Chamam os emigrantes de volta, mas emigrantes perguntam: voltar para quê?
As comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, realizadas este ano no Luxemburgo, ficaram marcadas por uma mensagem que não passou despercebida junto de muitos emigrantes portugueses. Durante as celebrações oficiais, o Presidente da República e o Primeiro-Ministro dirigiram palavras aos portugueses residentes no estrangeiro, incentivando o regresso ao país e reforçando a importância das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo.
As declarações tiveram eco imediato entre muitos emigrantes. Nas redes sociais, em grupos de discussão e em mensagens recebidas pela Revista Repórter X, surgiram reacções que revelam uma realidade que vai muito além dos discursos protocolares.
Regressar para quê? Essa foi a pergunta mais repetida.
As comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, realizadas este ano no Luxemburgo, ficaram marcadas por uma mensagem que não passou despercebida junto de muitos emigrantes portugueses. Os apelos ao regresso a Portugal, feitos durante as celebrações oficiais, geraram críticas e reacções imediatas entre quem vive há décadas fora do país.
Nas redes sociais e em diversos grupos de emigrantes, multiplicaram-se comentários de portugueses residentes no Luxemburgo, Suíça, França, Alemanha e outros países europeus. O sentimento dominante não foi de entusiasmo perante a possibilidade de regressar, mas antes de perplexidade.
Muitos questionam como é possível pedir o regresso de trabalhadores que construíram a sua vida em países onde os salários são várias vezes superiores aos portugueses, onde existe maior poder de compra e onde conseguiram alcançar uma estabilidade que nunca encontraram na sua terra natal.
A crítica vai mais longe. Para muitos emigrantes, Portugal continua a apresentar um conjunto de problemas estruturais que permanecem sem resposta. Habitação cara, salários baixos, carga fiscal elevada, dificuldades no acesso à saúde, burocracia excessiva e falta de perspectivas para os jovens são algumas das razões apontadas por quem não vê qualquer vantagem em abandonar o país onde vive actualmente.
Entre os comentários recolhidos pela Revista Repórter X surge uma pergunta repetida de diferentes formas: se Portugal precisa dos seus emigrantes, porque não criou primeiro as condições que os impedissem de partir?
Há quem considere contraditório ouvir convites ao regresso ao mesmo tempo que milhares de portugueses continuam a sair todos os anos em busca de melhores condições de vida. Outros recordam que muitos emigrantes continuam a contribuir para a economia portuguesa através da compra de imóveis, do consumo durante as férias, do apoio às famílias e do envio de poupanças acumuladas ao longo de anos de trabalho no estrangeiro.
Os próprios emigrantes apontam aquilo que consideram ser uma das maiores contradições do discurso político. Durante décadas, Portugal habituou-se a beneficiar das remessas enviadas pelos portugueses espalhados pelo mundo, das casas construídas com dinheiro ganho no estrangeiro, dos investimentos realizados durante as férias e das reformas acumuladas após uma vida inteira de trabalho fora do país. No entanto, muitos afirmam sentir que continuam a ser esquecidos quando reclamam direitos, exigem apoio consular, enfrentam problemas administrativos ou pedem uma atenção semelhante àquela que lhes é dedicada quando chega o momento de investir.
Também existe quem veja nestes apelos uma tentativa de atrair investimento. Afinal, um emigrante que regressa compra casa, realiza obras, consome bens e serviços, paga impostos e movimenta a economia local. Mas muitos perguntam se o interesse está verdadeiramente nas pessoas ou apenas no dinheiro que elas transportam consigo.
Quem decide regressar encontra ainda um conjunto de encargos que muitos consideram difíceis de ignorar. A compra de uma casa implica impostos e despesas de aquisição. Depois surgem o IMI, o IVA, os combustíveis, os seguros, as taxas e os custos normais da vida. Quem regressa com uma reforma continua sujeito às regras fiscais aplicáveis ao seu caso. Quem regressa para trabalhar encontra frequentemente salários muito inferiores aos praticados nos países onde viveu durante décadas.
Outra questão frequentemente levantada prende-se com os custos do regresso. Um reformado que decide voltar a Portugal continua sujeito a diversos encargos, desde impostos sobre rendimentos, quando aplicáveis, até ao IMI, IVA, combustíveis, taxas municipais e outras despesas que fazem parte da vida quotidiana.
A realidade é que uma parte significativa da emigração portuguesa já não olha para Portugal como destino inevitável para a reforma. Muitos optam por permanecer nos países onde construíram a sua vida. Outros escolhem novos destinos. Alguns visitam Portugal apenas durante períodos de férias.
Entre os testemunhos recebidos pela Revista Repórter X encontram-se ainda referências ao aumento do custo de vida, aos preços da habitação, às dificuldades sentidas pelos jovens portugueses para comprar casa, à elevada carga fiscal, à degradação de alguns serviços públicos e à percepção de que existe uma distância crescente entre o discurso político e a realidade vivida por muitas famílias.
O silêncio que se viu entre muitos dos presentes no Luxemburgo pode ter sido a resposta mais eloquente. Não houve confrontos, não houve protestos. Mas também não se sentiu entusiasmo.
Enquanto emigrantes, muitos continuam a amar Portugal, a defender a sua cultura, a sua língua e as suas tradições. O que muitos questionam não é o amor à pátria. O que questionam é a falta de condições concretas para regressar.
Entre o apelo político e a realidade do dia-a-dia existe uma distância que não se mede em quilómetros. Mede-se em salários, em habitação, em impostos, em oportunidades e em qualidade de vida.
Enquanto essa realidade não mudar, muitos continuarão a fazer as malas para sair, e poucos estarão dispostos a desfazê-las para voltar.
autor: Quelhas
Revista Repórter X / Repórter Editora

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