Agosto: as férias dos emigrantes entre a família, a aparência e a carteira
Costuma-se dizer: «Preso por ter cão e preso por não ter!»
Ora, as famílias estão sempre à espera dos seus familiares em tempo de férias, assim como alguns amigos, poucos, porque hoje quase não há amigos, há, sim, aproveitadores para comer assados na brasa e beber de graça à custa do emigrante.
Muitos emigrantes nem ligam muito à família. Muitos nem português falam bem, mas, nas férias, vão a falar na língua mal falada do país de acolhimento, principalmente quem está em França, linguagem mais fácil de aprender do que o alemão de Zurique. Falam, falam e falam em francês e depois chamam-lhes AVEC,s. Mas os da Suíça também vão a falar alemão, italiano ou francês! Os do Luxemburgo não ficam indiferentes. Depois, não gostam de ser criticados.
O pior de tudo são os filhos dos emigrantes que chegam a Portugal e não sabem comunicar com os avós ou com os primos, e essa é a triste realidade. Não se pode exigir que uma criança fale perfeitamente português quando nasceu e cresceu noutro país, mas os pais também não podem abandonar a língua materna dentro de casa. A língua portuguesa é uma herança. Quando essa herança não é transmitida, perde-se mais do que um conjunto de palavras, perde-se a ligação à família, à terra, às histórias e às raízes.
Por outro lado, quem está a residir em Portugal está sempre à espera que o emigrante pague, como se tivesse obrigação. Muitos, sabe Deus o esforço que fizeram para ter os trocos contados para ir de férias. Ainda assim, há os piores, não têm esses trocos e pagam tudo com a carta de crédito e, quando regressam, andam todo o ano a pagar a carta de crédito.
Já antigamente os jovens chegavam a Portugal com altas bombas, carros largos, pneus largos, rebaixados e descapotáveis e, para virem para cima, tinham de pedir dinheiro aos velhos. Hoje, a vida está melhor e as pessoas controlam-se mais, pois têm de fazer contas à vida consoante o ordenado.
Não quer dizer que quem ganha menos não possa fazer férias. Pode e deve, e não precisa de se endividar. Muitas vezes, quem ganha muito é que se endivida, porque se quer mostrar à rica e à francesa, diz um provérbio antigo. Podia ser à suíça ou à luxemburguesa!
As férias não devem ser uma montra de vaidades, nem uma competição para descobrir quem tem o carro maior, a roupa mais cara, a casa mais vistosa ou a carteira aparentemente mais recheada. O emigrante não deve chegar à sua terra obrigado a representar uma riqueza que não possui. Trabalhar no estrangeiro não significa apanhar dinheiro do chão. Há rendas, seguros, impostos, alimentação, transportes, saúde e muitas outras despesas que quem vive em Portugal nem sempre conhece.
Há quem tenha juntado economias e as tenha no banco. Outros compraram terrenos e fizeram casa e agora têm duas despesas, uma no país de acolhimento e outra na sua terra natal. Pagam IMI, serviços, taxas de contadores e resíduos, e IUC, quem tiver a sua lata automóvel na garagem em Portugal.
Aqueles que não têm nada vão para casa dos pais e têm mais dinheiro para gastar, porque não têm despesas de manutenção de terreno e casa como aqueles que adquiriram. Contudo, também é preciso respeitar os pais. A casa dos velhos não é um hotel gratuito, onde se chega, se come, se dorme, se deixa tudo por arrumar e se parte sem agradecer. Quem pode gastar dinheiro em festas, restaurantes e passeios também pode ajudar nas despesas da casa onde fica alojado.
Há quem vá de férias para estar com a família e há quem vá de férias para ir para a praia e não leve os velhos, e ainda diga que os ama!? Amar não é apenas publicar fotografias com os pais e os avós nas redes sociais. Amar é sentar-se com eles, escutá-los, levá-los a passear, acompanhá-los ao café, à igreja, à feira, ao jardim, à praia ou simplesmente ficar algum tempo ao seu lado.
Há quem ande só em festas privadas, romarias e bebedeiras, e há aqueles que querem paz e quase não saem, ficam numa poltrona a descansar, a ler um livro e a assar umas fêveras. Há quem fique em casa de dia e saia à noite. Há quem saia de dia e fique em casa à noite.
Há tantas formas de fazer férias, no campo, no monte ou na praia. Há quem use caravana, automóvel ou transporte público. Cada um goza as férias como quer e pode.
Também há quem aproveite para ir ao cinema, ao teatro, a concertos, a festivais, a exposições, a museus, a bibliotecas, ao circo de rua, aos arraiais, às festas populares, às feiras medievais, às feiras de artesanato, às procissões, às peregrinações e às romarias. Outros preferem visitar monumentos, castelos, igrejas, mosteiros, aldeias históricas, parques naturais, rios, barragens e praias fluviais.
Há quem participe nas vindimas, nas desfolhadas, nas colheitas, nas matanças tradicionais, nos trabalhos da horta ou na apanha da fruta, recuperando hábitos antigos e ajudando a família. Outros dedicam o tempo à pesca, à caça, às caminhadas, aos passeios de bicicleta, aos jogos tradicionais, aos torneios de futebol, às sardinhadas, aos piqueniques, aos bailaricos, às sessões de karaoke ou às longas conversas à sombra de uma árvore.
Há ainda quem aproveite as férias para visitar familiares doentes, limpar uma sepultura, recordar os que já partiram, reparar a casa dos pais, limpar um terreno, pintar uma parede, tratar de documentos ou resolver problemas que ficaram pendentes durante o ano. Nem todas as férias são descanso. Para muitos emigrantes, as férias são também trabalho, obrigações e uma corrida contra o tempo.
O mais grave é os netos não comunicarem com os avós e falarem a língua do país de acolhimento quando mal falam português. Depois, queixam-se das críticas.
Também é verdade que algumas famílias recebem os emigrantes com carinho apenas nos primeiros dias. Depois começam os convites, as contas e os pedidos. Um paga o almoço, outro espera que pague o jantar, outro pede dinheiro emprestado, outro lembra uma obra que ficou por fazer e outro aparece apenas porque sabe que o emigrante chegou. Quando as férias terminam, desaparecem quase todos, e quem regressa ao estrangeiro volta a enfrentar sozinho o trabalho, o frio, a saudade e as contas.
Nem todos os emigrantes são ricos, nem todas as famílias são aproveitadoras. Há emigrantes humildes, generosos e ligados às suas raízes, assim como há famílias que recebem os seus com verdadeiro amor, sem esperar dinheiro, presentes ou refeições pagas. Não se deve colocar toda a gente no mesmo saco.
Entre quem chega e quem recebe deve existir respeito. O emigrante não deve exibir-se nem desprezar a língua e os costumes da sua terra. Quem fica em Portugal não deve olhar para o emigrante como uma carteira ambulante. As férias devem servir para descansar, conviver, recordar e fortalecer os laços familiares, não para criar dívidas, invejas, discussões ou falsas aparências.
No fim, cada um goza as férias como quer e pode, mas há uma coisa que não deveria faltar: tempo para os pais, para os avós, para os filhos, para os netos e para aqueles que verdadeiramente estiveram presentes durante os dias difíceis. O dinheiro acaba, os carros envelhecem, as festas terminam e as fotografias perdem-se. A família, quando é verdadeira, deveria permanecer.
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