Há só um mar: unidade, nomes, ciência do povo e vida: não há 7 mares
A Revista Repórter X pesquisou sobre o assunto e apresenta as reflexões que se seguem sobre o universo do mar e a vida do mar, reunindo todas as observações, ideias, contradições aparentes e conclusões que foram sendo colocadas ao longo desta reflexão, sem retirar nada do que já foi dito, apenas acrescentando e clarificando.
O ponto de partida mantém-se simples e inequívoco, "há só um mar."
Não existem mares separados por natureza, nem águas diferentes conforme os nomes que lhes foram atribuídos.
Existe um único corpo de água salgada que envolve a Terra, contínuo, ligado e em circulação permanente. As divisões não pertencem à água, pertencem à linguagem humana, aos mapas e à forma como o ser humano tentou organizar o mundo que observava.
Durante muito tempo falou-se nos 7 mares. Essa ideia não nasceu de medições rigorosas, nasceu da necessidade humana de simplificar o mundo conhecido numa época em que o horizonte era curto. Os 7 mares eram uma convenção simbólica, uma forma de organizar a navegação e o desconhecido. Mais tarde, com a expansão geográfica e cartográfica, começaram a surgir muitos outros nomes.
Hoje fala-se em mais de 50 mares oficialmente designados.
Essa multiplicação não resulta de separações reais da água, resulta da expansão do conhecimento humano e da necessidade de classificar.
Quando se pergunta quem deu os nomes aos mares, a resposta é clara, não foi um cientista antigo ou moderno, foi o povo.
Foram pescadores, navegadores, viajantes, povos costeiros. Analfabetos! Isso não invalida o conhecimento, pelo contrário. Trata-se de ciência empírica, ciência popular, baseada na observação directa.
O povo observou, comparou e nomeou aquilo que via. Nesse sentido, esses nomes são científicos dentro do contexto do seu tempo. A contradição surge mais tarde, quando a ciência moderna, sabendo mais, mantém nomes que já não correspondem à realidade física da água.
Os exemplos são claros e acumulam-se. O chamado Mar Vermelho não é vermelho, a água não tem cor própria. As tonalidades ocasionais resultam de algas microscópicas, da luz e dos reflexos da terra envolvente.
O Mar Negro não é negro, o nome está ligado a tempestades, profundidades e antigos sistemas de orientação.
O Mar Branco deve o nome ao gelo e à neve.
O Mar Amarelo recebe sedimentos dos rios.
O chamado Mar Morto não está morto. É um lago hipersalgado, onde o sal, que é vida, conserva, sustenta processos químicos e permite a existência de microrganismos. A ausência de peixes visíveis não é ausência de vida. O nome resulta apenas daquilo que o olhar humano não via.
Mesmo a distinção entre oceanos segue a mesma lógica.
Atlântico, Pacífico, Índico e outros não são corpos de água separados. São divisões convencionadas de um mesmo mar contínuo. Não existem muros no fundo do mar. As correntes ligam tudo. Um peixe pode atravessar milhares de quilómetros sem nunca sair do mesmo sistema de água.
O mesmo mar manifesta-se de formas muito diferentes. Em certas regiões polares, a superfície congela e forma gelo marinho suficientemente sólido para permitir caminhar sobre ele. Por baixo, a água mantém-se líquida e em movimento. Noutras zonas, junto a actividade vulcânica ou geotérmica, a água aquece de tal forma que não se pode entrar sem risco sério. Em muitas costas, a mesma água oferece condições calmas para o banho.
Não são mares diferentes, são condições diferentes do mesmo mar.
Há também zonas onde se pode nadar e outras onde não, zonas onde a água é quente e outras onde é gelada, zonas tranquilas e zonas perigosas. Isso não cria mares separados. Tal como a terra dá fruto num lugar e pedra noutro, o mar oferece respostas diferentes conforme o local.
A distribuição das espécies segue exactamente essa lógica.
Há locais com sardinhas, outros com bacalhau, outros com atum, outros com focas, outros com tubarões. Isso não prova separação, prova adaptação.
Cada espécie vive onde o corpo aguenta, onde há alimento, onde a temperatura, a profundidade, o oxigénio e as correntes permitem. Quando essas condições mudam, as espécies deslocam-se ou desaparecem.
O mar permanece e reorganiza-se.
Durante séculos, os pescadores sabiam tudo isto sem livros nem classificações excessivas.
Sabiam onde lançar a rede, onde não insistir, onde o gelo sustentava passos e onde a água queimava. Era conhecimento transmitido pela experiência, ciência do povo, directa, prática e eficaz. Hoje, apesar de mais informação, muitas vezes ignora-se essa leitura simples e mantém-se uma linguagem que cria confusão.
A Revista Repórter X entende que insistir na ideia de 7 mares, de mais de 50 mares ou de mares separados é manter uma construção linguística que já não corresponde ao que se sabe sobre a água. Há uma contradição entre o conhecimento actual e a linguagem herdada. Pensar o mar como um só não reduz o conhecimento, torna-o coerente.
Há só um mar. Com muitas condições, muitas manifestações e muitas formas de vida. Os nomes contam a história humana, não a história da água. Enquanto o ser humano continuar a confundir nomes com realidade, continuará a dividir aquilo que é contínuo. Quando aceitar plenamente que a água é uma só, talvez passe a cuidar dela como um todo, e não como partes imaginárias.
autor Quelhas
Revista Repórter X / Repórter Editora

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