Categoria: Poema / História / Cultura
Autor: Artur Silva
Onde a serra toca o céu,
E o fado chora na rua,
Sintra dorme sob o véu,
Como a lenda que se insinua.
Lá no alto, em pedra e guerra,
Vigia o Mouro a memória,
Do povo que herdou a terra
E ao mar escreveu a história.
As muralhas de granito
Cederam ao rei de outrora;
Guardam num eco infinito
As glórias que o tempo chora.
Na Pena, onde a paz espanta,
E o monge rezava a sós,
Nasceu o paço que encanta,
Que o Rei Fernando traz a nós.
Com cores que saltam à vista,
Nas árvores abraçado,
Foi o cenário de artista,
E um sonho partilhado.
Duas chaminés ao longe,
No Paço da Vila Real,
Contam o que o tempo esconde
Da corte de Portugal.
Nas salas de tecto rico,
Onde os cisnes querem voar,
D. João e D. Manuel
Viam naus cruzar o mar.
Na Regaleira, imponente,
Um homem comprou o mito,
Criando vias para gente,
Num solo que foi esculpido.
O Poço que desce ao chão
É mergulho em morte e luz,
Onde a alma acha a direcção
E o oculto ao céu conduz.
No vale onde a planta cresce,
Escondida a jóia estrangeira,
Monserrate ao sol amanhece,
Linda e rara à sua maneira.
Com cúpulas de grande brilho,
E rendas que o gesso fez,
É um sonho que segue o seu trilho,
Nascido de um bom inglês.
Por estas vias plantadas,
Passou Byron, com sua dor,
Deixando em rimas sagradas
O seu «Éden» de amor.
Viu na mata a musa eleita,
Na água que corre e cala,
A força que a alma respeita,
Que o mundo admira e exalta.
Nas ruas de pedra fria,
Cheira ao doce que o forno dá,
Travesseiro que alumia,
E a queijada que há por lá.
Gente de afecto e memória,
Que acolhe quem vem de fora,
São os donos da nossa história,
Onde o coração demora.
Sintra de mitos sagrada,
Onde a névoa esconde o vento,
És pátria de amor plantada,
Saudade guardada no tempo.

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