Bülach, uma pá e uma vassoura abandonadas há quatro dias no túnel da estação:

Categoria: Crítica e sociedade

Autor: João Carlos Quelhas



Há quatro dias que esta ferramenta, uma pá e uma vassoura, estão no corredor, ou melhor, no túnel da Bahnhof, dos Caminhos de Ferro de Bülach.

E, perante esta imagem, apetece-me dizer: o funcionário do Estado cansou-se e foi embora. Ou não lhe pagaram e foi embora. Chateou-se com alguma coisa e foi embora. Ficou doente e foi embora. Esqueceu-se e foi embora.

Não sei o que se passou.

O que sei é que a pá e a vassoura ficaram. E ficaram precisamente num local onde passam centenas de pessoas todos os dias.

Qualquer dia alguém vai tropeçar naquilo.

Pode parecer uma coisa pequena, mas quatro dias já não são alguns minutos de ausência de um funcionário que foi buscar alguma coisa e regressa. São quatro dias. Tempo suficiente para alguém reparar, recolher as ferramentas e, sobretudo, evitar que aquilo se transforme num perigo para quem atravessa diariamente o túnel.

Mesmo assim, admira-me que o olhar atento dos suíços, que criticam tudo e todos, ainda não tenha dito alguma coisa, seja quem for.

A Gemeinde, neste caso a Câmara Municipal de Bülach, a polícia, os serviços públicos ou os próprios responsáveis pelos Caminhos de Ferro. Alguém deveria ter reparado.

A Suíça habituou-nos à imagem da organização, da limpeza, da segurança e do rigor. É precisamente por isso que estas pequenas coisas chamam a atenção. Não porque uma pá e uma vassoura abandonadas sejam o maior problema de Bülach, mas porque são estas pequenas situações, quando ninguém lhes liga, que começam a contrariar aquela imagem de rigor que tantas vezes se exige aos cidadãos.

As fotografias falam por si. A pá e a vassoura continuam encostadas junto à parede, num túnel utilizado diariamente por centenas de pessoas.

Talvez amanhã alguém apareça para terminar o trabalho.

Ou talvez o funcionário continue cansado, mal pago, chateado, doente ou simplesmente esquecido.

Não sabemos.

Sabemos apenas que foi embora.

E a pá e a vassoura ficaram.



Revista Repórter X / Repórter Editora

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