AC/DC Madeira: Antes do COVID. Depois do COVID, quando o turismo testa os limites do civismo:
Pode até parecer um artigo sobre o grupo musical AC/DC ou até religioso, Antes de Cristo e Depois de Cristo. Infelizmente, na minha opinião pessoal, é um retrato vivido da Madeira antes da dita pandemia e da actualidade.
Antes de o mundo parar com a chegada da COVID-19, a Madeira vivia um período de crescimento turístico de qualidade sem precedentes. De ano para ano, os números batiam recordes. Era comum ver o Funchal cheio de visitantes, as levadas com muita gente e os miradouros com filas para uma simples fotografia. Nessa saudosa altura, os madeirenses ainda podiam visitar o que é seu, a sua casa. O arquipélago transformou-se num destino de sonho, mas essa popularidade veio com um custo nem sempre visível, a erosão do civismo e do respeito pelos espaços e pelas pessoas.
Durante esses anos dourados do turismo, falou-se muito de investimento, rendimentos, ocupação hoteleira e receitas. Falou-se pouco da pressão sobre a natureza, do incómodo sentido por muitos residentes e do comportamento de certos turistas que viam a Madeira como um parque de diversões exótico, e não como uma casa para milhares de pessoas.
Não se trata de criticar o turismo, longe disso. A Madeira precisa dele. É parte essencial da economia local. Mas o turismo desenfreado, sem limites e sem exigências de civismo, tem consequências. A natureza que se promove nos folhetos, pura, limpa, tranquila, não sobrevive à falta de respeito. Não são raras as imagens de lixo nos trilhos, grafitis onde antes havia vegetação intacta ou drones a sobrevoar zonas protegidas como se fossem sets de filmagem.
E onde estavam os alertas. Houve algumas campanhas, é verdade. Cartazes a lembrar que a ilha é para todos, que há que respeitar, que civismo é parte da experiência. Mas foram suficientes. Ou foram apenas gestos simbólicos, para suavizar o desconforto crescente de quem aqui vive.
O civismo, esse valor tão simples e ainda assim tão esquecido, devia ter estado no centro da estratégia turística. Não basta atrair visitantes. É preciso educar, exigir respeito, estabelecer limites claros. O turismo só é sustentável se for equilibrado. Só é bem-vindo se for bem vivido por todos.
Talvez a pandemia, com toda a sua dureza, tenha deixado espaço para repensar este modelo. Talvez tenha oferecido a oportunidade de fazer uma pausa, respirar e decidir que tipo de turismo queremos para a Madeira. A resposta, acredito, está no respeito mútuo. O visitante que se deslumbra com a beleza da ilha deve também sentir responsabilidade por ela. E quem recebe deve sentir que o acolhimento não compromete a sua qualidade de vida. Porque a Madeira não é apenas um destino. É um lugar com identidade, com comunidade, com limites. E merece ser tratada com o civismo que qualquer lar exige.
Turismo na Madeira antes da pandemia, entre o crescimento e o desafio do civismo:
Antes da chegada da pandemia de COVID-19, o turismo na Madeira vivia uma fase de ouro. Com paisagens naturais deslumbrantes, clima ameno durante todo o ano e uma oferta cultural e gastronómica rica, o arquipélago português consolidava-se como um dos destinos mais procurados da Europa. No entanto, este crescimento exponencial trouxe também desafios relacionados com o civismo e o respeito pelos espaços públicos e tradições locais, com a chegada de turismo de massas e muitas vezes de qualidade duvidosa.
Entre 2015 e 2019, a Madeira registou recordes consecutivos no número de visitantes. Hotéis lotados, trilhos de montanha movimentados e ruas cheias no Funchal eram cenas comuns. Para muitos madeirenses, o turismo representava uma importante fonte de rendimento e uma oportunidade de desenvolvimento. Contudo, para outros, começava a surgir um sentimento de desgaste. O convívio entre locais e turistas nem sempre era harmonioso.
Problemas como o lixo deixado nas levadas, comportamentos impróprios em espaços religiosos ou históricos e o uso desrespeitoso das praias e trilhos naturais evidenciavam a necessidade de uma maior consciencialização. O civismo, o conjunto de atitudes que reflectem respeito pelo outro e pelo espaço comum, tornava-se cada vez mais essencial para garantir uma convivência equilibrada entre visitantes e habitantes.
As autoridades regionais e entidades do sector começaram a investir em campanhas de sensibilização. Frases como “Respeite a Natureza”, “Leve apenas memórias, deixe apenas pegadas” ou “Sorria, está na Madeira” passaram a fazer parte do imaginário turístico local. O objectivo era simples, educar sem afastar.
O respeito, tanto pela cultura como pelo ambiente, tornava-se uma bandeira. Iniciativas de turismo sustentável começaram a ganhar força, promovendo visitas mais conscientes e integradas com a realidade local.
A chegada da pandemia em 2020 interrompeu bruscamente essa dinâmica, mas deixou lições claras. O turismo não pode crescer a qualquer custo. O equilíbrio entre acolhimento e preservação, entre promoção económica e qualidade de vida, depende do civismo de todos, turistas, residentes e entidades públicas.
Com a retoma gradual do sector, muitos olham para o passado recente como uma oportunidade de repensar o modelo turístico da Madeira, reforçando a importância de um turismo baseado no respeito mútuo e na valorização do que torna o arquipélago único.
Onde está a resposta política. Silenciosa, vaga, lenta. Medidas eficazes de regulação do turismo são prometidas, mas raramente aplicadas. Há falta de fiscalização real nos trilhos, ausência de limites na carga turística e pouca aposta em sensibilização, para turistas e locais. O medo de estragar a economia parece justificar a destruição progressiva do equilíbrio ambiental, cultural e social da ilha.
É possível viver do turismo sem se tornar escravo dele. É possível receber bem sem se anular. Mas para isso é preciso coragem política, participação dos cidadãos e um novo modelo que dê prioridade ao bem-estar da ilha e dos madeirenses a longo prazo, e não apenas aos lucros de curto prazo.
A Madeira é mais do que um destino bonito. É casa, é história, é natureza viva. Há mais de quinhentos anos que são os madeirenses que cuidam do seu bem maior. É urgente que os políticos escutem os lamentos da natureza e dos madeirenses.
Chefe, José Maria Ramada
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