Pensões curtas, vida encurtada

Pensões curtas, vida encurtada:


As pensões pagas hoje a pessoas inválidas não chegam para viver. Não chegam para pagar a renda da casa, não chegam para garantir alimentação regular, não chegam para vestir, nem para assegurar água, luz, telefone, internet e os cuidados em casa de que muitas dessas pessoas dependem para continuar a existir com alguma autonomia. Isto não é retórica, é conta simples, feita todos os meses à mesa da cozinha.

Quando o valor da pensão não chega, o sistema não a corrige. Não a eleva a um patamar normal, suficiente para cobrir despesas normais de uma vida simples. O que faz é acrescentar pedidos. Pede-se à mãe, pede-se ao pai, pede-se ao cônjuge, pede-se aos filhos. A segurança social entra pela porta lateral e pergunta quem pode pagar o que ela decidiu não pagar. Esse valor acrescido, exigido de forma indirecta, não seria necessário se a pensão fosse, desde o início, um rendimento digno.

Em vez disso, opta-se por pensões baixas e por um emaranhado de prestações complementares que só chegam a quem pede, a quem sabe pedir, a quem tem forças para insistir. Quem tem vergonha fica de fora. Quem está demasiado doente para lutar fica de fora. Quem sobrevive graças à família deixa de contar para as estatísticas, mas conta para a conveniência do sistema.

Os cuidados em casa, apresentados como apoio, tornam-se mais uma factura. Há medicamentos que não são comparticipados. Há participações obrigatórias de dez por cento. Há despesas fixas que não desaparecem só porque o corpo falhou. E no fim do mês sobra quase nada. Férias não entram na equação. Descanso também não. A vida reduz-se à gestão da escassez.

Tudo isto acontece dentro da legalidade. A lei existe, os direitos existem, mas estão fragmentados, condicionados, dependentes de prova constante da própria miséria. O resultado não é justiça social, é dependência organizada.
 
Um sistema que funciona melhor quando a família substitui o Estado, quando o silêncio substitui a reclamação, quando o cansaço substitui a exigência.

Uma pensão digna evitaria este labirinto. Um rendimento suficiente tornaria desnecessários muitos pedidos, muitas humilhações, muitas exposições da vida privada. O que hoje é apresentado como ajuda extraordinária deveria ser a base. O normal.

Enquanto se aceitar que pensões que não chegam são inevitáveis, continuará a pedir-se aos outros o que devia ser garantido pelo colectivo. Enquanto se chamar apoio ao que é apenas compensação tardia, continuará a faltar o essencial. E enquanto isto não for dito com clareza, continuará a parecer que o problema está nas pessoas e não nas escolhas que foram feitas.

Não está.

Está na forma como se paga pouco e se exige muito.

E isso não é destino, é decisão.

autor: Quelhas

Revista Repórter X / Repórter Editora

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