Resposta da Lesada à técnica de coisa nenhuma

Resposta da Lesada à técnica de coisa nenhuma:



Você está armada em que posição, diga-me. Não é médica, não é advogada, não é seguradora, não é magistrada, não é representante do estado suíço nem do estado português. Fala como quem observa de fora, sentada numa cadeira confortável, com o corpo inteiro, os nervos intactos e a vida a correr dentro do que chama normalidade.

O meu texto não nasceu de um manual, nasceu da dor. Não nasceu de um regulamento, nasceu de um corpo operado sem consentimento informado, de um nervo perfurado, de noites sem dormir, de anos perdidos. Quando escreve “é normal” que os médicos tenham medo, revela mais sobre o sistema que defende do que sobre a minha situação. Um sistema onde o medo dos profissionais pesa mais do que o sofrimento do doente é um sistema falhado, e não sou eu que tenho de o aceitar em silêncio.

Nunca pedi que Portugal julgasse tribunais suíços. Pedi apoio, presença, voz, orientação, humanidade. Confundir isto com ignorância jurídica é desonesto. O emigrante não pede milagres, pede que o seu país não desapareça quando ele cai.

Diz que não sou obrigada a ter médico de família. Na teoria talvez. Na prática, quem adoece sabe como funciona a pressão económica das seguradoras, os modelos impostos, as penalizações disfarçadas de escolha. Falar de liberdade formal quando o doente está encurralado é brincar com palavras.

Sobre impostos, fala de números como quem fala do tempo. Eu falo de vidas esmagadas, de pensões miseráveis, de invalidez, de regressos forçados, de gente que trabalhou uma vida inteira e ainda assim tem de justificar a própria miséria. A lei pode ser fria, mas não é neutra no impacto.

Diz que não escreveu opinião pessoal, mas escreveu julgamento. Julgou a minha coerência, relativizou a minha dor, normalizou o abandono. E depois, no fim, fala de si. Teve apoio, teve pessoas fantásticas, teve sorte. Fico contente por si. Mas a sua excepção não apaga a regra, nem cala quem ficou sozinho.

A Suíça não é perfeita, concordo. Portugal também não. Mas quando ambos falham, o emigrante não pode ainda ser acusado de exagero, incoerência ou ingratidão. Quem sofre não precisa de técnica de secretária, precisa de médico, de justiça e de respeito.

Se quiser continuar esta conversa, desça do pedestal invisível onde se colocou. Fale como pessoa, não como voz emprestada de um sistema que só funciona bem para quem nunca precisou dele.


Revista Repórter X / Repórter Editora

Comentários