A SVA surge neste caso como símbolo de uma prática repetida e persistente,
a resposta que não esclarece, o silêncio, a paciência exigida a quem já esgotou o tempo da espera:
Chegou à redacção da Revista Repórter X uma comunicação breve, formal, cuidadosamente redigida para não dizer o essencial. Não se trata aqui de uma simples curiosidade administrativa nem de um pedido genérico de informação.
Trata-se de um pedido claro de rectificação de pensão. Trata-se de saber se anos de trabalho contam ou não contam. Trata-se de saber se descontos efectuados entram ou ficam perdidos no labirinto do sistema.
A cidadã pediu números, datas, fundamentos: Pediu saber se os descontos realizados por duas firmas, e que falharam no seu dever contributivo, ou que terão sido omitidos nos registos da própria instituição SVA, estão ou não incluídos no cálculo da pensão de invalidez. Pediu saber se esses valores podem corrigir a pensão e aumentá-la, como a lei prevê quando há prova de contribuições em falta. Pediu, de forma directa, a prova documental desses descontos.
A resposta não entra na carta. Não confirma nem nega. Não diz se os descontos existem nos cálculos. Não diz se foram considerados. Não envia qualquer prova. Limita-se a invocar a existência de um processo judicial pendente para justificar a ausência total de esclarecimento.
Fecha-se a porta, suspende-se o dever de explicar, transfere-se o peso da incerteza para quem depende da pensão para viver.
Aqui está o ponto central. Explicar não interfere com o processo judicial que a contribuinte remeteu para tribunal. Mostrar cálculos não altera decisões. Enviar prova documental não viola justiça alguma. O que se recusa não é um acto proibido, é um acto incómodo. E esse incómodo recai sempre sobre o mesmo lado, o do cidadão que pergunta, insiste e não desiste.
Este caso não é isolado. Repete-se com outros nomes, outros números, outras vidas. Um sistema que sabe que o silêncio desgasta mais do que uma resposta clara. Um sistema que aposta no cansaço como ferramenta de gestão. Mas também um sistema que esquece que cada dossiê corresponde a uma história concreta, a um corpo limitado, a uma vida que não pode ficar suspensa.
A Revista Repórter X regista este documento como acto de memória e de responsabilidade pública. Não para atacar, mas para expor. Não para dramatizar, mas para clarificar. Porque quando uma instituição não responde a perguntas objectivas, alguém tem de escrever o que falta.
O futuro constrói-se com transparência, com provas, com responsabilidade assumida. Quem pede rectificação não está a pedir favores, está a exigir justiça contributiva. E enquanto houver descontos sem explicação, cálculos sem prova e perguntas sem resposta, haverá palavras escritas. Porque a verdade pode ser empurrada, mas não desaparece.
autor Quelhas
Revista Repórter X / Repórter Editora

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