Crises; o mundo parado, o homem revelado:

Crises; o mundo parado, o homem revelado:

O tempo foi terrível, e entre o que juntou para o bem comum aqueles que se abraçaram, também afastou aqueles que mais amávamos com a morte e, embora voltasse tudo à normalidade, nada voltou exactamente ao mesmo lugar tal como era antes.

O coronavírus travou temporariamente a guerra na Líbia, no Lémen e na Síria, guerras que duravam há anos, não porque tenham acabado, mas porque diminuíram, ficaram em segundo plano, como se o mundo tivesse sido obrigado a olhar para dentro. Também se omite estas guerras com as novas guerras no médio oriente entre a Russia e a Ucrânia e entre Israel e Irão e EUA a barulho!

Pôs fim à prostituição, às discotecas, às boites, travou toda a vida nocturna e indesejável, não acabou, mas diminuiu, parou, recuou como tudo o resto.

Colocou as figuras do desporto, do futebol, do negócio, dos cantores e de tantos outros na sua verdadeira dimensão, muitas vezes demasiado adorados e idolatrados, e de repente ficaram iguais aos outros, sem palco, sem aplauso, sem multidão.

Fez mais bem à natureza do que o ser humano em décadas, o ar limpou, os céus abriram, os rios acalmaram, o mundo respirou, ainda que por pouco tempo.

Reaproximou famílias, trouxe pais e filhos para o mesmo espaço, para a mesma mesa, para o mesmo tempo, fizeram mais filhos, mas também afastou, levou aqueles que mais amávamos, deixou ausências que não se curam.

Devolveu ao desporto aqueles que o tinham deixado, mas também fechou campos, cancelou jogos e interrompeu vidas.

Mostrou-nos os verdadeiros valores humanos importantes para a sociedade e para a vida, médicos, cientistas, enfermeiras, pessoal de cuidados, limpeza, agricultores, caixas, segurança pública e privada, os verdadeiros heróis do nosso quotidiano.

E embora voltasse tudo à normalidade, ficou um quê!?

Temos mais prudência, mais medo, evitamos certos gastos, certos vícios, ficamos mais caseiros.

Já não partilhamos os alimentos da mesma boca, já não bebemos do mesmo copo, já não comemos do mesmo prato como antes, temos mais cuidado com o beijo, porque ficou o cuidado, ficou o receio.

Amamo-nos mais, protegemo-nos mais, pensamos mais antes de agir.

Há menos prostituição, há mais cuidados médicos, mais higiene nos hospitais e clínicas, mais atenção ao próximo.

Há mais artistas que escreveram músicas, que cantaram, que transformaram o silêncio em voz.

Foi como se tudo isto viesse da natureza para reorganizar a sociedade, para pôr cada um no seu lugar e lembrar prioridades.

O mundo voltou ao normal, sim.

Mas ficou um sinal, um “quê” que não se vê, mas sente-se.

E esse “quê” é o que pode, se não for esquecido, mudar o homem.


autor: Quelhas


Revista Repórter X / Repórter Editora

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