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A Madeira Actual: entre o brilho turístico e a sombra social
A Madeira Actual: entre o brilho turístico e a sombra social
A Madeira vive hoje uma contradição profunda e inquietante. Mostra-se ao exterior como destino de excelência, seguro, bonito, organizado e desejável. Porém, por detrás do postal ilustrado, cresce um mal-estar social que já não pode ser varrido para debaixo do tapete.
A Região caminha, a passos largos, para um modelo económico quase exclusivo do turismo, esquecendo-se, de forma perigosa, de quem cá vive. O brilho de fora começa a toldar a vida de dentro.
Investe-se em campos de golfe, hotéis de luxo e infra-estruturas pensadas para quem vem de passagem. Ao mesmo tempo, delapida-se património, como revela a recente notícia da venda do Hospital Dr. Nélio Mendonça, enquanto faltam lares de idosos, camas de cuidados continuados e respostas sociais básicas. A habitação transformou-se num luxo. As rendas são incomportáveis, a compra de casa está fora do alcance da maioria e muitos jovens são empurrados para a emigração por falta de perspectivas. Trabalha-se muito, ganha-se pouco e vive-se cada vez pior.
A pressão turística faz-se sentir no quotidiano. Ir a um restaurante deixou de ser um hábito acessível à classe média baixa. Trilhos que sempre foram património natural e cultural dos madeirenses passaram a exigir marcações e burocracias que afastam os próprios residentes do que sempre foi seu. E, pasme-se, até os proprietários têm de pedir autorização para aceder às suas terras, pagando impostos como tal. A ilha que se orgulhava da proximidade à natureza começa a vedá-la aos seus habitantes. Apenas 5% dos madeirenses podem visitar diariamente os trilhos, reservando-se 95% para os turistas. Inacreditável.
No plano social, os sinais de alerta acumulam-se. A pobreza aumenta, o número de sem-abrigo cresce e fenómenos graves como a violência doméstica agravam-se. A pequena criminalidade e a falta de civismo nas estradas e nos espaços públicos tornaram-se mais visíveis. A segurança, outrora um dos grandes trunfos da Região, já não é um dado adquirido. As vias rápidas figuram hoje entre as mais perigosas do país, com elevados índices de sinistralidade. As noites na Madeira, antes animadas e belas, tornaram-se inquietantes. Raramente há fins-de-semana sem pancadaria e até esfaqueamentos no centro do Funchal. Falta policiamento e a tão desejada Polícia Municipal tarda em chegar, apesar de poder constituir uma verdadeira mais-valia.
A imigração, necessária e inevitável, ocorre muitas vezes sem integração digna, marcada por exploração laboral e condições precárias. Em paralelo, cresce a sensação de perda de identidade e de desrespeito pelos usos, costumes e cultura locais. A Madeira corre o risco de se transformar num palco onde os habitantes são meros figurantes. Fala-se já na construção de uma mesquita para uma população muçulmana de pouco mais de mil pessoas, quando a prioridade urgente deveria ser a habitação, tanto para madeirenses como para emigrantes.
Privilegia-se quem visita em detrimento de quem constrói a Região todos os dias. Esta lógica é insustentável a médio e longo prazo. Uma terra que esquece os seus não pode esperar prosperar de forma justa. A Madeira não pode ser apenas um produto turístico. É casa, é comunidade, é cultura viva.
A chamada Pérola do Atlântico, outrora comparada a uma pequena Suíça, arrisca-se a esvaziar-se de dignidade social se não houver coragem política e cívica para recentrar prioridades.
O desenvolvimento só é verdadeiro quando inclui as pessoas. Tudo o resto é fachada, bonita por fora, mas frágil por dentro.
José Maria Ramada
Revista Repórter X / Repórter Editora

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