A última Cervelat? Cada um deve comer aquilo que quiser:

Categoria: Opinião e Alimentação

Autor: João Carlos Quelhas




No próximo dia 27 de Setembro de 2026, a Suíça vai novamente às urnas. Entre os assuntos submetidos à decisão popular encontra-se a chamada iniciativa sobre a alimentação, a «Ernährungsinitiative».

E, no meio da campanha política, apareceu em Bülach uma imagem que dificilmente passa despercebida: «Tag des letzten Cervelats», o «Dia da última Cervelat».

No dia 26 de Agosto, entre as 18h00 e as 20h00, junto à Rathaus de Bülach, são anunciadas Cervelats grátis. O cartaz termina com uma mensagem ainda mais directa:

«Nein zum Vegan-Zwang!»

Ou seja:

«Não à imposição vegana!»

Mas afinal, o que está em votação?

Trata-se de uma iniciativa popular federal. Os cidadãos suíços com direito de voto são chamados a decidir, através do sistema normal de votação suíço, se aceitam ou rejeitam alterações constitucionais relacionadas com a política alimentar do país.

E se ganhar o SIM?

Não significa que no dia seguinte seja proibido comer carne, que desapareçam as Cervelats ou que todos os suíços sejam obrigados a tornarem-se veganos. Isso seria uma interpretação exagerada do que está efectivamente em votação.

A iniciativa pretende, porém, orientar mais fortemente a produção e o consumo para alimentos de origem vegetal, estabelecendo novos objectivos para a política agrícola e alimentar suíça. Os adversários entendem que isso poderá conduzir a uma intervenção excessiva do Estado nos hábitos alimentares da população.

Daí nasce o provocador «Vegan-Zwang», «imposição vegana».

E porquê oferecer Cervelats?

Porque a Cervelat é um dos símbolos da tradição alimentar suíça. Ao oferecer gratuitamente aquilo que, simbolicamente, dizem estar ameaçado, os responsáveis pela campanha encontraram uma forma simples e inteligente de chamar a atenção para o NÃO.

A posição de João Carlos Quelhas

Esta discussão chega a ser ridícula.

Cada um come a merda que quiser.

Seja carnívoro, vegetariano ou vegano, cada pessoa deve decidir aquilo que coloca no seu prato.

Um carnívoro, neste contexto, é alguém que inclui carne na sua alimentação.

Um vegetariano não come carne nem peixe, embora possa consumir produtos de orig

em animal, como leite, queijo e ovos.

Um vegano exclui da sua alimentação os produtos de origem animal, como carne, peixe, leite, queijo e ovos, seguindo geralmente esta opção também noutros aspectos da sua vida.

Todas estas escolhas merecem respeito. O que não faz sentido é transformar a alimentação numa guerra política.

E há uma questão importante que não pode ser esquecida: as fronteiras suíças.

A Suíça controla a entrada de carne e de determinados produtos alimentares através das suas fronteiras. Existe um limite para a quantidade de carne que cada pessoa pode trazer para o país sem pagar os respectivos direitos aduaneiros.

Os emigrantes portugueses conhecem particularmente bem esta realidade quando pretendem trazer de Portugal produtos como enchidos, presunto ou carne. O mesmo acontece com quem atravessa as fronteiras para comprar carne na Alemanha, França ou Itália. Quando são ultrapassados os limites estabelecidos, os encargos podem ser elevados e podem existir consequências aduaneiras pesadas.

Ora, esta política também protege a produção e o mercado suíços e leva os consumidores a comprarem mais produtos dentro da própria Suíça.

Então surge uma pergunta legítima: se existem regras apertadas nas fronteiras que acabam por favorecer o consumo de produtos suíços, por que razão deverá o Estado avançar ainda mais e procurar orientar aquilo que cada cidadão escolhe comer?

O NÃO é a posição certa.

Não se trata de ser contra veganos ou vegetarianos. Veganos e vegetarianos são uma minoria da população mundial e têm exactamente o mesmo direito de escolher aquilo que comem. Mas quem come carne tem também esse direito.

A liberdade não pode funcionar apenas para um dos lados.

E há ainda uma ironia nesta campanha.

Ao anunciarem o «Dia da última Cervelat», os responsáveis pela campanha conseguiram provavelmente fazer uma excelente publicidade às próprias Cervelats.

Oferecer Cervelats e anunciar, ao mesmo tempo, «Não à imposição vegana!» é uma mensagem política simples, provocadora e impossível de ignorar.

No fim de contas, talvez muita gente passe por Bülach no dia 26 de Agosto não apenas para discutir política, mas também para comer uma Cervelat.

E a Cervelat, que o cartaz apresenta provocatoriamente como se estivesse ameaçada, acaba por sair desta história ainda mais famosa.



Revista Repórter X / Repórter Editora

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