Um baile e a arte de conhecer pessoas interessantes:
Entre o lazer, o convívio e a cultura nasceu uma amizade.
Ficção: Autor Quelhas
É perfeitamente normal sentir um pouco de hesitação ao entrar num evento onde praticamente não se conhece ninguém. Às vezes nem sabemos o porquê ali vamos! A maioria das pessoas sente exactamente o mesmo, embora raramente o demonstre. Muitas ficam até aliviadas quando alguém toma a iniciativa de se aproximar com naturalidade.
Imagine um baile elegante, realizado numa quinta ou num salão livre. A música toca suavemente, os casais dançam e pequenos grupos conversam e bebem umas cervejolas junto às mesas.
Entra mais um convidado e para todos os presentes é apenas um cidadão comum que poucos o reconhecem. Poucos sabem o seu nome ou o confundem. Ninguém conhece a sua história.
Caminha calmamente, sem procurar chamar a atenção. Veste um fato cinzento, camisa branca, gravata roxa e sapatos pretos engraxados. O cabelo está cuidadosamente penteado com um toque de gel. Um perfume suave acompanha discretamente a sua presença e um ligeiro sorriso permanece nos lábios. Ao pescoço traz um fio discreto, no pulso, um relógio, na presilha das calças desce um cordão metálico, um hábito que mantém há muitos anos.
Às costas leva uma mochila com alguns dos seus pertences habituais de viagem:
livros, revistas e jornais, um bloco de notas, uma caneta, o telemóvel, um cabo, uma garrafa de água mineral, um chocolate branco, documentos e pequenos objectos que gosta de ter sempre consigo...!
Não sente necessidade de falar com toda a gente, pois prefere observar primeiro. Percorre a sala com o olhar e repara em quem transmite simpatia e tranquilidade, em quem parece acessível, em quem conversa naturalmente e em quem demonstra apatia, como se estivesse presente apenas por obrigação. Aprendeu que uma boa conversa nasce quando existe abertura e aquela química que, por vezes, surge logo ao primeiro olhar, dependendo da idade ou da pessoa. Também aprendeu que nem todas as amizades são desejáveis. Gosta de apreciar, medir e estudar as pessoas antes de lhes abrir a porta da sua confiança. É um pouco desconfiado!
O ambiente em redor é o único terreno comum garantido entre pessoas e grupos de desconhecidos. Por isso, uma conversa pode começar de forma simples ou simplesmente até não acontecer.
Dirige-se ao bar. «Uma Cuba Libre, por favor.»
Enquanto saboreia a bebida, continua a observar a sala e as conversas:
Num dos grupos repara numa senhora jovem de cabelo crespado, rosto branco e olhos azuis. Está acompanhada, mas praticamente não participa na conversa. Sorri de vez em quando, porém parece estar sozinha no meio daquele grupo. Os olhares cruzam-se algumas vezes sem qualquer intenção.
Passados alguns minutos, é ela quem se aproxima quando se dirige ao balcão para ir buscar uma bebida. «Boa noite. Posso fazer-lhe companhia durante uns minutos?»
Ele sorri. «Claro que sim. Boa noite.»
«Reparei que estava a observar tudo à sua volta. Também não conhece muita gente?»
«Praticamente ninguém. Gosto de conhecer pessoas novas. Às vezes basta uma conversa para a noite ganhar outro sentido.»
Ela sorri. «Também sinto isso. Mas confesso que nem sempre é fácil dar o primeiro passo.»
«É verdade. No fundo, quase toda a gente sente alguma hesitação quando chega a um evento destes. O curioso é que muitas pessoas ficam secretamente aliviadas quando alguém toma a iniciativa de quebrar o gelo.»
Ela concorda. «Nunca tinha pensado dessa forma.»
«Eu também acredito que as melhores conversas começam de forma simples, falando do momento que estamos a viver.»
Ela olha em redor. «O que acha deste espaço? Eu nunca tinha vindo cá!»
«Também é a primeira vez. Acho que escolheram muito bem. O ambiente convida a conversar sem pressas.»
«Veio de longe?»
«Venho de perto do aeroporto de Zürich!»
A conversa prossegue durante alguns minutos!
Só depois ela pergunta: «Ainda nem sei como se chama!?»
«Chamo-me João Carlos.
«Chamo-me Sofia!»
Ela sorri imediatamente. «Então é mesmo o famoso João Carlos Quelhas!»
Ele fica surpreendido. «Conhecemo-nos?»
«Pessoalmente, não. Mas sou sua fã e admiradora e sigo-o discretamente. Conheço-o através das redes sociais, da Revista Repórter X e das suas lides literárias. Acompanho o seu trabalho há bastante tempo. Nunca imaginei encontrá-lo aqui. Também vim a este baile por acaso e, agora que o reconheci, achei que esta seria uma boa oportunidade para finalmente o conhecer pessoalmente.»
João Carlos agradece com simplicidade. «Fico satisfeito por saber isso.»
A conversa torna-se ainda mais interessante. «E o João Carlos, o que faz?»
«Dedico grande parte do meu tempo à Revista Repórter X. Escrevo, acompanho acontecimentos, entrevisto pessoas e procuro dar voz a quem muitas vezes não a tem.»
«Então deve conhecer muitas histórias!?»
«Muitas. E continuo a acreditar que cada pessoa tem sempre algo para ensinar.»
«E quando não está a trabalhar?»
«Sou casado, pai e avô. A família ocupa um lugar muito importante na minha vida. Gosto de apreciar as pessoas, de receber atenção, mas sobretudo de a dar. O carinho e a amizade, quando é sincero, nunca é tempo perdido.»
Ela permanece alguns segundos em silêncio. «É raro ouvir alguém dizer isso de forma tão simples.»
Ele não pergunta nada sobre a Sofia e acrescente...! «Talvez porque hoje todos falamos muito e escutamos pouco.»
Nesse momento começa um Slow. Ela estende-lhe a mão. «Aceita dançar?»
João Carlos sorri. «Com muito gosto.»
Enquanto dançam, a conversa continua. João Carlos saboreia tranquilamente a sua Cuba Libre e Sofia bebe um Whisky puro.
A certa altura, talvez pela descontração do ambiente, pela música ou pelo efeito do álcool, deixa escapar um comentário mais pessoal e dá-lhe um beijo. João Carlos sorri apenas. Não leva a mal. Limita-se a escutar. Há uma boa química entre ambos, mas sabe que uma única conversa nunca chega para conhecer verdadeiramente uma pessoa.
Ao longo da vida aprendeu que existem pessoas que se aproximam por interesse em primeiro lugar e depois por simpatia, outros por curiosidade e outros simplesmente porque apreciam uma boa conversa. Prefere deixar que o tempo revele o verdadeiro carácter de cada um.
Antes de regressarem às respectivas mesas, comenta com naturalidade:
«Há um princípio de que gosto muito nestes convívios: cada um paga o seu. Assim, as pessoas aproximam-se pela companhia e pela conversa e não por interesses.»
Ela sorri. «Concordo plenamente.»
Os dois despedem-se com um sorriso.
Talvez dali nasça apenas uma boa recordação. Talvez uma amizade, mas João Carlos não pediu o contacto. Só o tempo o poderá dizer caso se voltem a encontrar. Mas ambos levam consigo a certeza de que, num mundo onde tantos passam uns pelos outros sem realmente se escutarem, uma conversa genuína continua a ser um dos maiores presentes que a vida pode oferecer.
Dias mais tarde, João Carlos recebe uma mensagem através das redes sociais. Era Sofia.
A conversa recomeça e entre mensagens, descobrem mais pontos em comum. João Carlos fica a saber que Sofia é médica e que, para além da profissão, tem uma enorme paixão pela música. Canta por gosto, principalmente Fado e possui uma voz de grande qualidade e logo é convidada para uma entrevista...!
Algum tempo depois combinaram e encontraram-se novamente, desta vez junto ao Lago de Bellevue, em Zürich. A entrevista decorre com naturalidade, entre a água límpida e azul, com lindas paisagens, a conversa e algumas fotografias. Desse encontro nasce uma biografia para a Revista Repórter X, uma sessão fotográfica de carácter sensual para um artigo sobre carácter e sensualidade além do trabalho biográfico muito interessante e a colaboração em vários projectos musicais, passando Sofia a interpretar algumas letras musicais escritas por João Carlos Quelhas.
Entre ambos permanece uma amizade baseada no respeito, na confiança e na admiração mútua no qual podem desafogar as suas mágoas. Nada mais do que isso.
autor: Quelhas
Revista Repórter X / Repórter Editora

Comentários
Enviar um comentário
Revista Repórter X / Repórter Editora