À mesa come-se o que há ou o que se gosta:
A mania de alguns indivíduos apregoarem que muitos emigrantes só comem enlatados para poupar acaba, nos dias de hoje, por ser um mito.
Escrito por maliciosos, ou então por quem não tem poder de compra ou não sabe cozinhar.
Também chamam “avec,s” aos emigrantes em França e pensam que os emigrantes na Suíça nadam em ouro, e para desmoralizar dizem que só comem enlatados e que não saem de casa, apenas para trabalhar, como se fossem escravos. É mentira. Os portugueses de hoje gostam de almoçar e jantar fora, em restaurantes e associações, e essa é também uma das razões de não juntarem muito dinheiro, porque uma refeição com bebida pode valer quase o gasto de uma semana. Mas dizer que poupam a comer enlatados é pura ignorância.
Basta olhar para muitos suíços, que comem frequentemente uma sandes e bebem água da torneira.
No trabalho, sobretudo quem não tem onde aquecer comida, leva enlatados, salsichas, pão, tomate ou uma sandes. É uma questão de rapidez, de evitar comida fria, nada mais.
Ena pá, hoje cada um come o que gosta. E é nesta frase crua, dita sem papas na língua, que se esconde um retracto fiel de muitos dos nossos dias. Há quem escolha por gosto, há quem escolha por necessidade, e há quem, em silêncio, vá ajustando o prato ao peso da carteira.
Como sou fraco de boca, digo-o sem vergonha, apetece-me mais depressa sardinha, atum, feijão enlatado, salsichas, queijo, pão, pêra e laranjas, e ainda ovos de qualquer maneira, cozidos, fritos ou batidos em doce. Não é luxo e nem pobreza, é o que há, é o que quero comer e sempre me sabe bem. Há coisas que não me caem bem, embora goste, como o leite e derivados, e até as laranjas e bananas, se abusar. As carnes brancas pouco me dizem, e a carne de porco depende sempre da forma como foi criada e cozinhada. Já o bife mal passado é tentação a mastigar, mas nem sempre há estômago, nem sempre há bolso para qualquer um.
A verdade é simples e não deve ser escondida, as opções de comer não são muitas quando o dinheiro não chega. No entanto há quem tenha dinheiro de sobra, mas a boca é fraca! Ainda assim, há um valor que se mantém, comer fora eu gosto, porque os nossos restaurantes estão bem representados. E comer em casa, quando sou eu ou a minha cara metade a cozinhar, tem outro peso, mais do que a comida, é a família reunida, é a mesa cheia de presença e amor.
Há também aquilo que pouco entra, pedir comida para casa não me convence. Pizzas, kebabs, batata frita, arroz, leitão e outras refeições chegam frias, cansadas, sem alma.
Comer é no local, fresco acabado de fazer e quente, como deve ser. O resto é sombra do que podia ter sido.
Fica ainda um aviso, que não é de hoje, mas parece esquecido por muitos, comprem enlatados, guardem leguminosas, massa, arroz e água na dispensa. Produtos com tempo, com duração. Não é alarmismo, é prudência.
Pode vir aí um apagão, e quem não estiver preparado não terá razão de queixa. E depois não critiquem quem come enlatados, porque nesses dias serão esses mesmos a fazer falta.
No sítio certo, importa também dizer que ultimamente visitei alguns espaços portugueses onde se come bem, sem enfeites nem invenções, Benfica de Lenzburg, Dão Lafões Schmerikon, Restaurante Dona Olimpia, Restaurante Navegadores Weinfelden, Paraíso Transmontano, Centro Português de Bülach, Grupo Desportivo Lusitano Rickenbach, Central café.
Assim se escreve a vida, entre o que se quer e o que se pode, entre a memória do que já foi e a incerteza do que vem. Mas enquanto houver mesa, mesmo simples, haverá sempre dignidade.
autor: Quelhas
Revista Repórter X / Repórter Editora

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