Póvoa de Lanhoso: a sombra dos impostos e o sonho de cidade

Póvoa de Lanhoso: a sombra dos impostos e o sonho de cidade



Nas eleições autárquicas, o Quelhas, como presidente da Revista Repórter X, escreveu na própria revista e nas redes sociais que os impostos na Póvoa de Lanhoso, principalmente o IMI, e as taxas de lixo, contador de água e outros resíduos, que eram dos mais caros do país, pesavam no dia-a-dia de quem trabalha e sustenta a terra. Avisou, escreveu, denunciou. Mas os povoenses quiseram escolher de novo o presidente Frederico Castro, e agora que aguentem, porque a conta chega sempre a quem menos pode fugir dela.
A terra ergue-se em murmúrio antigo, e os povoenses sentem hoje o peso de duas marés que chegam ao mesmo tempo, uma feita de aumentos brutais de impostos, outra feita de promessas de cidade, como se a Vila pudesse vestir gala num dia e esconder a factura no seguinte.
Na Assembleia Municipal de 28 de Novembro, a maioria do PS levantou a mão a favor do aumento das taxas de IMI e da derrama, fixada em 1,2% sobre o lucro tributável das empresas sujeitas a IRC no ano fiscal de 2025, isentando apenas quem não ultrapasse 150.000 euros de volume de negócios. O PSD votou contra, mas a força do número venceu, e o bolso dos povoenses foi outra vez escolhido para pagar aquilo que a Câmara não assume que falhou.
E é neste cenário de carga fiscal que chega o anúncio repetido de que a Póvoa de Lanhoso poderá ser cidade em 2026. Antes de se acenderem fogos, antes de se erguerem taças, antes de se escreverem discursos de vitória antecipada, convém olhar para a terra real, aquela que perdeu fábricas, perdeu o têxtil que sustentava famílias inteiras, perdeu comércio, perdeu movimento, perdeu juventude, e se tornou dormitório de Braga e de Guimarães.
Uma cidade não nasce de marketing, nem de slogans, nem de fotografias de campanha, nasce de vida, de obra e de verdade, não de tretas. E por isso é justo perguntar, com a dureza da pedra do Castro de Lanhoso, que vantagem real trará este estatuto se, ao mesmo tempo, aumentam os impostos, crescem as despesas, sobem as exigências e continuam por resolver as raízes do abandono.
A elevação a cidade, tal como é anunciada, parece servir mais o ego de quem governa do que a necessidade de quem cá vive. O povo paga os impostos e paga o futuro, e a Vila, que já luta para respirar, vê-se agora empurrada para um título que pode pesar-lhe mais do que ajudar.
Um referendo, simples como a verdade, seria o mínimo. Ninguém elegeu presidente para fazer o que quer, mas para cumprir o que o povo deseja. E o povo merece ser ouvido antes de ser cobrado, merece clareza antes de títulos, merece verdade antes de promessas. A Póvoa não pode ser cidade só no papel, enquanto o comércio fecha, enquanto os jovens partem, enquanto o centro morre, enquanto se inventam nomes ingleses para embelezar projectos que não mudam a vida de ninguém.
O concelho tem potencial, tem montes, rios, história, tem no Castro de Lanhoso o guardião da memória, tem na barragem das Andorinhas uma riqueza por despertar, tem nas freguesias a força que pode unir, mas falta visão, falta estratégia, falta obra, aquela verdadeira, que não posa para fotografia.
Ser cidade só fará sentido quando cada freguesia crescer com a Vila, quando houver emprego dentro do concelho, quando o centro voltar a respirar, quando o comércio renascer, quando a mobilidade servir trabalhadores e estudantes, quando a saúde atender pobres e ricos, quando deixarem de maquilhar a terra e começarem realmente a construí-la.
A Póvoa de Lanhoso merece mais do que impostos altos e títulos vazios, merece trabalho, merece justiça, merece futuro. E o futuro começa quando forem capazes de ouvir o povo, e não apenas de lhe cobrar.
autor: Quelhas

Revista Repórter X Editora Schweiz Oficial

Comentários

  1. Há críticas que são legítimas e não devem ser ignoradas. A carga fiscal pesa, os impostos nunca são populares e qualquer aumento tem impacto real na vida das famílias e das empresas. Fingir o contrário seria desonesto. No entanto, transformar essa realidade num exercício de indignação permanente, sem contexto, sem dados e sem responsabilidade, empobrece o debate e não ajuda a Póvoa de Lanhoso a avançar.
    Comecemos pelo essencial: sem receita fiscal não há evolução. Nenhum concelho cresce sem dinheiro, não há obras públicas, serviços, apoios sociais, investimento em infraestruturas ou planeamento estratégico sem financiamento. Os impostos não são um castigo moral, são um instrumento de governação. A discussão séria não é se devem existir, mas se são justos, proporcionais e bem aplicados.
    Reduzir a política fiscal do município a uma caricatura de “ganância” ou “castigo ao povo” ignora um facto simples: governar é escolher, e escolher implica equilibrar contas, responder a necessidades acumuladas e preparar o futuro. O executivo liderado por Frederico Castro não governa num vazio, governa depois de anos de perda económica, de desertificação jovem, de encerramento industrial e de mudanças profundas no modelo produtivo do território.
    Também é injusto insinuar que os povoenses “agora aguentem” por terem votado como votaram. Essa lógica é perigosa e antidemocrática. O voto não é um erro a punir, é uma escolha legítima. Quem foi eleito governa com mandato democrático e responde por isso, mas não governa contra o povo nem à revelia dele. A responsabilidade política é do executivo, sim, mas a crítica deve ser feita com respeito por quem participa no processo democrático.
    Quanto ao estatuto de cidade, importa clarificar: tornar-se cidade não implica automaticamente mais impostos. Não é uma imposição administrativa nem uma consequência inevitável. É uma ambição política que pode trazer vantagens simbólicas, institucionais e estratégicas, desde que acompanhada de planeamento, investimento e visão. Usar o estatuto de cidade como bode expiatório para decisões fiscais é simplificar um debate que é mais complexo.
    Falar em “marketing”, “maquilhagem” ou “nomes ingleses” pode render aplausos fáceis, mas sem exemplos concretos, projetos identificados ou números claros, essa crítica dissolve-se no ruído. Se há erros, desperdícios ou más prioridades, eles devem ser apontados com precisão. Caso contrário, corre-se o risco de criticar tudo e, no fim, não provar nada.
    A Póvoa de Lanhoso tem potencial real. Tem território, história, património, posição geográfica e comunidade. Reconhecer isso não é contraditório com admitir dificuldades; pelo contrário, é precisamente porque há potencial que se exige governação responsável, contas equilibradas e decisões que nem sempre são populares, mas que visam criar condições para o futuro.
    Criticar é legítimo. Discordar é saudável. Mas o debate público ganha pouco quando se troca análise por dramatização e responsabilidade por frases de efeito. A governação de Frederico Castro pode e deve ser escrutinada, mas esse escrutínio deve assentar em dados, propostas e seriedade — não na ideia simplista de que, sem impostos, tudo seria fácil, nem na fantasia de que se constrói futuro sem pagar o preço das escolhas.
    A Póvoa não precisa de gritos nem de moralismos. Precisa de debate sério, de visão de longo prazo e de um esforço coletivo para transformar receita em desenvolvimento real. É nesse terreno que a política deve ser avaliada.

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