Do Monte do Pilar ao eclipse, quando um fenómeno também se transforma em comércio:
Autor: João Carlos Quelhas
Tudo começou no Monte do Pilar, na Póvoa de Lanhoso, antes mesmo de a Lua passar entre a Terra e o Sol.
A Confraria de Nossa Senhora do Amparo publicou uma informação relacionada com a observação do eclipse solar de 12 de Agosto, dando a entender que quem pretendesse deslocar-se ao Monte do Pilar teria de fazer marcação. A publicação provocou reacções e críticas, porque uma coisa é organizar uma iniciativa num determinado espaço, outra, bem diferente, é deixar no ar a ideia de que o acesso ao Monte do Pilar estaria dependente de uma reserva.
Também questionei publicamente essa situação. Se o Monte do Pilar é um local que habitualmente pode ser visitado, quem iria impedir uma pessoa de lá chegar apenas porque não tinha feito uma marcação?
Posteriormente surgiu uma nova publicação ou esclarecimento, indicando que a marcação dizia respeito ao restaurante. E aí a questão muda completamente.
Um restaurante pode naturalmente trabalhar com reservas, sobretudo quando espera muita gente para jantar ou participar numa determinada iniciativa. Uma família que queira chegar e ter uma mesa e uma refeição garantidas faz muito bem em reservar. Mas quem chega, encontra uma mesa livre e pretende simplesmente beber uma cerveja, um café ou outra bebida não vê normalmente a porta fechada por não ter feito uma reserva. Se houver lugar, entra, se estiver cheio, procura outro estabelecimento.
Foi, portanto, uma situação que começou mal explicada.
E havia ainda outro elemento, a iniciativa tinha o patrocínio de uma óptica. Nada existe de errado em haver patrocinadores, nem em uma empresa aproveitar uma ocasião especial para divulgar os seus produtos. O comércio faz parte da sociedade e cria riqueza. Mas também é legítimo perceber que, em redor de um acontecimento astronómico desta dimensão, existe muito mais do que a simples contemplação do céu.
O eclipse solar de 12 de Agosto de 2026 mobilizou milhões de pessoas, sobretudo nas regiões atravessadas pela faixa de totalidade. Houve deslocações, turismo, restaurantes, hotéis, iniciativas públicas e privadas, equipamentos para observação e, evidentemente, uma enorme procura de óculos próprios para eclipses. Em Espanha, a faixa de totalidade atravessou grande parte do norte do país, enquanto em Portugal apenas uma pequena extremidade do Nordeste entrou nessa faixa, ficando o restante território com uma ocultação parcial muito elevada.
Mas afinal o que aconteceu no céu?
A explicação é bastante simples. A Lua gira em redor da Terra e, quando fica suficientemente alinhada entre a Terra e o Sol, encobre o disco solar para quem observa a partir de determinadas regiões do nosso planeta. Quando o encobre completamente, temos um eclipse solar total, quando encobre apenas uma parte, temos um eclipse parcial.
E aqui importa corrigir uma ideia que facilmente se generalizou durante este dia: Portugal inteiro não teve um eclipse total. A totalidade atingiu apenas uma pequena zona no extremo Nordeste português, enquanto no restante território a ocultação foi parcial, embora muito elevada, entre aproximadamente 92% e 100% no continente.
Em Espanha foi diferente. Uma extensa faixa do território ficou directamente no caminho da sombra da Lua e, em vários locais, o Sol desapareceu completamente durante cerca de um a dois minutos. O dia escureceu subitamente, numa das imagens mais impressionantes deste fenómeno.
Na Suíça também se observou o eclipse, mas apenas parcialmente. E quem não estivesse deliberadamente a olhar para o Sol poderia até passar pelo fenómeno sem perceber grande diferença. O céu continuou claro e o anoitecer chegou naturalmente depois do eclipse.
É precisamente aí que se percebe uma curiosidade deste fenómeno, ter 90% ou mesmo mais do Sol encoberto não significa necessariamente ficar 90% escuro. A pequena parte do Sol que permanece descoberta continua a produzir uma enorme quantidade de luz. A grande transformação acontece na estreita faixa onde se chega verdadeiramente aos 100%.
A protecção dos olhos e o comércio
Também se falou muito da protecção dos olhos, e correctamente. Olhar directamente para o Sol durante demasiado tempo pode provocar lesões na retina. Mas isso não nasceu com o eclipse. Olhar directamente para o Sol num dia normal também pode fazer mal aos olhos. A diferença é que, durante um eclipse, milhões de pessoas querem fazer precisamente aquilo que normalmente não fazem, ficar a olhar para o Sol.
Daí a enorme procura de óculos próprios para eclipses. As recomendações de segurança indicam filtros certificados para observação solar e alertam que óculos de sol comuns não substituem esses filtros. Em Portugal houve inclusivamente distribuição gratuita de óculos em alguns locais, além da sua comercialização.
Há muitos anos, quando outros eclipses aconteceram, muita gente recorria também ao vidro utilizado nas máscaras de soldadura. Eram outros tempos, havia menos campanhas, menos produtos especializados à disposição do público e muito menos comércio organizado em redor destes acontecimentos.
Hoje tudo mudou.
Um fenómeno que acontece lá no alto, sem pedir licença a ninguém e sem custar um cêntimo à natureza, movimenta cá em baixo muito dinheiro. Vendem-se óculos, fazem-se viagens, enchem-se hotéis e restaurantes, organizam-se eventos e aparecem patrocinadores.
Não há necessariamente nada de errado nisso. Onde há pessoas, há consumo, onde há consumo, há comércio, onde há gastos, alguém tem receitas e lucros.
O problema começa quando não se distingue claramente aquilo que é natureza, aquilo que é segurança e aquilo que é negócio.
E foi precisamente por isso que a história do Monte do Pilar chamou a atenção. O eclipse era de todos, o céu era de todos e o Monte continuava lá. O restaurante podia receber clientes, a óptica podia patrocinar e vender os seus produtos e a Confraria podia organizar a sua iniciativa, mas a informação tinha de deixar absolutamente claro o que necessitava de marcação e o que continuava livre para qualquer cidadão.
Porque até quando a Lua tapa o Sol, a clareza continua a fazer falta.

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