João Carlos Quelhas e a Revista Repórter X, entre a intervenção pública, a polémica e a resistência:
Falar de João Carlos Quelhas e da Revista Repórter X é falar de um percurso marcado pela cultura, pela intervenção social, pela política e, inevitavelmente, pela polémica.
Para uns, Quelhas é um homem incómodo, impulsivo, frontal e excessivamente combativo. Para outros, é alguém que não se cala perante aquilo que considera injusto, mesmo quando essa posição lhe traz conflitos, isolamento ou prejuízos pessoais.
A Revista Repórter X nasceu e cresceu fora dos grandes grupos de comunicação social, sem as estruturas financeiras, os apoios e os meios de órgãos mais poderosos. Ainda assim, manteve actividade durante anos, divulgando a cultura portuguesa, artistas, escritores, músicos, associações, rádios, eventos, causas sociais e histórias de emigrantes que raramente encontram espaço nos grandes jornais.
A vertente cultural.
No plano cultural, a Revista Repórter X tem dado palco a pessoas que muitas vezes não possuem poder económico, influência política ou contactos nos meios de comunicação social.
A revista promove livros, música, fado, poesia, moda, tradições portuguesas, instituições, festas populares e figuras das comunidades emigrantes. Organiza galas, homenagens e encontros, procurando preservar a memória de quem trabalhou pela cultura e de quem, apesar do seu mérito, permanece esquecido.
Os apoiantes consideram que este trabalho representa um verdadeiro serviço cultural, feito com persistência e poucos recursos. Reconhecem em Quelhas um homem que procura abrir portas a quem nunca teve voz nem oportunidade.
Os críticos, porém, acusam-no por vezes de misturar a promoção cultural com relações pessoais, conflitos públicos e posições editoriais muito vincadas. Há quem entenda que determinadas polémicas retiram espaço ao trabalho cultural realizado pela revista.
Ainda assim, seria injusto negar que a Repórter X construiu um património próprio, feito de milhares de textos, entrevistas, homenagens, imagens e memórias das comunidades portuguesas.
A vertente social.
É no campo social que João Carlos Quelhas assume algumas das suas posições mais duras.
A Revista Repórter X tem divulgado casos ligados à SUVA, à KESB, à Segurança Social, ao desemprego, às pensões, à burocracia, à habitação, à saúde, aos direitos dos emigrantes e ao funcionamento das instituições públicas.
Muitas destas histórias pertencem a pessoas fragilizadas, cansadas ou sem conhecimentos suficientes para enfrentar sistemas administrativos complexos. Quelhas procura ouvi-las, publicar os seus testemunhos e encaminhar exposições, cartas e reclamações.
Os seus defensores afirmam que ele dá voz a quem não tem voz e que enfrenta instituições perante as quais muitos cidadãos sentem medo ou impotência.
Os seus opositores consideram que algumas denúncias são apresentadas de forma demasiado emocional ou combativa, podendo confundir o trabalho jornalístico com a defesa directa de uma das partes.
A verdade é que a intervenção social raramente é pacífica. Quem denuncia injustiças acaba por tocar em interesses, responsabilidades e reputações. Contudo, também é necessário separar aquilo que está documentado daquilo que ainda necessita de prova, garantindo o direito de resposta e evitando condenações antecipadas.
A defesa dos mais fracos não dispensa o rigor. Pelo contrário, exige ainda mais rigor.
A vertente política.
No campo político, João Carlos Quelhas nunca procurou esconder as suas posições, aproximações ou divergências.
Esteve ligado a movimentos e partidos, participou em iniciativas políticas e envolveu-se em discussões públicas sobre Portugal, a emigração, a justiça social e a representação das comunidades portuguesas.
Essa intervenção trouxe-lhe apoiantes, mas também adversários.
Para alguns, a sua participação política enfraquece a imagem de independência da Revista Repórter X. Consideram que uma publicação deve manter distância dos partidos e das disputas partidárias.
Para outros, ter opiniões políticas não impede ninguém de denunciar erros cometidos por todos os partidos. Quelhas tem criticado pessoas e estruturas de diferentes áreas políticas, incluindo organizações com as quais anteriormente manteve proximidade.
As maiores polémicas surgem precisamente quando deixa de aceitar silêncios, ordens ou compromissos que considera contrários à sua consciência.
Uns chamam-lhe instável ou conflituoso. Outros dizem que não se vende, não se curva e não aceita ficar calado para preservar amizades políticas.
A independência, porém, não se prova apenas declarando-a. Prova-se quando se critica com o mesmo rigor aqueles de quem se está próximo e aqueles de quem se está distante.
Os argumentos a favor.
A favor de João Carlos Quelhas e da Revista Repórter X existe um percurso de persistência, trabalho cultural, intervenção comunitária e defesa de cidadãos.
Existe também a capacidade de criar projectos sem grandes meios, de reunir pessoas, organizar eventos, homenagear figuras e publicar histórias que poderiam desaparecer no silêncio.
Quelhas tem uma linguagem directa, por vezes dura, mas essa frontalidade é também a razão pela qual muitas pessoas o procuram quando sentem que ninguém mais as ouve.
Não é um homem moldado pelos gabinetes, nem uma figura fabricada por assessores. Escreve como pensa, reage como sente e assume as consequências das suas palavras.
Os argumentos contra.
Contra João Carlos Quelhas pesa precisamente essa mesma frontalidade.
A forma intensa como responde a críticas pode agravar conflitos que talvez pudessem ser resolvidos de maneira mais serena. A proximidade entre a sua vida pessoal, a direcção da revista, a intervenção social e a actividade política pode igualmente criar dúvidas sobre a separação entre notícia, opinião, denúncia e conflito pessoal.
Algumas pessoas poderão sentir-se injustamente visadas ou entender que não tiveram espaço suficiente para apresentar a sua versão.
Uma publicação que exige transparência aos outros deve também estar preparada para aceitar críticas, corrigir erros e publicar respostas quando estas forem legítimas.
Entre a coragem e o excesso.
João Carlos Quelhas não é uma figura neutra. Desperta apoio e rejeição. Constrói pontes, mas também entra em confrontos. Ajuda pessoas, mas incomoda outras. Promove a cultura, denuncia injustiças e intervém politicamente, assumindo riscos que muitos preferem evitar.
As polémicas não apagam o trabalho realizado, mas o trabalho realizado também não deve servir para impedir qualquer crítica.
A avaliação justa deve considerar ambos os lados.
De um lado, existe um homem que construiu uma revista, promoveu cultura, organizou homenagens e abriu espaço a cidadãos esquecidos.
Do outro, existe uma personalidade forte, por vezes impetuosa, que precisa de garantir que a indignação nunca ultrapasse o rigor, a prova e o direito de defesa.
A Revista Repórter X será tanto mais respeitada quanto mais conseguir manter a sua coragem sem perder a serenidade, defender os cidadãos sem abandonar a imparcialidade e enfrentar os poderosos sem se tornar injusta.
João Carlos Quelhas poderá continuar a ser polémico. Talvez faça parte da sua natureza e do caminho que escolheu.
Mas será pela verdade dos factos, pela obra deixada e pelas pessoas que ajudou que o tempo fará o julgamento mais importante.
Porque o ruído de uma polémica passa. A obra séria, quando existe, permanece.

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