Vivemos um tempo estranho, parece, de certa forma, uma ditadura. Vivemos um tempo em que pensar ainda é permitido, por enquanto, mas falar tornou-se um risco calculado. Não porque faltem palavras, mas porque somos julgados pelo que escrevemos. Porque quem ousa questionar, quem levanta dúvidas fundamentadas, rapidamente é empurrado para a margem, rotulado, desvalorizado ou simplesmente ignorado.
Curiosamente, são muitas vezes os mais seguros de si os que menos questionam, que ocupam o palco. Falam alto, falam muito, mas dizem pouco. Tornam-se “senhores da razão” sem nunca a terem procurado verdadeiramente. E, no entanto, é precisamente a dúvida, o pensamento crítico, o desconforto intelectual que constrói conhecimento sólido. Os inteligentes duvidam, ponderam, erram e corrigem. Os outros afirmam.
Talvez por isso o velho ditado popular continue tão actual: um burro carregado de livros não é um sábio, ainda que, com o devido respeito pelos animais e pelos verdadeiros doutores, aqueles que honram a sua profissão com competência, rigor e dedicação. Porque o problema não está no título, mas no vazio que tantas vezes ele esconde.
Quantos “doutores” existem por aí que nunca contribuíram verdadeiramente para a sua área? Que nunca acrescentaram valor, nunca se desafiaram, nunca saíram da zona de conforto?
O título, por si só, não legitima a competência. E, no entanto, continua a ser usado como escudo e como arma.
Nas nossas cidades, essa realidade torna-se ainda mais evidente. Durante mandatos inteiros, o debate desaparece. Questionar quem lidera não é visto como exercício democrático, mas como afronta. Levantar dúvidas transforma quem o faz num alvo fácil, alguém a ignorar, a desacreditar, a afastar. O pensamento independente não é valorizado, é temido.
E assim se instala o compadrio. O mérito cede lugar às conveniências. O profissionalismo perde terreno para relações pessoais, favores e interesses instalados.
São os três “Monos”, macacos da sabedoria ao contrário: não vêem, não ouvem, não falam, não por virtude, mas por conveniência. Mas será essa a atitude correcta? Ou será antes uma forma confortável de cumplicidade?
Recordo-me das palavras de Luiz Felipe Scolari, quando, num momento de defesa de um jogador injustamente criticado, questionou: “e o burro, sou eu?”. A frase, simples e directa, carrega uma força rara, a coragem de confrontar a incoerência, de expor o absurdo.
Talvez esteja aí o ponto essencial: quem são, afinal, os “burros”? Os que questionam, mesmo correndo riscos? Ou os que aceitam tudo sem pensar?
Enquanto falar continuar a ser mais perigoso do que errar, dificilmente evoluiremos. Porque sociedades saudáveis constroem-se com debate, com confronto de ideias, com diversidade de pensamento, não com silêncio imposto nem com unanimidades forçadas.
Pensar é um direito. Falar e escrever, deveria ser também.

Comentários