Bülach, marcada pela violência da saraiva destruiu carros e casas

Categoria: Sociedade e Ambiente

Autor: João Carlos Quelhas






Bülach ficou profundamente marcada pela violenta tempestade de saraiva que atingiu a região. Em poucos minutos, pedras de gelo de grandes dimensões caíram sobre a cidade com uma força capaz de partir vidros, perfurar persianas e deixar as chapas dos automóveis completamente picotadas.

No dia seguinte ao temporal, percorri propositadamente de carro várias ruas da cidade de Bülach para observar aquilo que tinha ficado para trás.

O cenário impressiona.

Ao longo do percurso encontrei centenas de automóveis com sinais evidentes da violência da saraiva. Muitos apresentam os vidros partidos ou estilhaçados e as chapas das carroçarias completamente picotadas. Capôs, tejadilhos, portas e outras superfícies apresentam tantas mossas que, olhando para alguns veículos, fica a impressão de terem sido martelados repetidamente ou picados com uma picadeira de partir pedra.

Não são pequenas marcas ocasionais. Em muitos casos, praticamente toda a superfície exposta dos automóveis ficou marcada.

Há veículos com os pára-brisas destruídos, vidros traseiros partidos e carroçarias profundamente amolgadas.

Mas os automóveis contam apenas uma parte desta história.

Nas casas, os sinais da tempestade permanecem igualmente à vista. Fachadas, telhados, janelas e, sobretudo, persianas ficaram perfurados pela saraiva. Algumas apresentam tantos buracos e fissuras de grandes dimensões que parecem ter sido atingidas por uma descarga de chumbos de uma caçadeira.

Bülach apresenta, assim, uma imagem que permite compreender a extraordinária violência daquilo que caiu do céu. E perante pedras de saraiva com dimensões próximas das de ovos e, em alguns casos, semelhantes a pequenos tomates, surge inevitavelmente uma pergunta: como é possível formar-se no céu uma tempestade capaz de produzir pedras de gelo desta dimensão?

A explicação encontra-se muito acima das nossas cabeças, no interior das grandes nuvens de trovoada, os cumulonimbos.

A humidade começa, em grande parte, cá em baixo, na superfície da Terra. O Sol aquece oceanos, mares, rios, lagos, solos húmidos e vegetação. A água evapora-se, transforma-se em vapor e mistura-se com o ar.

Quando o ar quente e húmido sobe, encontra pressões menores, expande-se e arrefece. A determinada altitude, o vapor de água começa a condensar-se em pequeníssimas gotículas. É assim que se formam as nuvens.

Porém, uma grande nuvem de trovoada é muito diferente de uma simples camada de nuvens.

Um cumulonimbo pode transformar-se numa gigantesca tempestade dentro da própria atmosfera. Lá em cima não existem árvores, rios ou mares, mas existe água que anteriormente evaporou da superfície terrestre, existe gelo, existem diferenças muito grandes de temperatura e existem violentas correntes de ar.

Estas nuvens podem crescer verticalmente durante vários quilómetros, chegando às altitudes onde normalmente circulam os aviões comerciais e, em determinadas condições, ultrapassando-as.

No seu interior, o ar não está parado. Existem poderosas correntes ascendentes e descendentes. O ar quente e húmido é projectado para cima, enquanto outras massas de ar descem. Forma-se uma enorme turbulência, uma verdadeira tempestade suspensa no céu.

É dentro desse gigantesco movimento de ar e água que nasce a saraiva.

Uma pequena partícula de gelo é transportada pelas correntes ascendentes para regiões extremamente frias da nuvem. Durante esse percurso encontra gotículas de água super-arrefecida, água que permanece líquida apesar de estar abaixo dos zero graus. Quando essas gotas chocam contra a pequena pedra, congelam e acrescentam-lhe uma nova camada de gelo.

A pedra aumenta de tamanho e de peso. Pode começar a descer, mas, se encontrar novamente uma corrente ascendente suficientemente forte, volta a ser lançada para cima. Encontra mais água, congela novamente e ganha outra camada.

Este percurso pode repetir-se várias vezes.

É quase como se a própria nuvem estivesse a fabricar uma pedra de gelo, camada após camada, até chegar o momento em que a corrente de ar já não consegue suportar o seu peso.

Então cai.

Para uma pedra de saraiva atingir as dimensões de um ovo ou aproximar-se das de um pequeno tomate são necessárias correntes ascendentes extraordinariamente fortes. Quando finalmente essas correntes deixam de conseguir sustentar tamanho peso, as pedras precipitam-se em direcção ao solo e podem atingir uma velocidade suficiente para provocar estragos muito consideráveis.

Há ainda outra questão importante para compreender o que aconteceu em Bülach: a sua localização e altitude.

Bülach encontra-se a cerca de 430 metros acima do nível do mar e está inserida numa região de relevo que influencia a circulação das massas de ar. Contudo, uma cidade estar situada a uma altitude superior não significa, por si só, que tenha necessariamente mais saraiva.

O que acontece é que o relevo pode obrigar massas de ar húmido a subir. Quando o ar sobe, expande-se e arrefece, favorecendo a condensação, a formação e o desenvolvimento das nuvens. Montanhas, colinas e vales podem também canalizar ou alterar a circulação dos ventos e contribuir para criar condições localmente mais favoráveis ao desenvolvimento ou intensificação de uma tempestade.

Para explicar por que razão Bülach foi particularmente atingida neste temporal é, portanto, necessário juntar vários factores: a trajectória exacta da célula de trovoada, a enorme quantidade de humidade disponível, as fortes correntes ascendentes dentro da nuvem, as temperaturas muito baixas em altitude, os ventos e a própria influência do relevo regional.

Não foi simplesmente por Bülach ser uma cidade relativamente elevada. Foi porque uma tempestade extremamente poderosa encontrou, naquele momento e naquele lugar, as condições necessárias para produzir e lançar sobre a cidade pedras de gelo de dimensões excepcionais.

E aquilo que aconteceu no céu ficou escrito cá em baixo.

Ficou nos automóveis, nos vidros partidos, nas chapas que parecem marteladas, nas persianas perfuradas, nas fachadas e nos telhados.

Uma pedra de saraiva isolada pode deixar uma mossa. Milhares delas, lançadas sucessivamente contra a mesma superfície e acompanhadas por fortes rajadas de vento, transformam-se numa verdadeira chuva de projécteis de gelo.

Foi isso que Bülach viveu.

A cidade continua de pé e regressa à sua rotina, mas as marcas permanecerão durante muito tempo no metal, no vidro, nas casas e na memória de quem assistiu à força impressionante da natureza.

Revista Repórter X / Repórter Editora

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