A história nasceu de um poema. Não de um poema bonito no sentido decorativo, mas de um poema incómodo, escrito num tempo em que o Natal ainda existia no calendário, mas já se ausentava das casas e das consciências.
Chamava se Natal fantasma. E quem o escreveu foi João Carlos Quelhas, um homem que já não acreditava no Natal como crença, mas que ainda acreditava na palavra como denúncia.
O poema não foi escrito à mesa cheia, foi escrito depois. Depois da ceia, depois do excesso, depois do silêncio. Foi escrito com o peso da fartura no estômago e a falta de sentido na cabeça. O autor não inventou nada. Limitou se a olhar. Olhou para a comida a mais, para as cadeiras vazias, para as famílias dispersas, para os pobres recolhendo sobras, e escreveu.
Daquele poema saiu uma história.
A história de um Natal em que ninguém passa fome dentro de casa, mas muitos passam fome fora dela. Um Natal em que as luzes brilham mais do que as relações humanas. Um Natal em que os adultos fingem alegria para as crianças, sabendo que já não acreditam. Um Natal transformado em comércio, em agenda, em obrigação social.
Na história, o autor aparece como personagem sem disfarce. É ele que enumera os pratos, não por gula, mas por acusação. É ele que diz “comi”, “encheu”, “sobrou”, “deitei fora”, porque sabe que só quem assume o excesso pode falar da miséria sem hipocrisia. É ele que reconhece que também faz parte do problema que denuncia.
O Natal da história não tem anjos, nem reis, nem milagres. Tem supermercados cheios, casas vazias, mesas fartas e ruas frias. Tem famílias que já não se encontram, amigos esquecidos, doentes ignorados. Tem crianças que sentem aquilo que os adultos fingem não saber.
E o fantasma do Natal percorre tudo isso. Não como figura sobrenatural, mas como ausência. A ausência do sentido. A ausência do outro. A ausência da comunidade.
No fim da história não há redenção fácil. Não há moral forçada. Há apenas um texto que nasceu de um poema, e um poema que nasceu de um olhar lúcido. E há um autor que não quis salvar o Natal, quis apenas dizer que ele já não é o que era.
Porque às vezes a única forma de ser honesto é escrever aquilo que já não se consegue celebrar por dentro, mesmo quando se continua a celebrar por fora. Porque uma coisa é a crença, outra é a tradição. O autor não acredita no Natal como ilusão redentora, mas respeita o Natal como herança familiar. Celebra o Natal em família, como sempre se fez, e veste o fato de Pai Natal não por fé, mas por amor, primeiro para as filhas, agora para os netos. As prendas nunca faltam, porque o gesto permanece, mesmo quando a crença mudou.
E é precisamente essa tensão que dá origem ao poema. Não a negação do Natal, mas a recusa da mentira. Não o desprezo da tradição, mas a denúncia do vazio que se instalou por trás das luzes.
E foi assim que uma história saiu de um poema. E o poema saiu de um homem. E o homem assumiu o que escreve.
autor: Quelhas

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