Altar de Bruma e Granito: Festas do Sr. do Calvário em Gouveia

Categoria: Tradições, Festas e Romarias.

Autor: Artur Silva



Autor: Artur Silva

Para o António e para todos os Antónios que carregam o pulsar de Gouveia no coração, mesmo quando a vida os leva para além-fronteiras. Que estas palavras sirvam de abrigo e lembrança de que, não importa o betão que se erga ou o tempo que passe, a nossa verdadeira âncora será sempre o Senhor do Calvário e o perfume de agosto nas varandas da nossa infância.

As luzes da Praça de São Pedro acendiam-se como estrelas caídas, polvilhando o coração antigo de Gouveia com um brilho de constelação efémera. No ar outonal de agosto, o aroma untuoso das farturas quentes entranhava-se no perfume rústico do fumo de carvalha. Todo este hálito festivo casava-se com o sopro cortante que descia, heroico e puro, das fragas da Serra da Estrela. A montanha anunciava o seu mistério: o Senhor do Calvário regressara para resgatar o tempo.

Velas acesas desenhavam caminhos de fogo manso pelas ruelas de pedra, onde os passos da procissão ecoavam como batimentos de um peito antigo. O silêncio da multidão não era vazio; era prece vertical, erguida entre o rés-do-chão da saudade e o cume granítico da serra. Ali, onde a fração do pão e o reencontro dos abraços se confundem na mesma mesa, o tempo suspenso parecia dar tréguas à distância. Cada sino que dobrava no campanário rasgava a névoa do esquecimento, chamando de volta os filhos que a terra viu partir e que o mundo dispersou.

Nas varandas engalanadas de colchas antigas, os olhos dos mais velhos espelhavam a mesma luz que guiava os passos dos novos. Era o milagre anual de agosto: uma ponte invisível feita de fé e pertença, que ligava o asfalto frio das capitais distantes ao calor desta matriz beirã. Gouveia tornava-se, assim, não apenas um ponto no mapa, mas um estado de alma coletivo, onde o eco da montanha gravava a fogo, na memória de quem partiu, a promessa eterna de um eterno regresso.

Naquele milésimo de segundo, algures entre o sussurro coral das rezas antigas e o estrondo heroico dos morteiros que rasgavam o manto azul da serra, uma certeza límpida tocou-lhe a alma: nunca partira dali verdadeiramente. Gouveia não era apenas geografia; era o seu altar de fé, a sua matriz e a sua casa de pedra.

Deixando-se arrastar pela torrente humana, António subiu até ao miradouro do Calvário. Debruçou-se sobre a amurada, fitando o vale onde a cidade cintilava como um presépio de pirilampos. Aquele horizonte de luzes rasgou o véu da melancolia, libertando as memórias que guardara, como relíquias sagradas, nos cantos escuros da mala de cartão da emigração.

Viu-se de repente com dez anos, numa época em que os dias de agosto possuíam a dimensão do infinito. Ele e os companheiros galgavam descalços as ruelas de granito, com o orgulho dos joelhos esfolados na crueza da rocha e o peito insuflado de audácias infantis. O zénite do ano coincidia sempre com o erguer dos carrosséis e o perfume a açúcar queimado que emanava das barracas. O dinheiro, escasso e guardado moeda a moeda no ventre secreto de um mealheiro de barro, transformava-se em magia pura: bastava para duas voltas vertiginosas no "bicho" e um cartucho de pipocas doces, divididas com a lealdade dos inocentes.

O aroma súbito a manjerico resgatou das brumas o semblante doce da sua avó Maria. Era ela quem o vestia, com o rigor ritualístico das grandes festas, na alvura da melhor camisa de domingo. "Caminha direito, António, que o Senhor olha por nós", segredava-lhe, enquanto os seus dedos trémulos ajeitavam o escapulário de pano sobre o peito do menino.

Sentia de novo o peso solene daquele asfalto quente sob as solas dos sapatos novos, o suor na testa e o deslumbramento de ver a filarmónica marchar, com o latão dos instrumentos a incendiar-se sob o sol de ouro da Beira.

Nas noites de outrora, o firmamento de Gouveia não se vestia de escuridão; transfigurava-se num palco de assombro. Ele e os rapazes trepavam ao dorso mais alto das fragas para testemunhar o fogo de artifício deflagrar contra o peito da montanha.

Cada estrépito reverberava nas gargantas profundas do vale, fazendo estremecer a própria espinha dorsal da terra. Naquela infância mítica, o universo inteiro resumia-se ao perímetro iluminado do arraial. A ideia de que um dia teria de rasgar fronteiras para inventar a vida num chão estrangeiro era uma quimera que não ousava perturbar os seus sonhos de menino.

— António? És tu, pá?

A voz grave, cinzelada pelo tempo e pela rudeza do clima serrano, quebrou o feitiço da evocação. António rodou sobre os calcanhares e deparou-se com uns olhos semicerrados, de um cinzento profundo que emulava o granito das velhas calçadas.

Era o Zé Manel. Reconheceu instantaneamente o mesmo fulgor traquina do rapaz que, três décadas antes, o desafiava para a comunhão clandestina de saltar muros e colher os frutos proibidos dos quintais vizinhos.

O abraço sobreveio com a força dos laços que desafiam os invernos da distância. O Zé Manel preservava a essência intacta, exibindo apenas as insígnias da maturidade: fios de prata a coroar as têmporas e os sulcos cavados no rosto pelas manhãs de geada e sol pleno na lavoura. Permaneceram ali, ombro a ombro, amparados pelo murete de pedra, tendo a constelação da festa a seus pés e a melodia nostálgica da música popular a flutuar na brisa como um fado partilhado.

— Soube que andavas por terras de França, mas a romaria do Senhor do Calvário opera sempre este milagre: traz a nossa carne de volta à pedra, não é? — proferiu o amigo, estendendo-lhe um copo onde o zimbro brilhava como ouro líquido.

Contemplaram as mutações que a modernidade impusera à fisionomia da urbe. O Zé Manel estendeu o braço em direção ao vale, onde as novas avenidas rasgavam a escuridão com a precisão geométrica de lâminas de néon, sobrepondo-se à desordem poética da Gouveia antiga.

— Isto mudou de feição, António — desabafou o camponês, com uma gravidade mansa. — Lembras-te daquele descampado de terra batida onde jogávamos à bola até rasgar o cabedal das sapatilhas? O progresso cobriu-o de alcatrão, prédios geométricos e o rugido constante dos motores. O próprio pulsar da terra alterou-se. As mercearias de bairro, onde a doçura se vendia ao quilo em sacos de papel pardo, feneceram perante a frieza das montras modernas. No inverno, António, a nossa Gouveia recolhe-se num silêncio monástico. Há demasiadas janelas fechadas, casas de pedra cegas de luz, que suspiram na solidão à espera de que o estio traga de novo os filhos que a necessidade dispersou pelo mapa.

— Mas escuta bem o que te digo, meu irmão — atalhou o Zé Manel, transfigurado por um sorriso largo enquanto o sopro das tubas e dos clarinetes subia a colina. — Podem rasgar novas vias, erguer betão e mudar as fachadas. Mas quando agosto desponta, as colchas antigas voltam a ornamentar as varandas e o perfume a farturas sagra o ar. O Senhor do Calvário é a nossa âncora. Ele não permite que a nossa alma se dissipe na voragem do mundo. Isto que nos corre nas veias... isto não muda nunca.

O relógio da velha torre sineira badalou as doze pancadas da meia-noite, espalhando notas de bronze sobre o casario. O Zé Manel pousou uma das suas mãos calosas e firmes no ombro de António, num gesto de pura fraternidade.

— Bem, companheiro, a noite reclama o seu repouso e amanhã o corpo exige-se de ferro para suportar o peso do andor na procissão — despediu-se o amigo, com as feições cansadas, mas iluminadas por uma alegria genuína. — Não te demores tanto além-fronteiras. A tua terra tem sede da tua presença. Gouveia precisa de nós para continuar a ser.

António retribuiu o aperto de mão com a solenidade de quem firma um testamento espiritual. Olharam ambos, numa última comunhão silenciosa, o recinto da festa que começava a desfalecer na penumbra, onde os feirantes recolhiam os primeiros panos sob o olhar cansado dos santos.

— Em agosto estarei aqui, Zé. É uma promessa de sangue — declarou António, com a voz embargada, mas inabalável. — O Senhor do Calvário guiará os meus passos de volta.

Viram-se partir pelas artérias estreitas de granito, cada qual regressando ao seu quadrante do mundo. António iniciou a descida a solo, sentindo o hálito puro da Serra da Estrela beijar-lhe a fronte, enquanto uma paz antiga e pacificada lhe inundava o peito. A promessa do regresso despira as vestes da melancolia ou do fardo; transfigurara-se na certeza de que, independentemente das estradas que os seus pés tivessem de trilhar no mundo, a bússola da sua existência manteria sempre fixo o mesmo norte, o mesmo altar, o mesmo destino.


Revista Repórter X / Repórter Editora

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