Transumantes; Castro Laboreiro, entre o alto e o fundo da vida

Transumantes; Castro Laboreiro, entre o alto e o fundo da vida:


Há palavras que não são apenas descrição, são retracto vivo de um mundo que ainda respira fora do barulho.

Vi um programa do Repórter TVI sobre a vida dos transumantes, aqueles que vivem em permanente ligação com a terra e com o ritmo das estações.

Mostrou uma família que no Verão vivia em cima por causa do sol quente e no Inverno frio na casa de baixo no qual muitas vezes em cima fica coberto de neve e em baixo nem lhe pega. Os animais tranzitam com aquelas duas senhoras, mãe e filha, elas sobem e descem no tractor e os animais como ovelhas, cabras, cães seguem o rasto, os coelhos e galinhas levam na carroça. Lá elas falam portunhol. Não trocam o fim do mundo pela cidade, só há velhos e muitos que sairam em novos estão a regressar. Dizem que há fartura para comer e que as batatas não acabam e claro tem animais. No Verão cortam lenha lá em cima para no Inverno queimar cá em baixo.

No Castro Laboreiro, situado no concelho de Melgaço, no extremo norte de Portugal, junto à fronteira com Espanha, e integrado no Parque Nacional da Peneda-Gerês, a vida continua a obedecer a um ritmo antigo.

Trata-se de um dos últimos redutos da chamada transumância, termo correcto para aquilo que muitas vezes surge deturpado como “trosumante” ou “trasumante”. A transumância é o movimento sazonal de pessoas e animais entre dois lugares distintos ao longo do ano, em busca de melhores condições de clima e pasto.

No Castro Laboreiro, esse movimento faz-se entre as chamadas brandas, situadas no alto da serra e utilizadas no Verão, e as inverneiras, localizadas em zonas mais baixas e abrigadas, onde se vive durante o Inverno e passam o Natal.

Este modo de vida, longe de ser folclore, continua a ser praticado com autenticidade. Pessoas e animais deslocam-se conforme as estações, mantendo um equilíbrio directo com a natureza. A organização do trabalho, a recolha de lenha no Verão para consumo no Inverno e o aproveitamento dos recursos locais seguem um conhecimento transmitido ao longo de gerações.

O falar local mistura português e espanhol, reflexo da proximidade com a Galiza e de séculos de convivência fronteiriça.

Apesar do isolamento e da dureza das condições, há sinais de continuidade. Alguns dos que partiram regressam, reconhecendo na terra uma forma de vida que garante sustento, autonomia e estabilidade. A produção agrícola e a criação de animais asseguram alimento ao longo de todo o ano.

Para além de Castro Laboreiro, a transumância ainda pode ser encontrada noutras regiões de Portugal, embora de forma cada vez mais rara, nomeadamente na Serra da Estrela, em zonas de Trás-os-Montes, no Alto Douro e em partes do Alentejo, onde assume características diferentes mas mantém o mesmo princípio de deslocação sazonal.

O que aqui se descreve não é apenas um costume tradicional. É um sistema de vida estranho para muitos, mas bem estruturado, adaptado ao território e resistente ao tempo. Faz também parte de uma tradição antiga!

Num país em mudança acelerada, estes lugares mantêm uma lógica própria, onde o essencial continua a ser suficiente.

autor: Quelhas


Revista Repórter X / Repórter Editora

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