A Suíça do bem e do mal não é nada sem os imigrantes:
O que sabe disto?
Restringir a 10 milhões de habitantes? Nunca! Mais valia a Suíça pertencer de novo à França, à Itália e à Alemanha...
A Suíça pode tornar-se o primeiro país da Europa a estabelecer um limite populacional. Se assim for, e a população atingir os 10 milhões, o governo é obrigado a terminar o acordo de livre circulação com a União Europeia. Para os imigrantes seria benéfico, porque deixariam de pagar duplo imposto sobre rendimentos e riqueza!?
Ao longo de cerca de vinte anos a viver na Suíça ouvi muitas opiniões sobre este país. Ouvi elogios, ouvi críticas, ouvi histórias de sucesso e ouvi histórias de fracasso. Vi pessoas chegarem sem nada e construírem uma vida. Vi outras perderem quase tudo. Vi pessoas apaixonarem-se pela Suíça e vi pessoas que nunca conseguiram adaptar-se. Também é legítimo dizer que muita gente caíu no ridículo, porque os colocaram no ridículo. Alguns recuperaram e outros caíram no abismo... Depois de tudo aquilo que vi, ouvi, entrevistei, li e vivi, cheguei a uma conclusão simples: a Suíça não é nada sem os imigrantes.
Sei que esta frase incomoda muita gente, pois não me surpreende, mas é exactamente aquilo que penso. Quando olho para a Suíça vejo uma das paisagens mais bonitas do mundo. Vejo montanhas cobertas de neve, lagos de águas cristalinas, rios limpos, aldeias cuidadas e cidades organizadas. Vejo um país que conseguiu construir uma imagem de qualidade, segurança e prosperidade. Contudo, também vejo algo que muitas vezes desaparece dos folhetos turísticos. Vejo pessoas e vejo gerações de trabalhadores que ajudaram a construir aquilo que hoje é apresentado como um modelo de sucesso. Mas também vejo que a Suíça mostra o lado bom para o exterior e omite o lado mau.
As montanhas não construíram os túneis. Os lagos não construíram as pontes. A neve não construiu os caminhos-de-ferro. As paisagens não construíram os hospitais. Foram pessoas que fizeram tudo isso. Foram trabalhadores italianos, portugueses, espanhóis, alemães, franceses e muitos outros. Foram homens e mulheres que chegaram para trabalhar nas obras, nas estradas, na limpeza, na agricultura, na hotelaria, na indústria, nos transportes e nos serviços. É por isso que tenho dificuldade em aceitar discursos que apontam o dedo aos estrangeiros como se fossem os responsáveis por todos os problemas do país. Na minha opinião, uma parte importante da riqueza suíça foi construída precisamente por aqueles que vieram de fora. Além de ser o país onde os ricos guardam o dinheiro e o ouro e há sigilo bancário e lavagem de dinheiro.
Também tenho outra opinião que muitos considerarão polémica. Na minha visão, nunca existiu um povo suíço puro. Aquilo que vejo é uma mistura constante de influências alemãs, francesas, italianas e reto-romanas provenientes dos países fronteiriços no qual a Suíça já pertenceu no passado. Hoje essa mistura é ainda maior. A Suíça tornou-se um dos países mais multiculturais do mundo. Aqui encontram-se pessoas de praticamente todas as nacionalidades, que trabalham, casam, formam famílias e constroem novas gerações. Também há um historial divulgado pelos média de que a Suíça importou crianças de países do terceiro mundo! Por isso, quando oiço debates sobre identidade, faço muitas perguntas. A própria história suíça é uma história de encontros, misturas e influências cruzadas de muitas coisas bondosas e algumas atrocidades.
Quando cheguei à Suíça, já existia uma enorme dificuldade em encontrar habitação. Não falo por ouvir dizer. Falo por experiência própria. Ao longo destes anos cheguei a fazer capas da Revista Repórter X com fotografias de filas para visitas a apartamentos onde apareciam mais de cem pessoas para uma única habitação. Eram imagens reais, testemunhos vivos de um problema que já existia muito antes deste debate sobre os dez milhões de habitantes cujo a Suíça quer colocar a votos. Que seria da Suíça sem a mão de obra dos emigrantes!?
Eu próprio vivi essa realidade da dificuldade da habitação que me obrigou a viver um ano com familiares e um ano numa casa velha com condições necessárias, tais como água, aquecimento, etc... Durante cerca de dois anos procurei uma casa melhor. Fui obrigado a permanecer em habitações mais antigas, com menos conforto e condições inferiores às que desejava para a minha família. Só mais tarde consegui mudar para uma casa mais moderna e com todas as condições.
Por isso, quando hoje se afirma que a falta de habitação resulta apenas do aumento da população, tenho dificuldade em aceitar essa explicação como suficiente. Durante estes cerca de vinte anos vi construir milhares de apartamentos. Vi casas antigas serem demolidas para dar lugar a edifícios maiores. Vi zonas inteiras transformarem-se. E continuo a dizer que a Suíça tem ainda muito espaço para crescer sem destruir aquilo que tem de mais precioso, a floresta e a fauna.
Quase já percorri o país e encontrei áreas pouco ocupadas, vales, encostas, zonas de expansão urbana e terrenos que poderiam ser aproveitados através de um planeamento inteligente. Não estou a defender a destruição das florestas, dos lagos ou das montanhas que fazem parte da alma da Suíça. Estou a dizer que existe uma grande diferença entre preservar a natureza e impedir o desenvolvimento. Na minha opinião, continua a existir margem para construir mais habitação sem destruir a floresta, sem destruir os lagos e sem destruir a beleza do país.
É por isso que vejo este debate principalmente como uma questão política. Quando faltam casas, a solução não tem de ser obrigatoriamente impedir a entrada de pessoas. Também pode passar por construir mais, planear melhor, distribuir melhor os investimentos e preparar melhor o futuro. Há um grande problema que ninguém fala, os suíços não querem que os filhos a partir dos 16 anos vivam com os pais, logo ao sairem precisam de mais habitações. Não falo à toa. Não aceito criticas sem conhecimento, pois posso relatar que vivo numa área grande e com dois quartos e a imobiliária não queria aceitar lá a minha filha com o marido depois de casar. Em Portugal há vários filhos até aos 30 anos a viver com os pais por não conseguirem pagar habitação. Na Suíça implica precisarem de mais casas, muitas casas. Cada casal uma casa e cada casal com filhos menores uma casa. Exigem um quarto para cada filho ou no mínimo um quarto para dois meninos ou duas meninas, caso de um menino e uma menina requer dois quartos. Logo as casas na Suíça são mais escaças.
A questão dos dez milhões de habitantes é um dos temas que mais tem ocupado o debate público. Na minha opinião, trata-se sobretudo de uma questão política. Não digo que não existam problemas. Existem. O trânsito aumentou. A pressão sobre a habitação existe. Certos serviços estão mais sobrecarregados. Mas também sei que muitos desses problemas não começaram ontem. Estamos a falar de uma realidade que acompanho há cerca de duas décadas.
Mas a Suíça não é apenas habitação e imigração. A Suíça também é qualidade de vida. É o país dos lagos, das montanhas, dos desportos de inverno, dos queijos, dos chocolates, dos vinhos e da agricultura de qualidade. É um país que soube construir uma imagem de rigor e excelência. É também o país da indústria farmacêutica, da relojoaria e de muitos sectores que conquistaram prestígio internacional. Seria injusto ignorar tudo isso. Tal como seria injusto ignorar aquilo que funciona bem.
Contudo, existe outra Suíça que raramente aparece nos postais ilustrados. É a Suíça das burocracias intermináveis, das cartas que ficam sem resposta, das respostas que não respondem às perguntas, dos processos que parecem nunca acabar e das situações que deixam os cidadãos frustrados. Ao longo dos anos fui chegando à conclusão de que muitas instituições sabem aplicar regulamentos, mas nem sempre sabem resolver problemas. Resolver problemas exige mais do que preencher formulários. Exige ouvir, compreender, analisar e assumir responsabilidades. Também acho o povo suíço fechado, embora os mais jovens começaram a desenvolver outra mentalidade principalmente com o povo europeu.
Foi também por isso que aprendi uma regra simples: quem não reclama perde. Ao longo destes anos vi demasiadas situações em que uma primeira decisão parecia definitiva e acabou por ser alterada mais tarde. Vi pessoas recuperarem direitos depois de insistirem. Vi erros serem corrigidos. Vi decisões serem revistas. E também vi pessoas desistirem demasiado cedo porque acreditaram que nada podia ser feito.
Também não posso deixar de falar daquilo que considero ser o lado mais sombrio da Suíça. Durante cerca de vinte anos ouvi relatos, acompanhei situações, li documentos, recebi testemunhos e vivi experiências que me deixaram muitas dúvidas e muitas inquietações. Ajudei muita gente. Resolvi muitos problemas.
Quando falo da Suíça, não falo apenas dos lagos, das montanhas, dos chocolates ou dos relógios. Falo também da discriminação que vi existir em certos locais de trabalho. Falo de despedimentos que considero injustos. Falo de trabalhadores que, na minha opinião, foram tratados como números e não como seres humanos.
Falo também da SUVA. Sei que muitas pessoas receberam apoio e obtiveram aquilo a que tinham direito. Mas também acompanhei situações que me levaram a colocar muitas perguntas. Num dos casos que acompanhei durante anos, não estou a falar de rumores nem de histórias de segunda mão. Estou a falar de um processo que acompanhei através de testemunhos directos de pessoas envolvidas.
Segundo aquilo que me foi transmitido pelos próprios intervenientes, existiram contactos relacionados com a situação laboral e médica da pessoa em causa. Mandaram dar o despedimento, mandaram suspender a baixa e até mandaram inscrever no Fundo-Desemprego a pessoa doente, a isto chama-se corrupção do funcionário da instituição sobre terceiros! O que mais me marcou não foi apenas aquilo que me foi relatado. Foi o resultado final do processo. Durante anos existiram conflitos, dúvidas, reclamações e divergências sobre a capacidade de trabalho dessa pessoa. Contudo, apesar de todas essas discussões, a mesma pessoa acabou por ser reconhecida como incapaz para trabalhar e foi pensionada por invalidez.
Foi precisamente esse desfecho que me levou a fazer perguntas. Se uma pessoa acaba por ser oficialmente reconhecida como incapaz para o trabalho, é legítimo questionar tudo aquilo que aconteceu durante os anos anteriores e perguntar se todas as decisões tomadas foram as mais adequadas. Há uma coisa importante a salientar, não reclamar, não cumprir datas, pode fazer a diferença e fica tudo pelo caminho. A falta de comunicação e a dificuldade da língua é outro obstáculo. Temos de seguir as regras, pois elas são feitas a favor deles e ao mais pequeno descuido perde tudo. A Lei protege-os, temos de cumprir os requisitos, pous o país é deles e temos de nos adaptar ao sistema.
Ao longo dos anos ouvi ainda acusações graves envolvendo médicos, advogados, seguradoras e instituições. Algumas dessas acusações nunca consegui confirmar. Outras foram-me relatadas directamente em entrevistas por pessoas envolvidas nos processos. Existem situações que conheço apenas através de testemunhos. Existem outras que acompanhei mais de perto. É por isso que faço sempre uma distinção entre aquilo que sei, aquilo que suspeito e aquilo que não consigo provar.
Recordo-me de ouvir um advogado afirmar pessoalmente que não lutava contra a SUVA para proteger o seu próprio nome profissional. Essa frase ficou gravada na minha memória. Cada leitor tirará as suas conclusões. Eu tirei as minhas.
Outro tema que me marcou profundamente foi a questão da KESB. Ao longo dos anos acompanhei famílias que consideram ter sido injustamente afastadas dos seus filhos. Sei que existem situações em que a intervenção das autoridades é necessária para proteger menores. Mas também sei que existem pais e mães que vivem essas decisões como uma tragédia e que sentem não ter sido devidamente ouvidos.
É precisamente por tudo isto que continuo a dizer que existe uma diferença entre a Suíça dos postais ilustrados e a Suíça das pessoas que enfrentam problemas. Quase sempre problemas causados. São relatórios com omissões e dossieres mal construídos e digo muitas vezes que quem pede ajuda deve ser ouvido. Não quer dizer que as pessoas tenham sempre razão, mas não podemos virar as costas. Uma sociedade revela a sua verdadeira grandeza não quando tudo corre bem, mas quando sabe responder de forma justa, humana e transparente às situações mais difíceis.
Nada do que escrevo significa que odeie a Suíça, mas pelo contrário, adora a Suíça e destesto o sistema que aplidei de uma bola de gelo dos Alpes, porque as Leis não são todas justas e o sistema obriga-nos a falhar por desconhecimento e logo eles se deitam de fora dos problemas. Escrevo precisamente porque vivo aqui, porque observo este país e estudo este país há cerca de vinte anos e porque considero que uma sociedade melhora quando é capaz de ouvir tanto os elogios como as críticas. O lado bom da Suíça é conhecido em todo o mundo. O lado menos bom é muitas vezes ignorado. Omitido pelos média. Fazem passar para o exterior só o lado bom, mas nem tudo que reluz é ouro na Suíça. Na minha opinião, ambos merecem ser discutidos. É para isso que existe a Revista Repórter X, para uns a voz do povo e para outros somos os críticos e maldizentes. Podem constatar as duas versões do bom e do menos bom e do razoável, a voz e o ouvido, mesmo que não tenhamos a responsabilidade de quem dita a verdade ou a mentira. A verdade de um pode ser a mentira de outro. Mas que há coisas mal rezolvidas há e os emigrantes tem direito a advogados fora do sistema!
Talvez algumas das minhas opiniões estejam erradas. Talvez outras estejam certas. Talvez existam coisas que nunca conseguirei provar. Há coisas que não são talvez, são mesmo veridicas. Mas uma coisa sei, a Suíça que conheci não é apenas a Suíça dos lagos, dos chocolates e dos relógios. É também a Suíça das perguntas difíceis, das contradições, dos debates e dos problemas que continuam à espera de solução.
O que sei é que me envolvi, e continuo a envolver-me, em problemas sociais e políticos, como defensor dos direitos humanos e como activista.
Faço eventos com instituições, como consulados, sindicatos, seguradoras, lesados da SUVA, mães que lutam pelos seus filhos contra a KESB, entre muitos outros.
Acompanho pessoas a advogados, médicos, seguradoras, consulados e empregos. Faço telefonemas para forças policiais, tribunais, segurança social e outras entidades. Tenho ajudado muita gente, sem procurar benefícios próprios.
Vejo a Suíça por dentro, nos seus problemas materiais e humanos. Estudo a Suíça e as pessoas, tal como estudei Portugal quando escrevi livros e artigos sobre a sua história. Aqui também faço o meu trabalho de casa.
Admito erros e vitórias. Aprendo com os erros e, nas vitórias, devolvo o mérito a quem ajudo.
E é dessa Suíça completa, da Suíça do bem e do mal, que gosto de escrever.
autor: Quelhas
Revista Repórter X / Repórter Editora

Comentários