Parte 3 de 4 - Presidenciais 2026: na raiz do problema, o sistema dos partidos tradicionais e a falsa democracia em Portugal

Presidenciais 2026: na raiz do problema, o sistema dos partidos tradicionais e a falsa democracia em Portugal



Parte Nr° 3 de 4 

Agora vamos referir alguns pontos dos candidatos e começo por: 

Henrique Gouveia e Melo surge como independente, mas independente apenas no rótulo. A sua imagem foi construída na pandemia, num tempo de medo e obediência. Para alguns foi símbolo de organização, para muitos outros ficou associado à frieza, à opacidade e à ausência de humanidade num período de dor. Não tem percurso político, não tem enraizamento democrático, não vive a realidade da emigração actual. O Almirante sem raízes, que quer ser dono da nação portuguesa! Nasceu em Moçambique, terra que nunca foi Portugal, apenas colónia sustentada por um império que já não tinha fôlego para se manter. Não nasceu em território português, não respirou o chão que molda o sentir da pátria, não traz no berço o pulsar antigo das aldeias, das serras e das cidades que fazem de um Presidente o guardião da identidade nacional. A lei pode ampará-lo, mas o simbolismo não o reconhece como filho da terra. A lei pode aceitá-lo, mas a Presidência exige alma, não comando.


Luís Marques Mendes representa o candidato moldado pelo comentário político. Décadas no PSD, cargos relevantes, oportunidades reais, obra fraca. Hoje tenta vestir independência, mas o passado pesa. Portugal já experimentou presidentes fabricados nos estúdios e conhece bem o resultado, proximidade sem firmeza, palavras sem protecção, presença sem autoridade. Figura moldada ao longo de anos no aparelho partidário, deu mais nas vistas como comentador televisivo na SIC do que enquanto governante com poder efectivo. Teve pastas importantes e influência directa, mas deixou um rasto pálido, sem rasgo nem marca que fizesse o país erguer a cabeça com respeito. Fez quase tudo dentro do partido, menos chegar a primeiro-ministro, e é sobretudo pelos estúdios de televisão que o povo o recorda, não pelos corredores do poder. Ao avançar para a Presidência da República, tenta agora vestir pele de lobo, como se fosse possível desligar de um dia para o outro a longa história que o prende ao PSD. Mas o passado não se despe como um casaco velho. A acusação pública de Henrique Gouveia e Melo, ao chamá-lo “cavalo de Tróia do PSD”, ficou dita em praça aberta e não se apagou. Pesa sobre ele como pedra imóvel, lembrando que Belém não é palco de comentário, é lugar de autoridade, firmeza e coragem que até hoje não mostrou.


António José Seguro, candidato do PS, regressa tarde e inseguro. Foi líder, teve tempo, teve espaço, deixou pouco. Divide o próprio partido e não mobiliza o país. A Presidência não é lugar para compensações de carreira nem para regressos sem chama. Carrega um nome pesado e um percurso que não se impôs. Apresenta-se como homem que hesita, que avança com cautela excessiva, mais marcado pela dúvida do que pela convicção. Pode ter vontade de servir, mas a vontade não substitui a firmeza nem apaga o tempo perdido. Num país cansado, a Presidência exige rumo, não nostalgia, e pede coragem acesa, não passos medidos pelo medo de falhar. Seguro surge como sombra do próprio tempo e do próprio partido, figura que regressa, quando já poucos recordam o seu passo discreto, homem que atravessou cargos sem deixar marca profunda, navegando silenciosamente enquanto o país mudava à sua volta. Há quarenta anos deixávamos a tormenta revolucionária, agora entramos noutra transformação, e Portugal não precisa de um Presidente que faça as pazes, mas de alguém que indique o caminho. Ele não está seguro de nada, um indivíduo que pouco ou nada fez enquanto teve cargos no PS e, desaparecido há muitos anos, reaparece quase do nada, já ninguém se lembrava dele.


João Cotrim de Figueiredo, da Iniciativa Liberal, surge claramente beneficiado pela comunicação social. Ex-director de televisão, promovido por sondagens e debates, aparece repetidamente levado ao colo, enquanto outros foram empurrados para a sombra. A desigualdade mediática é evidente, não nasce do mérito, nasce do mecanismo. Actualmente exerce mandato no Parlamento Europeu e traz no currículo a passagem pela direcção-geral de um grande canal televisivo, onde permaneceu entre 2010 dois e 2012. Com percurso profissional sólido, avançou para a candidatura presidencial envolto num ambiente mediático favorável, construído mais por exposição contínua do que por confronto real de ideias. A televisão que conhece por dentro acompanha-o com benevolência, ao mesmo tempo que exclui vozes incómodas e alternativas fora do sistema. Sondagens surgem a empurrá-lo para cenários de segunda volta, debates repetem o seu nome até à exaustão, e o espaço público é moldado para o apresentar como opção inevitável. O que se vê não é neutralidade, é engenharia de visibilidade. Não é pluralismo, é selecção. O sistema protege quem lhe é próximo e afasta quem o questiona. Há ainda acusações públicas antigas, vindas do próprio meio jornalístico, que apontam para práticas de pressão, silenciamento e subordinação da liberdade de imprensa a interesses empresariais. Esses episódios não pertencem apenas ao passado, repetem-se hoje sob outras formas, com exclusão, pagamentos e critérios opacos na escolha de quem pode falar ao país. Nada disto é acaso. É continuidade. A mesma mão invisível que ontem calou jornalistas, hoje cala candidatos. Assim se confirma que a comunicação social do sistema continua a decidir quem aparece e quem desaparece, quem sobe e quem é apagado da vida pública. Portugal não escolhe em igualdade quando a informação deixa de ser ponte e passa a ser filtro.


António Filipe, da coerência ideológica às contradições do sistema, candidato apoiado pela CDU, rosto histórico do PCP.  A sua vida política fez-se dentro das instituições, autarquias, Assembleia da República, vice-presidências parlamentares, comissões e debates constitucionais. António Filipe carrega consigo polémicas que o afastam de uma parte significativa do eleitorado. A leitura que faz de Cuba, recusando chamar ditadura a um regime marcado por décadas de repressão, pesa. Não é lapso, é posição consciente. O mesmo sucede com a guerra na Ucrânia. Condena formalmente a invasão, mas relativiza responsabilidades e aponta o dedo ao Ocidente, rejeitando o envio de armas e criticando alianças militares. Fala a partir de uma matriz ideológica clara, sem improviso, mas essa clareza choca com a sensibilidade de um país que, mesmo cansado do sistema, não acompanha esse enquadramento. No contexto destas presidenciais, António Filipe surge como peça de rearrumação da esquerda. A sua candidatura empurra outros para a margem, fragiliza lideranças concorrentes e divide um espaço já enfraquecido. Está a meio caminho, tolerado, mas não promovido. António Filipe seria preferível a muitos outros, lembrando que Portugal já teve, no passado, uma chefe de governo vinda do PCP, Maria de Lurdes Pintasilgo, que governou com isenção num período difícil. Esta memória não é detalhe, é prova de que a História é mais complexa do que os rótulos fáceis. António Filipe representa, assim, um paradoxo. É coerente num sistema incoerente, é sério num palco de encenação, mas traz consigo uma bagagem ideológica que o impede de falar a um país mais amplo. Não é candidato de ruptura, mas também não é boneco do sistema mediático. É, talvez, o último político de uma escola que se extingue.


Catarina Martins, figura que durante anos foi apresentada como rosto renovador da esquerda portuguesa, mas que chega a estas presidenciais carregando mais passado do que futuro. Entrou na política pelo Bloco de Esquerda, partido que prometia romper com o sistema e acabou por se sentar confortavelmente à mesa do poder. Durante a geringonça, Catarina Martins não foi espectadora, foi sustentáculo. Apoiou governos do PS, viabilizou orçamentos, fechou os olhos quando lhe convinha e ergueu a voz apenas quando o ciclo político já se encontrava em desgaste. Governar cansa, mas governar sem assumir responsabilidade cansa ainda mais o povo. Quando hoje critica a degradação da saúde, da habitação, da justiça ou da educação, esquece-se de um detalhe essencial, esteve lá quando podia ter mudado alguma coisa. Teve força parlamentar, teve palco, teve influência. O resultado está à vista, o Bloco encolheu, perdeu deputados, perdeu relevância e perdeu ligação ao país real. A palavra não chegou para compensar a ausência de transformação concreta. Catarina Martins fala da Troika, de Passos Coelho, do passado conveniente, enquanto evita encarar o seu próprio legado. Chama a um adversário de “bully político”, mas não percebe que o rótulo fácil regressa como boomerangue. Quem chama extrema-direita abre espaço para ser chamado extrema-esquerda. A linguagem simplista empobrece a democracia e infantiliza o debate. Catarina indignou-se com as escutas a António Costa, classificando-as como gravíssimas. Mas quem sustentou politicamente esse Governo tinha o dever de escrutinar antes, não depois. A indignação tardia soa a cálculo e não a princípio. Como diz o povo, comeu com eles e agora estranha o sabor. Catarina Martins fala de tudo, menos de quem vive fora. Não toca no problema dos emigrantes, não exige voto electrónico, não fala da exclusão dos emigrantes nos boletins de voto. Para quem se diz defensora dos direitos humanos, o esquecimento é ensurdecedor. A emigração não rende votos fáceis, logo não rende discurso. A Presidência da República exige outra densidade.


Jorge Pinto, do Livre, concentra-se como num espelho a soma das contradições do sistema político-mediático português. Nada começa nele, mas tudo se denuncia através dele. A sua candidatura não é apenas fraca, é sintoma. Apresenta-se como homem da esquerda, vindo de um partido que se diz fora do sistema, mas que vive à sombra dele. O Livre não tem peso popular, não tem implantação real, mas teve aquilo que outros não tiveram, palco televisivo, debates, tempo de antena, visibilidade. Um privilégio que não nasce da força, mas da conveniência mediática. Diz que desiste a favor de António José Seguro, depois diz que afinal preferia Sampaio da Nóvoa, confessa que esperou até ao fim por outro candidato que nunca apareceu, e chega ao ponto de afirmar que não quis ser “pobre tolo”. Quem fala assim não lidera, revela-se. Um candidato que entra a pedir desculpa por existir não está preparado para representar a República. Mais grave ainda, afirma que poderia dissolver o Parlamento se a direita mexesse na Constituição. Então afinal desiste ou dissolve. Combate ou abandona. Ninguém sabe, talvez nem ele. Um país não se governa com frases que se anulam a si próprias. Jorge Pinto participa em debates sem ter reunido as 7.500 assinaturas, enquanto outros candidatos, com milhares de assinaturas validadas, são excluídos. A pergunta impõe-se, quem tem palco sem cumprir regras, quem cumpre regras sem palco. Isto não é democracia, é encenação. Jorge Pinto transforma-se assim no símbolo involuntário de um sistema que escolhe candidatos dóceis, hesitantes, incapazes de romper verdadeiramente. Recebeu o palco e desperdiçou-o. Falou quando outros foram calados. E ao fazê-lo revelou o pior do regime, não a sua força, mas a sua pobreza. A política não é um reality show. A Presidência da República não é um ensaio. Quem entra para desistir insulta quem assinou, quem acreditou e quem ficou de fora. A candidatura de Jorge Pinto não caiu, foi exposta. E ao cair, mostrou como a comunicação social e os partidos do sistema manipulam a ideia de escolha.


O meu apoio assumido a André Ventura e a ruptura consciente com o sistema instalado, enquanto Delegado do Chega no Consulado-Geral de Portugal em Zurique, nasce de uma escolha clara, feita com consciência política, com leitura do regime e com sentido de futuro. O apoio a André Ventura, candidato do Chega, não nasce do acaso, nasce da constatação dura de que o sistema político-mediático português não admite verdadeira ruptura. Depois de atravessar o caminho árduo da pré-candidatura independente, que embora aguardava apoio do Chega, mas André Ventura avançou e a minha consciência era apoiá-lo, mesmo depois de reunir milhares de assinaturas sem partido, sem televisão e sem máquina, tornou-se evidente que a democracia portuguesa não funciona em pé de igualdade. Uns entram nos estúdios antes de cumprir a lei, outros cumprem quase tudo e ficam à porta. Uns são empurrados para os debates, outros empurrados para o silêncio. 

Perante este quadro, persistir isolado seria apenas servir o espectáculo que o sistema deseja. A desistência não foi rendição, foi acto político consciente. Não se tratou de medo, nem de falta de convicção, mas de recusa em dividir o espaço de ruptura e, por essa via, beneficiar exactamente aqueles que sempre governaram, PS, PSD e as suas extensões parlamentares, CDU, Bloco de Esquerda, PAN, todos corresponsáveis pelo estado do país, pela degradação dos serviços públicos e pelo abandono sistemático da emigração. O apoio a André Ventura surge porque, no meio de candidatos reciclados, comentadores promovidos e figuras moldadas pela televisão, ele permanece como o único fora do eixo tradicional do poder. Não é unanimidade, nunca será, mas é ruptura. E num tempo cansado, a ruptura vale mais do que a falsa harmonia. 

Este apoio é também indissociável da defesa dos emigrantes, tema que os outros evitam como quem evita o fogo. Falhas no voto, boletins que não chegam, famílias inteiras privadas de direitos, ausência de soluções como o voto electrónico seguro. Só o Chega levou estas questões de forma consistente à Assembleia da República, através do Deputado pelo Círculo da Europa, José Dias Fernandes, rompendo o silêncio cúmplice dos partidos do sistema. Aqui assume-se igualmente a função exercida na diáspora, Delegado do Chega no Consulado-Geral de Portugal em Zurique, não como título decorativo, mas como trabalho concreto, contacto directo com injustiças reais, denúncias formais e intervenção institucional. A emigração não é bandeira de campanha, é vida diária, é gente de carne e osso. Há, contudo, lucidez crítica. 

Reconhece-se que num regime semi-presidencialista a força maior está no Governo e não em Belém. Reconhece-se que André Ventura teria maior margem como Primeiro-Ministro. Mas a política também se faz de contextos, e neste contexto específico, apoiar a candidatura presidencial de Ventura é impedir que o sistema se recomponha por dentro com mais um rosto dócil. Este ponto é, por isso, mais do que apoio, é acusação. Acusação a um regime que fabrica candidatos, a uma comunicação social que decide quem existe, a partidos que falam de democracia enquanto a esvaziam. E é também declaração de fidelidade a uma ideia simples, Portugal precisa de verdade, não de encenação, precisa de coragem, não de consensos ocos.  


Revista Repórter X Editora Schweiz Oficial

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