Presidenciais fantasma; ou se vota em todo o território ou não se vota

Presidenciais fantasma; ou se vota em todo o território ou não se vota:



Estas eleições presidenciais em Portugal deveriam, em bom rigor, ter sido adiadas por um mês em todo o território nacional, e não apenas por uma semana em alguns concelhos afectados pela catástrofe natural provocada por sucessivas tempestades. A decisão de adiar a votação apenas em certas freguesias revela falta de visão e quebra do princípio de igualdade entre cidadãos.

Em Portugal, sobretudo nas zonas mais afectadas, a realidade é simples e dura, depois de conhecidos os resultados e sabido quem será o futuro presidente da República, a maioria das pessoas já não irá votar. Não por desinteresse cívico, mas por consciência do absurdo. O acto eleitoral perde sentido quando o desfecho é público antes do último boletim entrar na urna. O que fazia sentido era votar hoje, todos no mesmo tempo, com iguais condições, enquanto a escolha ainda estava em aberto e a voz de cada cidadão ainda podia pesar no resultado final.

Não faz sentido que, no dia 8 de Fevereiro, quando já se conhece o nome do presidente da República, existam eleitores chamados às urnas para exercer um direito e um dever cívico que, na prática, já foi esvaziado de significado. O voto não é um acto decorativo nem um gesto tardio, é participação efectiva no destino comum, e isso perdeu-se no momento em que o resultado ficou decidido antes de todos poderem votar.

Em contraste, no estrangeiro, as eleições presidenciais têm registado uma participação assinalável, demonstrando que, quando existem condições claras, tempo justo e respeito pelo eleitor, a diáspora responde e cumpre. Fica a sensação amarga de que, em território nacional, se escolheu a pressa em vez da justiça, o calendário em vez da dignidade democrática.

A democracia vive de regras antigas e simples, todos votam em igualdade, todos contam da mesma forma, e quando isso falha, não é apenas um adiamento que está em causa, é a confiança no futuro colectivo que fica ferida. Ainda há tempo para aprender, mas só se houver coragem para dizer as coisas como são e corrigir o que foi mal feito.

Nota:
Queixa do ex-pré-candidato à Presidência da República que ficou pelo caminho, sempre sem respostas dos mesmos, a Comissão Nacional de Eleições, entidade que tinha a responsabilidade de ponderar o adiamento das eleições em Portugal e não o fez. Não o fez porque quem lá está integra o mesmo sistema e os mesmos partidos tradicionais de sempre. O sinal de descontentamento surge sobretudo entre os emigrantes, que se queixam, com razão, de desvantagens claras face aos demais cidadãos residentes em território nacional português.

João Carlos Veloso Gonçalves

autor: Quelhas


Revista Repórter X / Repórter Editora

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