João Carlos Quelhas e a Repórter X, entre a denúncia, o confronto e os limites da intervenção pública
João Carlos Quelhas e a Repórter X, entre a denúncia, o confronto e os limites da intervenção pública:
Nos últimos meses, João Carlos Quelhas e a Revista Repórter X estiveram envolvidos em diversas polémicas relacionadas com os Consulados de Portugal em Zurique e Genebra, nos casos da SUVA e da KESB, a intervenção do activista Afonso Gonçalves em Friburgo e o conflito com o deputado José Dias Fernandes.
Não se trata de uma única discussão. São vários episódios, com pessoas, instituições e interesses diferentes, mas unidos por uma questão central: até onde deve ir uma revista quando decide defender cidadãos que afirmam ter sido abandonados pelas instituições?
Para os apoiantes do Quelhas, a resposta é simples: deve ir até onde for necessário.
Para os críticos, a questão é diferente: uma revista deve denunciar, mas não pode transformar-se simultaneamente em parte interessada, tribunal, acusação e sentença.
Entre estas duas posições encontra-se a verdadeira discussão.
Os Consulados de Zurique e Genebra.
A crítica dirigida aos Consulados portugueses nasce sobretudo da percepção de distância entre os serviços diplomáticos e as dificuldades reais dos emigrantes.
Há cidadãos que se queixam de falta de respostas, atrasos, encaminhamentos sucessivos, dificuldades no atendimento e ausência de acompanhamento em situações sociais, familiares ou administrativas graves.
João Carlos Quelhas tem defendido que os Consulados não podem limitar-se à emissão de documentos, actos notariais e procedimentos administrativos. Entende que devem representar Portugal, acompanhar os emigrantes e intervir, dentro das suas competências, quando cidadãos portugueses enfrentam problemas sérios no estrangeiro.
Esta crítica possui fundamento político e social. Um Consulado existe para servir os cidadãos e não para se proteger deles.
Contudo, também é necessário reconhecer que os Consulados possuem competências limitadas. Não podem substituir tribunais suíços, advogados, autoridades de protecção de menores, seguradoras ou serviços sociais.
Quelhas está certo quando exige respostas, presença e humanidade. Poderá estar errado quando transmite a ideia de que um Consulado tem poder para resolver aquilo que juridicamente pertence às autoridades suíças.
A crítica deve, portanto, ser precisa. Exigir aquilo que o Consulado deve fazer, informar, acompanhar, orientar, contactar e proteger diplomaticamente, sem lhe atribuir poderes que não possui.
A SUVA e os cidadãos que se dizem lesados.
A intervenção da Revista Repórter X nos casos relacionados com a SUVA merece particular atenção.
Vários cidadãos afirmam ter sofrido acidentes, perdido capacidade de trabalho ou enfrentado decisões que consideram injustas. Alguns sentem que foram abandonados por seguradoras, médicos, advogados ou serviços administrativos.
Ao dar voz a estas pessoas, Quelhas realiza um trabalho social importante. Muitos cidadãos não dominam a língua, não compreendem os processos e desconhecem os seus direitos.
A revista permite que essas histórias deixem de ser apenas números de processo.
Isso está bem.
Também está bem reunir pessoas, divulgar testemunhos, pedir esclarecimentos e chamar responsáveis políticos para ouvir quem se considera prejudicado.
O problema surge quando um testemunho individual é apresentado como prova definitiva de uma prática geral, antes de serem analisados os relatórios médicos, as decisões administrativas e os recursos existentes.
A SUVA pode errar. Os médicos podem errar. Os advogados podem falhar. Mas também existem processos complexos, versões contraditórias e decisões que não podem ser avaliadas apenas através do sofrimento legítimo de uma das partes.
A defesa das vítimas deve ser firme, mas documental.
Quanto mais grave for a acusação, mais sólida deve ser a prova.
A KESB e as mães separadas dos filhos.
Os casos relacionados com a KESB são talvez os mais delicados, porque envolvem crianças, famílias, acusações graves e decisões tomadas sob reserva.
João Carlos Quelhas e a Revista Repórter X deram voz a mães que afirmam ter sido injustamente afastadas dos seus filhos e tratadas pelas instituições como culpadas antes de terem sido devidamente ouvidas.
Dar-lhes voz está bem.
Permitir que apresentem documentos, relatem a sua experiência e denunciem aquilo que consideram abusos também está bem.
Nenhuma instituição, por poderosa que seja, deve ficar livre de escrutínio público.
Contudo, nestes casos, a prudência deve ser ainda maior. As crianças não podem tornar-se armas num combate público. Existem informações protegidas, relatórios confidenciais e versões que não podem ser divulgadas sem cuidado.
A KESB deve ser criticada quando existem sinais de desproporção, falta de audição ou decisões mal fundamentadas.
Mas uma publicação também não pode concluir automaticamente que todas as decisões foram tomadas por perseguição, corrupção ou má-fé.
Pode haver injustiça institucional. Pode também haver factos desconhecidos do público.
A defesa das mães não deve transformar-se numa exposição das crianças.
Afonso Gonçalves e a política levada aos encontros sociais.
A presença de Afonso Gonçalves nos encontros relacionados com a SUVA, a KESB e outros problemas sociais trouxe visibilidade política, mas também aumentou a tensão.
Afonso Gonçalves apresentou-se como alguém disposto a ouvir cidadãos e a levar os seus problemas para o debate político.
Isso pode ser positivo.
Os cidadãos têm o direito de falar com representantes políticos e de exigir que os seus casos sejam conhecidos.
Porém, quando uma iniciativa social fica demasiado ligada a uma figura política, corre o risco de ser interpretada como campanha, disputa interna ou aproveitamento partidário.
Quelhas procurou afirmar que os encontros não eram políticos, mas sociais.
Essa intenção pode ser verdadeira, contudo, a presença de políticos, militantes e dirigentes partidários torna inevitável uma leitura política.
Afonso Gonçalves tem o direito de defender as suas ideias. Quelhas tem o direito de o convidar. Mas ambos devem reconhecer que essa escolha possui consequências públicas.
Não é possível chamar representantes políticos e depois exigir que ninguém veja política no encontro.
O deputado José Dias Fernandes.
O conflito com o deputado José Dias Fernandes tornou-se uma das polémicas mais graves.
Segundo a versão divulgada pela Revista Repórter X, o deputado teria sido convidado para ouvir os lesados, esteve presente num dos encontros e não compareceu noutro, surgindo posteriormente versões contraditórias sobre a sua participação e sobre aquilo que teria sido previamente combinado.
Quelhas entendeu essa atitude como uma falta de respeito para com as mães, os lesados e os cidadãos que esperavam ser ouvidos.
A crítica é legítima, caso existam convites, mensagens, fotografias e compromissos que demonstrem aquilo que tinha sido acordado.
Um deputado deve esclarecer com transparência onde esteve, o que prometeu e por que razão não compareceu.
Aquilo que não está bem é transformar uma divergência política numa guerra pessoal sem fim.
Do mesmo modo, também não está bem que um deputado ou os seus apoiantes procurem desacreditar uma revista apenas porque esta publicou críticas incómodas.
O direito de resposta deve existir para todos.
Quelhas deve apresentar os documentos e permitir que o deputado responda.
O deputado deve responder aos factos e não atacar quem os publicou.
Pessoas colocadas umas contra as outras.
Existe, porém, uma dimensão mais profunda nesta polémica: há quem tenha colocado João Carlos Quelhas contra outras pessoas e, ao mesmo tempo, colocado essas mesmas pessoas contra ele.
Este comportamento nasce frequentemente através de telefonemas, mensagens privadas, vídeos, comentários anónimos e versões diferentes da mesma história, contadas conforme o interlocutor.
A uma pessoa é dito que Quelhas falou mal dela. A Quelhas é transmitido que essa pessoa o atacou, o traiu ou pretendeu prejudicar a Revista Repórter X. Quando ambos reagem, já não discutem aquilo que verdadeiramente aconteceu, mas aquilo que terceiros lhes contaram.
É assim que se semeiam a divisão e a desconfiança.
No caso do deputado José Dias Fernandes, existem elementos que justificam uma análise mais profunda. Segundo a Revista Repórter X, o deputado criticou anteriormente o jornal Bom Dia e o LusoJornal e chegou a pedir a João Carlos Quelhas que preparasse notícias sobre esses órgãos de comunicação social.
Uma dessas notícias, relativa ao LusoJornal, terá sido posteriormente retirada a pedido do próprio deputado. Se as mensagens conservadas confirmarem esta sequência, significa que a Revista Repórter X foi procurada quando servia para divulgar determinadas críticas e passou a ser atacada quando deixou de corresponder aos interesses de quem a procurara.
Também há referências a mensagens dirigidas a mães e lesados, procurando afastá-los de João Carlos Quelhas, da Revista Repórter X ou do encontro com Afonso Gonçalves.
Alguns dossiês não terão sido entregues à revista por indicação do deputado, apesar de João Carlos Quelhas ter acompanhado anteriormente várias dessas pessoas, ajudando na redacção de cartas, traduções, contactos com advogados, médicos, sindicatos, Consulados e outras instituições.
Se estas situações forem documentalmente confirmadas, não se estará apenas perante uma divergência de opiniões. Estar-se-á perante uma tentativa de controlar relações, documentos e pessoas, decidindo quem poderia falar com quem e quem deveria deixar de confiar em quem.
Há igualmente uma contradição que merece esclarecimento. O deputado terá convidado João Carlos Quelhas para estar presente em três locais, juntamente com cerca de dez deputados portugueses e suíços. Contudo, terá acabado por se deslocar sem esses deputados, encontrando-se com elementos da Juventude do Chega e do Movimento dos Cravos Negros.
A questão principal nunca foi o deputado ter faltado ao encontro de Domingo. Qualquer pessoa pode alterar uma agenda.
O problema foi não ter informado definitivamente que não compareceria, deixando pessoas deslocarem-se de boa-fé, e terem surgido posteriormente versões públicas que colocavam em causa a credibilidade da Revista Repórter X.
Quando as versões mudam, os documentos ganham ainda mais importância.
Comportamentos humanos, entre o bem e o mal na interajuda.
Estas polémicas não revelam apenas conflitos políticos, sociais ou editoriais. Revelam também comportamentos humanos, enquadrados na ideia de que Deus conhece a verdade de cada coração.
«Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, Criador do Céu e da Terra.»
Quando se pronunciam estas palavras, afirma-se que o mundo pertence a Deus. Tudo foi criado por Ele, tudo existe por Sua vontade e ninguém é dono absoluto da criação. Deus vê aquilo que os olhos humanos muitas vezes não conseguem ver. Conhece a verdade, conhece as intenções e sabe distinguir o bem do mal.
Contudo, há quem viva como se nunca tivesse de prestar contas.
Há quem receba ajuda e, mais tarde, responda com ingratidão, mentira e maledicência.
Há quem diga mal de todos, um a um, procurando destruir a confiança entre pessoas que anteriormente trabalhavam juntas.
Há quem lance suspeitas graves sobre mães, acusando-as de terem vendido os próprios filhos, de serem alcoólicas, toxicodependentes, psicopatas ou manipuladoras, sem apresentar provas que sustentem acusações de tamanha gravidade.
Há quem faça o mesmo com pessoas que afirmam ter sido lesadas, chamando-lhes mentirosas, psicopatas ou alegando que podem trabalhar quando dizem estar incapacitadas, procurando desacreditar o sofrimento que carregam.
Há quem despreze pessoas com deficiência e idosos, esquecendo-se de que muitos já foram atingidos pela doença, pela pobreza, pelo abandono e por outras dores que não escolheram.
Há quem queira ocupar o lugar dos outros sem trabalhar para o merecer.
Há quem viva de aparências.
Há quem, por não estar bem com a própria vida, descarregue nos outros a frustração de ter perdido quase tudo, incluindo relações familiares.
Há quem rejeite aqueles que foram escolhidos para representar outras pessoas em encontros e debates, não por razões de justiça, mas por conveniência pessoal ou política.
Há quem telefone a uns para dizer mal de outros, lançando suspeitas, divisões e desconfiança.
Há quem ataque no anonimato, escondendo a identidade para ferir sem assumir a responsabilidade pelas próprias palavras.
Há quem conte versões diferentes da mesma história conforme o interlocutor, alimentando conflitos que talvez nunca tivessem existido se as pessoas tivessem falado directamente entre si.
Há quem procure culpar terceiros pelos próprios dramas familiares, apresentando apenas a parte da história que mais lhe convém e esquecendo as responsabilidades que também lhe pertencem.
Há quem repita uma mentira tantas vezes que acaba por acreditar que ela se transformou em verdade.
Há quem afirme ter passado fome e esqueça quem lhe abriu portas, quem deu a cara junto da Missão Católica Portuguesa, dos Consulados ou de outras instituições para tentar ajudá-lo.
Há quem encontre uma pessoa disposta a ouvir desabafos quase diariamente, a aconselhar, apoiar e servir de conforto nos momentos mais difíceis e, mais tarde, retribua essa dedicação com ataques e ingratidão.
Há quem pareça dedicar o próprio tempo a prejudicar a vida dos outros, como se o objectivo fosse lançar discórdia, criar divisões e destruir reputações.
Há quem tenha dívidas de dinheiro e não tenha carácter para pagar, mas encontre coragem para atacar quem anteriormente lhe estendeu a mão.
Há quem utilize vídeos, mensagens, conversas privadas ou comunicações anónimas para provocar conflitos, fomentar acusações e incentivar desentendimentos.
Há ainda quem recorra a crenças, rituais ou práticas de maldição, convencido de que pode causar mal premeditado a terceiros ou atingir as respectivas famílias.
Também há quem pratique actos condenáveis, mas se apresente como santo, procurando incriminar os outros em vez de olhar para o próprio passado e para o presente.
Há quem alimente ameaças, ofensas e confrontos, julgando que tudo desaparecerá com o tempo.
Mas o tempo não apaga os documentos, as mensagens, os vídeos, as testemunhas nem as consequências.
Deus vê tudo.
Conhece as palavras ditas em público e em privado, conhece as mensagens assinadas e as anónimas, conhece as intenções escondidas e as obras praticadas longe dos olhares humanos.
Crer em Deus não é apenas recitar o Credo. É viver segundo a verdade, a justiça, a gratidão e o amor ao próximo.
O ser humano pode enganar outras pessoas durante algum tempo. Pode alterar versões, fingir inocência, conquistar apoios ou lançar culpas sobre terceiros.
Mas nunca enganará Deus, que conhece a verdade desde o princípio até ao fim.
A responsabilidade de João Carlos Quelhas.
Esta reflexão não significa que João Carlos Quelhas esteja sempre certo ou isento de responsabilidade.
Quelhas também deve avaliar aquilo que ouve antes de reagir.
Quando alguém lhe telefona para falar mal de outra pessoa, deve procurar ouvir directamente o visado.
Quando recebe uma mensagem parcial, deve exigir o contexto completo.
Quando lhe dizem que alguém o atacou, deve confirmar se essa pessoa pronunciou realmente aquelas palavras.
A sua frontalidade, que tantas vezes lhe permite enfrentar aquilo que outros evitam, também pode ser utilizada contra ele.
Há quem conheça o seu temperamento, provoque uma reacção e depois use essa mesma reacção para o apresentar como conflituoso.
Provoca-se primeiro, condena-se depois.
A melhor defesa contra esse mecanismo é a serenidade documental.
João Carlos Quelhas deve distinguir claramente aquilo que viu, aquilo que pode provar e aquilo que apenas lhe foi contado.
Também deve reconhecer quando confiou nas pessoas erradas, quando acreditou demasiado depressa numa determinada versão ou quando respondeu com uma dureza superior à necessária.
Reconhecer um erro não destrói a credibilidade.
A mentira, a manipulação e a recusa em corrigir é que a destroem.
O que João Carlos Quelhas fez bem.
João Carlos Quelhas fez bem ao ouvir pessoas que afirmam não ser ouvidas.
Fez bem ao levar para o espaço público casos da SUVA e da KESB que, sem essa intervenção, talvez permanecessem escondidos.
Fez bem ao exigir respostas dos Consulados e dos representantes políticos portugueses.
Fez bem ao aproximar cidadãos, organizar encontros e tentar criar uma rede de apoio.
Fez bem ao não abandonar imediatamente as pessoas quando surgiram pressões políticas ou institucionais.
Também fez bem ao criticar figuras com quem anteriormente manteve proximidade. A verdadeira independência mede-se quando se denuncia alguém do próprio campo.
O que poderá ter feito mal.
Quelhas poderá ter cometido erros na forma.
A linguagem demasiado dura pode afastar pessoas que, mesmo discordando, poderiam ajudar a resolver os problemas.
Quando uma crítica passa rapidamente do acto praticado para o carácter da pessoa, perde força e transforma-se em confronto pessoal.
Também existe o risco de misturar revista, activismo, relações pessoais e intervenção política.
A Revista Repórter X deve esclarecer sempre quando está a publicar uma notícia, uma opinião, uma denúncia ou a posição de uma das partes.
Não pode parecer que uma pessoa é culpada apenas porque recusou colaborar ou porque entrou em conflito com a revista.
Quelhas deve igualmente evitar conclusões definitivas quando os processos ainda não foram integralmente analisados.
A coragem sem método pode tornar-se precipitação.
As críticas contra Quelhas.
Os críticos acusam João Carlos Quelhas de procurar conflitos, reagir com excessiva intensidade e transformar divergências em polémicas públicas.
Alguns entendem que a Revista Repórter X deixa de ser imparcial quando assume directamente a defesa de cidadãos ou entra em confronto com políticos e instituições.
Estas críticas não devem ser ignoradas.
Há momentos em que Quelhas responde depressa demais, escreve movido pela indignação e torna público aquilo que talvez devesse ser previamente confirmado ou esclarecido em privado.
Mas também existe uma crítica oportunista.
Há quem só fale de falta de imparcialidade quando a revista publica algo que lhe desagrada.
Enquanto a Repórter X divulga eventos, discursos, candidaturas ou homenagens, é considerada útil. Quando faz perguntas difíceis, passa a ser acusada de perseguição.
Isso também não é sério.
As críticas a favor de Quelhas.
Os seus apoiantes afirmam que João Carlos Quelhas enfrenta estruturas que os grandes órgãos de comunicação social evitam.
Dizem que recebe pessoas em sofrimento, lê documentos, escreve cartas, faz telefonemas e acompanha casos sem receber qualquer benefício.
Consideram que as polémicas surgem porque ele recusa ficar calado perante políticos, Consulados, autoridades ou instituições.
Parte desta leitura é justa.
Muitas das pessoas que hoje criticam Quelhas talvez nunca tenham escutado durante horas uma mãe afastada dos filhos, um trabalhador incapacitado ou um emigrante perdido entre serviços públicos.
É fácil exigir serenidade a quem não vive o sofrimento dos outros.
Mas apoiar Quelhas não significa dizer que tudo o que faz está certo.
A lealdade verdadeira também aponta os erros.
O que está bem e o que está mal.
Está bem denunciar.
Está mal condenar sem prova.
Está bem ouvir as vítimas.
Está mal ignorar a versão da outra parte.
Está bem exigir respostas aos Consulados, à SUVA, à KESB e aos deputados.
Está mal atribuir-lhes responsabilidades que juridicamente não possuem.
Está bem levar os problemas sociais à política.
Está mal permitir que os cidadãos sejam utilizados em lutas partidárias.
Está bem que Afonso Gonçalves, José Dias Fernandes ou qualquer outro político escutem os emigrantes.
Está mal fazer promessas, faltar aos compromissos ou alterar posteriormente a versão dos acontecimentos.
Está bem que a Revista Repórter X tome posição quando existem documentos e injustiças claras.
Está mal confundir uma posição editorial com uma verdade absoluta.
Está bem ajudar alguém sem esperar recompensa.
Está mal receber essa ajuda e responder com ataques, ingratidão ou maledicência.
Está bem confiar.
Está mal utilizar a confiança para recolher informações, dividir pessoas ou construir acusações.
Está bem alertar para os erros de João Carlos Quelhas.
Está mal provocá-lo deliberadamente e depois utilizar a sua reacção para o desacreditar.
Está bem que as pessoas mudem de opinião.
Está mal alterar a versão dos factos conforme a conveniência do momento.
Está bem pedir documentos.
Está mal impedir que sejam entregues para controlar pessoas ou causas.
Está bem criticar uma revista.
Está mal procurar utilizá-la quando convém e atacá-la quando deixa de servir interesses pessoais ou políticos.
O caminho que deve seguir.
João Carlos Quelhas e a Revista Repórter X possuem uma força que não deve ser desperdiçada: a proximidade com pessoas que não encontram espaço noutros meios.
Essa proximidade deve ser protegida pelo rigor.
A revista deve continuar a denunciar, mas apresentar datas, documentos, respostas e contradições com clareza.
Deve separar os factos da opinião.
Deve publicar o direito de resposta.
Deve evitar insultos e julgamentos pessoais.
Deve dizer aquilo que está provado, aquilo que é testemunho e aquilo que ainda precisa de esclarecimento.
O mesmo se exige aos Consulados, à SUVA, à KESB, a Afonso Gonçalves e ao deputado José Dias Fernandes.
Nenhuma instituição deve esconder-se atrás da burocracia.
Nenhum político deve aproximar-se das vítimas apenas quando isso lhe é conveniente.
Nenhuma revista deve abandonar a verdade para proteger amizades ou alimentar conflitos.
Nenhuma pessoa deve utilizar a dor, a fragilidade ou a confiança de terceiros para criar divisões e conduzir guerras pessoais.
João Carlos Quelhas poderá continuar a incomodar. Uma sociedade sem pessoas incómodas torna-se uma sala fechada, onde o poder fala sozinho.
Mas, para que a denúncia permaneça credível, deve caminhar sempre acompanhada pela prova, pela prudência e pela justiça.
É essa a linha que separa a coragem do excesso, o jornalismo da vingança e a defesa dos cidadãos de uma simples guerra pública.
No fim, haverá sempre versões, acusações e desculpas.
Mas Deus conhece a verdade de cada coração.
E os factos permanecem.

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