Quando a identidade é roubada e ninguém responde

Quando a identidade é roubada e ninguém responde:



Há um fenómeno silencioso a atravessar a vida digital de muitos cidadãos, mas raramente tratado com seriedade pública, a usurpação de identidade nas redes sociais e nos motores de busca, acompanhada pela total ausência de resposta das plataformas e das autoridades.
O caso que aqui se relata não é isolado, nem extraordinário, mas é exemplar. Ao longo de anos, foram repetidas as tentativas de acesso a contas pessoais em redes sociais, com insistência particular a partir da Suíça. Uma conta antiga de Facebook, construída ao longo de muitos anos, foi bloqueada de forma definitiva. Não se perderam apenas publicações, perderam-se memórias, fotografias, vídeos de festas e eventos, contactos de amigos de infância, de antigos clientes, de pessoas que só ali permaneciam ligadas. Um caderno de endereços da vida inteira foi apagado por um algoritmo.
Como se isso não bastasse, começaram a surgir perfis falsos em nome do titular da conta. No Facebook, criaram páginas e perfis que usavam o nome e a imagem do autor para fins alheios, incluindo um caso particularmente revelador, uma página associada a um livro, criada em nome do próprio autor, apenas para dizer mal do próprio livro. Uma manobra baixa, destinada a confundir leitores, descredibilizar trabalho e lançar ruído onde deveria haver clareza.
No Instagram, persiste ainda hoje um perfil falso, ligado a jogos, usando o nome e a fotografia da pessoa visada. Foi apresentada queixa às autoridades, mas a resposta foi o desinteresse. Não houve investigação, nem acompanhamento, nem protecção efectiva. A usurpação de identidade, quando não envolve dinheiro imediato ou violência directa, continua a ser tratada como um incómodo menor, apesar dos danos reputacionais e psicológicos evidentes.
O quadro agravou-se quando o número de telefone pessoal passou a surgir, em pesquisas no Google, associado a outro jornal português na Suíça. Pessoas ligavam convencidas de que estavam a contactar essa redacção, quando, afinal, o número era de um particular. Um erro objectivo, com impacto real, resultante de cruzamentos automáticos de dados, directórios digitais mal geridos e algoritmos que replicam informação errada sem verificação humana.
Não há aqui necessidade de teorias conspirativas. Na maioria dos casos, estas situações resultam de ataques automáticos, reutilização de dados antigos, perfis falsos criados para dar aparência humana a esquemas de jogos, burlas ou simples vandalismo digital. Mas a ausência de intenção pessoal não elimina o dano. Pelo contrário, torna-o mais difícil de combater, porque não tem rosto, nem balcão, nem responsável identificado.
O que este caso revela é uma falha estrutural. As plataformas bloqueiam primeiro e explicam depois, quando explicam. A polícia desvaloriza quando não vê lucro ou sangue. Os cidadãos ficam entregues a formulários automáticos, denúncias repetidas, silêncio institucional. A identidade, o nome, a memória, tornam-se frágeis perante sistemas que não reconhecem o valor humano do passado.
Isto não é apenas um problema técnico. É um problema social. A tecnologia avançou mais depressa do que a protecção do cidadão comum. Quem escreve, cria, denuncia ou simplesmente existe com consistência ao longo do tempo fica mais exposto. A inveja, a mediocridade e o oportunismo encontram terreno fértil em perfis falsos e identidades roubadas.
A resposta possível continua a ser antiga, documentar tudo, denunciar sempre, insistir, pedir rectificações, guardar provas, reconstruir pontes humanas fora das plataformas, e, sobretudo, não calar. Quando o sistema falha, a palavra escrita continua a ser um instrumento legítimo de defesa e de memória.
Este artigo não procura vitimização, nem dramatismo. Procura lucidez. Porque quando uma sociedade aceita que nomes possam ser roubados sem consequência, aceita também que a verdade se torne descartável.
E isso, sim, deveria preocupar-nos a todos.


Revista Repórter X Editora Schweiz Oficial

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