Quando a rotatividade médica apaga a memória clínica

Quando a rotatividade médica apaga a memória clínica:



Há um cansaço que não nasce da doença, nasce da repetição do erro. É esse cansaço que hoje se transforma em palavra pública.
Um familiar de uma paciente seguida em dermatologia no Universitätsspital Zürich denuncia um padrão inquietante, a troca constante de médicos. A paciente vai à consulta cem vezes e encontra cem médicos diferentes, muitos deles médicos aprendizes. O que é exigido é simples e razoável, em vez de ser sempre o mesmo médico, devem ser designados dois ou três médicos, no máximo, para acompanharem o caso, de forma a conhecerem bem o historial da paciente e garantirem continuidade.

Apesar de existir um processo electrónico, ninguém lê tudo. Cada consulta começa quase do zero. Conhecem a medicação recente, ignoram os efeitos acumulados, esquecem o que falhou, repetem perguntas, repetem tentativas. O doente deixa de ser pessoa e passa a ser um fragmento.

Este problema já tinha sido formalmente identificado. Houve uma reunião com a direcção do hospital devido a um mau atendimento por parte de uma médica, que foi repreendida. A família optou por não tornar esse episódio público. Nessa reunião foi também denunciada a prática da clínica The Circle, onde a rotatividade constante de médicos inviabiliza qualquer memória clínica. Durante algum tempo, após a intervenção da direcção, a situação foi parcialmente corrigida. Hoje, voltou tudo ao mesmo.

A última consulta foi descrita como o cúmulo da desorientação. Duas médicas chamaram um terceiro profissional, chefe de serviço, e colocaram à paciente perguntas inadmissíveis, que medicamentos lhe fizeram bem, quais lhe fizeram mal, e qual preferia agora tomar. Quando um doente chega a este ponto, depois de anos de tentativas falhadas, estas perguntas não são partilha, são abandono de responsabilidade.

Importa esclarecer que o atendimento pessoal foi educado e respeitoso, tendo sido utilizada outra língua para facilitar a comunicação. Isso não está em causa. O problema é estrutural e repete-se.

O ponto mais grave é a recusa persistente em emitir uma declaração médica simples, factual, reconhecendo que o medicamento Toctino causou efeitos secundários relevantes, nomeadamente queda acentuada de cabelo, alterações severas das unhas e fragilização da massa gengival, com impacto directo na saúde dentária. Sem essa declaração, a Krankenkasse recusa assumir os custos do tratamento dentário. O hospital sabe disso.

Existem documentos que referem cabelo e unhas, mas nenhuma menção às gengivas. A tradução apresentada foi rejeitada com o argumento formal de estar incorrecta, quando o problema real foi a recusa em assumir por escrito aquilo que foi observado na prática.

Um hospital universitário não pode funcionar como uma linha de montagem clínica. Formar médicos não pode significar perder doentes pelo caminho. Casos prolongados exigem memória, continuidade e responsabilidade assumida. Quando isso falha, alguém tem de o dizer. E quando se diz, já não é desabafo, é denúncia.

autor Quelhas 

Revista Repórter X / Repórter Editora

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