Cristo de braços abertos, mas não nos abraçou:
Não foi milagre. Não foi aviso. Não foi sinal divino nem anúncio de fim do mundo. Foi metal gasto, ouro cansado de muitos anos ao peito, no trabalho, no quotidiano, em ruas, em encontros, em restaurantes, nos média, em igrejas visitadas por curiosidade e nunca por submissão. Um dia cedeu.
Como tudo o que é usado com verdade acaba por ceder.
E ao ceder, abriu os braços.
Não para salvar a nossa alma, nem para condenar ninguém. Não para pedir votos, nem para os retirar riqueza. Não para bater palmas à mudança, nem para chorar a permanência. Abriu os braços como quem deixa de estar pregado e passa apenas a estar presente.
Há quem veja nisso um sinal de Deus. Há quem veja apenas desgaste na peça. Eu vi uma imagem justa para o tempo que vivemos.
Vivemos pregados há décadas a um sistema que se diz democrático, mas que funciona por automatismo, por partidos fechados, por carreiras repetidas, por discursos gastos que já não tocam ninguém. Uma espécie de ditadura moderna, sem botas nem censura explícita, mas com rotinas que excluem e silenciam.
Tal como aquela cruz, o sistema pode cair. Pode ceder num ponto sensível.
E quando isso acontece, a imagem muda.
Cristo de braços abertos não manda. Não impõe nada. Não promete nada. Não ameaça ninguém. Não se imiscui na escolha dos homens. Não interfere no voto. Não legitima ninguém. Fica. E esse ficar, sem gritar, é talvez o que mais falta hoje.
Não precisamos de salvadores. Precisamos de espaço. Espaço para respirar, para pensar, para discordar, para regressar a casa sem pedir desculpa.
Espaço para acreditar que Portugal pode ser mais do que um circuito fechado de interesses antigos.
Espaço para imaginar um Presidente que não seja ornamento nem eco de partidos, mas consciência incómoda e palavra inteira.
Se isso vai acontecer, não sei. Se esta mudança será melhor, espero. O que sei é simples. Ninguém nos salva se não nos movermos. E ninguém nos condena por tentar mudar.
O Cristo de ouro continuará calado. Não dará votos de confiança nem os retirará. Não aplaudirá nem chorará.
Estará ali, braços abertos, como metáfora nua e suficiente. O sofrimento não é casa. É passagem.
Se este texto incomodar, que seja deitado ao lixo.
Se for ignorado, paciência.
Não foi escrito para agradar. Foi escrito para marcar uma fase. Eu revejo-me numa nova fase para melhor da minha família, não sendo crédulo e céptico, Cristo que abriu os braços na minha cruz quando se descolou, no qual dá a sensação que está a sair da cruz, pode estar a querer dar-nos um abraço. É apenas imaginação.
autor: Quelhas
Revista Repórter X / Repórter Editora

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