Abandonados na Suíça:
Letra: autor Quelhas
Repórter Editora
**Verso 1**
Fui cair num chão de neve, sangue quente, mão gelada
No relatório da SUVA, sou só mais uma pautada
Na fábrica, no andaime, dei o corpo ao teu progresso
Mas na hora do embate, Portugal virou-se ao avesso
Advogado não aparece, o consulado não me vê
Dizem: “É lei da Suíça, nada podemos fazer”
Sou número entre processos, perdido em burocracia
E a dor do meu acidente, ninguém escreve na guia
**Pré-Refrão**
Mas a revolta vira grito, da saudade nasce a voz
Se em Lisboa mandam neles, aqui ninguém manda em nós
**Refrão**
Somos filhos da diáspora, largados à própria sorte
Entre fronteira e passaporte, quem decide o nosso norte?
Governo fala em pátria, mas no frio ninguém me abraça
Quando a lei cai sobre o fraco, é o emigrante que se amassa
Repórter X, escreve forte, rasga o véu dessa mentira
Se o poder nos vira as costas, é na denúncia que eu respiro
Não sou súdito à distância, nem soldado de vitrine
Sou o rosto de um país que finge que não me define
**Verso 2**
KESB bate à porta, diz que é pelo bem da criança
Mas ninguém traduz meu medo, nem escuta a minha esperança
Na sala dos assistentes, cada palavra é um punhal
Minha língua vira crime, meu abraço é quase ilegal
Falam alto em “proteção”, mas não veem o meu suor
Trabalho noite inteira, ponho comida ao redor
Se a cultura é diferente, já me pintam como um perigo
Levam o meu filho ao colo, mas ninguém caminha comigo
**Pré-Refrão**
E o consulado, lá distante, assina embaixo do papel
Defende a imagem da Suíça, não a lágrima que caiu do céu
**Refrão**
Somos filhos da diáspora, largados à própria sorte
Entre fronteira e passaporte, quem decide o nosso norte?
Governo fala em pátria, mas no frio ninguém me abraça
Quando a lei cai sobre o fraco, é o emigrante que se amassa
Repórter X, escreve forte, rasga o véu dessa mentira
Se o poder nos vira as costas, é na denúncia que eu respiro
Não sou súdito à distância, nem soldado de vitrine
Sou o rosto de um país que finge que não me define
**Verso 3**
Lá em Lisboa, em gabinetes, desenham mapas da diáspora
Comandam vidas, calendários, sem pisar a nossa aurora
Sentados numa cadeira, decidem quem somos nós
Mas não ouvem nosso cansaço, nem o eco da nossa voz
Falam em “comunidades” nas promessas de eleição
Depois fecham as cortinas, apagam nossa questão
Querem voto, querem foto, querem palco e bandeira
Mas na hora do processo, somem todos na fronteira
**Ponte**
Não somos números em lista, nem estatística em discurso
Somos mãos que ergueram mundos, somos chão de muito curso
Se a justiça se omite e a pátria fica muda
A verdade nasce impressa, na revista que não recua
Repórter X, chama pelo nome, o silêncio e o opressor
Põe na capa a nossa história, nossa ausência e nossa dor
Que a denúncia seja o grito que atravessa embaixador
E que a tinta seja o abrigo de quem nunca teve amor
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