilhar aquilo que sentem. Continuam a dividir a mesa, as despesas, os trabalhos e, por vezes, a cama. Mas calam a dor, escondem o medo, disfarçam as dificuldades do corpo e deixam para amanhã uma conversa que fazia falta ontem. Quando finalmente falam, já pode haver uma mala feita, uma porta fechada e alguém a chorar do outro lado do telefone.

Em relações de longa duração, um dos elementos pode lamentar a saída do companheiro ou da companheira depois de mais de dez, quinze, vinte ou trinta anos de vida em comum. Entre os problemas que podem afectar o casal estão a irritação durante a menopausa, as reclamações por pequenos pormenores domésticos e as dificuldades de saúde, como problemas da próstata, que ficam por conversar. Uma chave deslocada, um pano fora do lugar, um grão de arroz no chão, uma cadeira desalinhada ou uma mancha no vidro podem desencadear uma discussão.

A falta de atenção, de conversa, de aproximação e de aconchego ao deitar também pode abrir distância entre duas pessoas. Quando uma relação termina, a ausência pode provocar sofrimento. Os homens também choram. E a falta de quem esteve ao lado de cada pessoa pode revelar, dolorosamente, o valor dos gestos que ficaram por oferecer.

O propósito desta reflexão é mostrar como o silêncio pode pesar sobre duas pessoas que já se amaram.

A menopausa não é uma doença, nem uma sentença sobre o casamento. É uma etapa natural da vida, embora possa trazer sintomas que precisam de acompanhamento. Ocorre habitualmente entre os 45 e os 55 anos, podendo surgir mais cedo. A transição que a antecede, chamada perimenopausa, pode começar anos antes, com manifestações diferentes de mulher para mulher. Não existe uma idade exacta em que todas passam a sentir o mesmo.

Afrontamentos, sono perturbado, alterações do humor, ansiedade, dificuldades de concentração, mudanças no desejo e secura vaginal podem afectar o quotidiano. Uma mulher que dorme mal, sente desconforto e tenta manter todas as responsabilidades pode chegar ao fim do dia exausta. Isso merece escuta. Mas também seria errado transformar qualquer reclamação, tristeza ou desacordo numa consequência das hormonas. A mulher continua a ter razões, opiniões e problemas que precisam de ser ouvidos pelo seu próprio valor.

Uma casa limpa, roupa cuidada e comida na mesa representam trabalho. Quando esse trabalho se torna invisível, quem o assegura pode sentir que só é procurado para servir. Reconhecer o cuidado com a família é importante, mas o valor de uma mulher ultrapassa largamente aquilo que cozinha, lava ou arruma. Também precisa de descanso, companhia e espaço para existir para além das obrigações.

O mesmo princípio vale para o homem. Trabalhar e contribuir para a casa não elimina as suas necessidades afectivas, mas também não lhe dá direito a encontrar sempre uma companheira sorridente, disponível e sem dificuldades próprias. Uma família constrói-se com pessoas reais, que adoecem, se cansam e precisam umas das outras.

Na intimidade, uma das confusões mais dolorosas é interpretar uma mudança do corpo como uma rejeição do amor. A secura vaginal não prova falta de atracção. Uma mulher pode desejar o companheiro e, ainda assim, sentir pouca lubrificação ou dor. As alterações dos tecidos associadas à redução dos estrogénios podem integrar a síndrome geniturinária da menopausa, que também pode envolver ardor e sintomas urinários. Não basta concluir que falta vontade ou que é preciso insistir mais.

Quando uma relação dói, a expectativa de voltar a sentir dor pode levar ao afastamento. Algumas mulheres calam esse sofrimento para não desiludir o parceiro. Outras receiam que ele interprete a recusa como desamor ou infidelidade. Nenhuma deveria sentir que precisa de suportar dor para provar que ama.

Mais tempo, beijos e carícias podem favorecer a aproximação, mas não garantem que a secura ou a dor desapareçam. Se existe desconforto, é necessário parar, conversar e procurar a causa. Dor persistente, sangramento após as relações ou qualquer sangramento depois da menopausa merecem avaliação médica. Não devem ser atribuídos automaticamente à idade, à falta de preparação ou a um quisto mencionado numa consulta.

Existem recursos que podem ajudar. Os hidratantes vaginais destinam-se a melhorar a hidratação entre as relações; os lubrificantes reduzem o atrito durante a actividade sexual. Alguns hidratantes contêm ácido hialurónico, mas a escolha e a frequência de utilização dependem do produto e da situação. Não é rigoroso prometer que qualquer gel regenera os tecidos ou resolve todas as causas de dor.

Há lubrificantes à base de água e de silicone. Convém escolher produtos próprios para uso íntimo e evitar substâncias que provoquem irritação. Óleos domésticos e cremes comuns não devem ser usados como substitutos improvisados; os produtos oleosos podem também danificar preservativos de látex.

Conforme os sintomas e a história clínica, o médico poderá propor estrogénio vaginal, terapêutica hormonal sistémica ou outras opções. Não existe uma receita universal. Também não é correcto desvalorizar o acompanhamento psicológico ou os antidepressivos quando estão indicados, como se todo o sofrimento emocional fosse exclusivamente hormonal. O cuidado deve atender à pessoa inteira.

Os conselhos de chá de folha de amoreira, maca peruana e outras soluções caseiras, frequentes nas redes sociais, exigem prudência. Não devem ser apresentados como formas comprovadas de repor hormonas ou salvar casamentos. A designação «natural» não garante eficácia nem ausência de riscos, e os suplementos podem interferir com medicamentos. Cuidar da alimentação, do movimento e do descanso tem valor, mas culpar a barriga ou o peso por todo o desconforto acrescenta vergonha onde é preciso compreensão.

Do lado masculino, também há silêncios que magoam. Um homem com menos desejo ou dificuldades de erecção não deixou necessariamente de amar, não perdeu obrigatoriamente a atracção e não tem, por esse motivo, outra pessoa. A ideia de que deve estar sempre pronto transforma uma dificuldade numa prova de masculinidade.

Problemas circulatórios, diabetes, alterações hormonais, determinados medicamentos, ansiedade, depressão e medo de falhar podem contribuir para dificuldades de erecção. Algumas doenças da próstata e os seus tratamentos também podem afectar a função sexual, mas ter um problema prostático não significa automaticamente ficar incapaz de manter relações. É necessário esclarecer o diagnóstico.

O excesso de trabalho, as preocupações financeiras e os conflitos merecem igualmente espaço na conversa. A mulher também precisa de ter consciência de que o marido pode andar stressado. Do mesmo modo, o homem deve procurar perceber o cansaço e as dificuldades da companheira. A atenção aos problemas de cada um ajuda o casal a não transformar o sofrimento de uma pessoa em culpa da outra.

Medicamentos como o tadalafil podem ajudar em situações de disfunção eréctil, mediante avaliação adequada. Não criam amor nem garantem desejo, e precisam de estimulação sexual para actuar. A testosterona também não deve ser tratada como uma solução automática para o envelhecimento. Nenhuma frase carinhosa substitui um tratamento necessário, tal como nenhum comprimido substitui a disponibilidade para ouvir.

O companheiro ou a companheira pode apoiar, perguntar como o outro se sente e encorajá-lo a procurar ajuda. Mas não cabe a uma só pessoa carregar a vida sexual dos dois. Ninguém deve concluir que precisa de emagrecer, mudar o corpo ou aceitar tudo para voltar a merecer desejo. Cada elemento do casal precisa de reconhecer as dificuldades e participar na procura de soluções.

Há maneiras de falar que aproximam e outras que humilham. Dizer que se sente falta de um abraço, de um beijo ou da proximidade do outro abre uma conversa diferente de acusar alguém de já não ser homem, de ter deixado de ser mulher ou de não cumprir o seu papel. Falar fora de um momento de tensão, escutar a resposta e aceitar que ela pode ser difícil é um começo.

Também faz sentido dizer o que soube bem, o que trouxe conforto e aquilo que se gostaria de repetir. Sem transformar a relação num exame ao desempenho.

A intimidade começa muito antes de chegar à cama. Começa quando alguém pergunta como correu o dia e fica para ouvir. Quando pousa o telemóvel. Quando divide uma tarefa sem esperar uma recompensa. Quando repara no cansaço do outro e lhe dá lugar para descansar.

Um beijo ao sair, uma mensagem durante o dia, uma mão dada na rua ou um abraço no sofá podem parecer pequenos. Mas dizem que a companhia do outro importa.

Quando o carinho aparece apenas na expectativa de sexo, pode começar a ser recebido como uma cobrança. Quem o recebe deixa de saber se pode aceitar um abraço sem assumir um compromisso com o que virá depois. Recuperar essa confiança exige gestos que possam terminar em si mesmos.

A frase «quem não tem em casa procura fora» é conhecida, mas procurar fora não é um remédio garantido para os problemas do casal e pode correr mal. Também há quem diga que uma relação fora de casa pode ajudar a melhorar a vida conjugal depois. Essa opinião existe, mas não apaga os compromissos assumidos nem os riscos de aumentar o afastamento e o sofrimento. A infidelidade não substitui a conversa sobre o que está a acontecer na relação.

A mulher que atravessa a menopausa precisa de carinho, atenção e boas palavras, com a ternura com que se acolhe um bebé. O marido também precisa de compreensão quando enfrenta stress, problemas da próstata ou dificuldades sexuais. A ajuda nas tarefas, os passeios, um jantar fora, uma ida a uma festa ou a realização de actividades diferentes podem trazer momentos de proximidade ao casal.

A mulher na menopausa e o homem com problemas da próstata podem, se ambos quiserem, recorrer a artigos de uma sex shop e experimentar fantasias. A vontade e o conforto dos dois devem ser respeitados. Nenhuma prática substitui o diálogo, e nenhuma deve ser imposta como obrigação ou solução garantida.

O sexo oral pode fazer parte da intimidade quando ambos o desejam. Não é uma obrigação, um tratamento para a menopausa nem uma garantia de reconciliação. A atenção ao conforto, à vontade mútua e ao respeito é essencial. Nenhuma prática, por si só, repara uma relação em sofrimento.

A masturbação também pode fazer parte da sexualidade. Não deve servir de motivo de humilhação, mas não substitui uma conversa necessária sobre o afastamento. Procurar outra pessoa sem respeitar os compromissos assumidos também não esclarece o que ficou por resolver em casa.

O carinho não deve surgir apenas ao chegar à cama. Pode estar presente todos os dias, de manhã à noite, nas palavras, na atenção, na entreajuda, nos abraços e nas pequenas iniciativas. A proximidade cresce quando cada pessoa sabe que pode receber carinho sem que esse gesto traga uma obrigação sexual.

Muitos casais de setenta, oitenta ou mais anos caminham de mão dada e trocam um beijo com a simplicidade de quem ainda gosta de estar junto. Esses gestos lembram que a ternura pode envelhecer com o casal. Mostram uma possibilidade concreta: continuar a escolher a companhia do outro.

Muitos desses casais mantêm relações sexuais; outros vivem a intimidade de formas diferentes. A diminuição ou ausência de sexo não determina, por si só, um divórcio. O que importa é como ambos vivem essa realidade e se existe respeito pelas necessidades e pelos limites de cada um.

Preservar uma união de vinte, trinta ou quarenta anos exige adaptação. O corpo muda, as preocupações acumulam-se e a paciência pode diminuir. Conhecer alguém há muito tempo não dispensa continuar a conhecê-lo. Talvez o gesto que antes bastava já não baste. Talvez seja necessário perguntar, esperar, procurar ajuda ou descobrir outra forma de proximidade.

A mulher precisa de ser tratada como uma companheira adulta, com voz e autonomia, mesmo quando necessita de mais atenção. O homem pode mostrar fragilidade sem perder dignidade. Ambos podem pedir carinho sem exigir sexo, e ambos podem desejar sexo sem transformar esse desejo numa ordem.

Falar destes assuntos quebra um tabu que deixa demasiadas pessoas sozinhas dentro do próprio casamento. As promessas de milagres, as receitas universais e as soluções fáceis não devem ocupar o lugar de informação séria e de acompanhamento adequado.

Antes da relação sexual, que haja boas palavras, entreajuda, respeito e presença. Não como uma sequência de favores para alcançar um prémio, mas como parte da vida quotidiana de duas pessoas que querem cuidar uma da outra.

O amor duradouro precisa de mais do que recordar como tudo começou. Precisa de atenção ao que está a acontecer agora. Por vezes, essa atenção começa numa consulta. Outras vezes, numa tarefa partilhada, num pedido de desculpa ou numa conversa finalmente sincera. E pode começar num abraço que não pede nada, mas faz sentir que ninguém está sozinho.


Revista Repórter X / Repórter Editora

Comentários