Dois anos de colaboração e uma mudança repentina: o que aconteceu no InfoSuíça?
Durante cerca de dois anos, João Carlos Quelhas viu vários dos seus artigos publicados no InfoSuíça, textos assinados sobre emigrantes, problemas sociais, legislação, impostos, serviços públicos, política, situações concretas vividas por portugueses na Suíça e em Portugal, além de histórias de pessoas, terras, associações e acontecimentos comunitários.
A colaboração decorreu sem que lhe tivesse sido transmitido qualquer problema relevante quanto aos temas tratados. Nos últimos tempos, porém, os artigos deixaram de ser publicados e o autor decidiu perguntar directamente a Jorge Santos, responsável pelo InfoSuíça, se existia algum motivo para essa mudança.
Jorge Santos respondeu que sim. Explicou que o site tinha sido criado com o objectivo de prestar informação útil e apoio à comunidade de língua portuguesa na Suíça, e não para funcionar como um portal de notícias. Na verdade, o InfoSuíça não é um portal de notícias, e sim um portal de tradução de informação.
Segundo referiu, nos últimos tempos começaram a ser publicadas muitas notícias sobre a Suíça, Portugal e outros assuntos, o que, na sua opinião, estaria a afastar o projecto da ideia original. Acrescentou ainda ter recebido muitas críticas devido a essa mudança de rumo e decidiu, por isso, retirar as notícias do site, mantendo apenas conteúdos retirados de plataformas suíças que considere directamente ligados à informação útil e ao apoio à comunidade portuguesa na Suíça.
Quando surgir alguma notícia realmente relevante, explicou, poderá ser divulgada nas redes sociais, mas não necessariamente publicada no site, o que para João Carlos Quelhas não revela qualquer interesse.
A explicação é legítima enquanto decisão editorial, mas deixa várias perguntas por responder.
A primeira é simples:
Se durante cerca de dois anos os artigos foram publicados sem que existisse qualquer problema conhecido, por que razão deixaram agora de se enquadrar no conceito de informação útil para a comunidade?
Grande parte desses textos não era composta por notícias generalistas sem ligação aos emigrantes. Pelo contrário, os assuntos abordados dizem directamente respeito à vida quotidiana de milhares de portugueses.
Entre eles encontram-se matérias relacionadas com a SUVA, seguradora suíça de acidentes, responsável por áreas importantes da protecção dos trabalhadores em casos de acidentes profissionais, não profissionais e doenças profissionais. Foram também tratados casos em que uma pessoa sofre um acidente, perde entretanto o emprego e continua sem recuperar totalmente a sua capacidade de trabalho, ficando presa entre seguros, desemprego, tratamentos médicos e decisões administrativas.
Outro tema recorrente tem sido a KESB, Kindes und Erwachsenenschutzbehörde, autoridade suíça de protecção de menores e adultos. São situações particularmente sensíveis quando envolvem famílias portuguesas, crianças, direitos dos pais, decisões das autoridades, acompanhamento institucional, conflitos entre famílias e serviços e confrontos com diplomatas e governantes.
O desemprego na Suíça também tem ocupado um espaço importante. João Carlos Quelhas tem escrito sobre o RAV, Regionales Arbeitsvermittlungszentrum, Centro Regional de Emprego, procura de trabalho, obrigações dos desempregados, programas de reinserção, sanções, suspensão temporária de prestações e problemas de comunicação entre cidadãos e serviços.
Também têm sido analisadas questões relacionadas com as caixas de desemprego, atrasos nos pagamentos, prestações, documentos exigidos e situações em que trabalhadores portugueses entram numa verdadeira teia burocrática entre diferentes organismos.
Outro campo abordado são as EL, Ergänzungsleistungen, prestações complementares à AHV e à IV, destinadas a pessoas cujos rendimentos ou pensões não chegam para suportar as despesas mínimas de vida. A SERAFE também tem sido tema de artigos, sobretudo em situações relacionadas com a taxa suíça de rádio e televisão, isenções e direitos de determinados beneficiários de prestações complementares.
A lista não termina aqui. Há artigos sobre abonos de família, pensões, reforma suíça recebida no estrangeiro, AHV, invalidez, segundo pilar, regresso definitivo a Portugal e dificuldades que surgem quando uma pessoa trabalhou durante anos na Suíça e pretende perceber exactamente quais são os seus direitos quando regressa ao país de origem.
A fiscalidade é outro dos grandes campos. João Carlos Quelhas tem abordado a dupla tributação entre Portugal e a Suíça, declaração de bens existentes no estrangeiro, impostos pagos num país e consequências fiscais no outro, compra e venda de imóveis em Portugal por emigrantes e residentes, mais-valias, IMI, pagamentos em duplicado, devoluções que não chegam e valores que permanecem retidos durante largos períodos.
Tem igualmente levantado dúvidas sobre aquilo que considera, em determinadas situações, duas balanças diferentes entre quem reside em Portugal e quem vive no estrangeiro.
Outro exemplo são as taxas de água, saneamento e resíduos. Foram analisadas situações em que habitações permanecem meses sem qualquer consumo de água, mas continuam a receber facturas com tarifas fixas, além de dados contraditórios, moradas desactualizadas e outras componentes cuja explicação deve ser exigida aos serviços responsáveis.
Também fazem parte deste trabalho os conflitos com empresas e prestadores de serviços na Suíça, facturas contestadas, contratos, equipamentos alegadamente não devolvidos, cobranças de empresas de recuperação de créditos, juros, despesas administrativas, ameaças de processos, telecomunicações, serviços cancelados e situações em que o consumidor entende estar a ser confrontado com cobranças abusivas ou insuficientemente justificadas.
Há ainda casos de entregas falhadas, produtos defeituosos, compromissos não cumpridos e pessoas obrigadas a perder dias de trabalho porque uma empresa marca uma entrega, desmarca-a e volta posteriormente a falhar.
Tudo isto é informação útil à comunidade. Também o são os assuntos relacionados com consulados, representação diplomática portuguesa, funcionamento das instituições no estrangeiro, atendimento aos cidadãos, decisões políticas que afectam a diáspora e reuniões em que existem divergências entre representantes públicos e cidadãos.
João Carlos Quelhas não esconde que intervém nesses debates. Quando concorda, diz que concorda, quando discorda, contesta. Também os deputados eleitos pela emigração e outros representantes políticos têm sido objecto de análise. Quando considera que fizeram bem, reconhece-o, quando entende que fizeram mal, escreve-o da mesma forma.
A proximidade à política não é escondida. João Carlos Quelhas tem estado directamente envolvido nesse meio e assume publicamente as posições que escreve. Os textos são assinados, a opinião tem autor e a responsabilidade também.
Mas o trabalho não vive apenas de denúncias ou conflitos. O escritor escreve igualmente sobre localidades suíças e portuguesas, aldeias, cidades, tradições, monumentos, associações, comércio português, cultura, história, pessoas, emigrantes, clubes, festas, património e histórias humanas que muitas vezes não encontram espaço nos grandes meios de comunicação.
É precisamente aqui que surge uma diferença importante entre o trabalho desenvolvido pela Revista Repórter X e aquilo que grande parte do InfoSuíça faz.
O InfoSuíça presta um serviço que pode ser útil ao traduzir para Português conteúdos originalmente publicados em Alemão ou noutras línguas por portais e instituições suíças. Para quem não domina essas línguas, essa tradução pode ter valor, mas traduzir um texto já produzido por outro meio não é a mesma coisa que produzir jornalismo de raiz.
Quando se pega numa informação publicada em Alemão e se passa para Português, está-se a transportar informação que já foi procurada, verificada e escrita por terceiros. O trabalho de raiz é diferente.
Pode começar num telefonema, numa reclamação, numa reunião, numa factura, num documento, numa decisão administrativa, numa família ou numa pessoa concreta. Depois, é necessário procurar informação, ouvir intervenientes, analisar documentos, confrontar versões, fazer perguntas, acompanhar o caso e assumir o resultado final num texto próprio.
É essa diferença que João Carlos Quelhas considera fundamental:
Um trabalho traduz informação, o outro procura a história.
Por isso, não é fácil compreender onde nasceu agora o problema com artigos que, durante cerca de dois anos, foram considerados adequados para publicação.
Há ainda outra questão importante. Jorge Santos afirmou ter recebido muitas críticas, mas que críticas foram essas?
Quem as fez?
Foram leitores comuns?
Que artigos criticaram e o que disseram concretamente?
Ou vieram de pessoas ligadas à política, instituições, Consulados, Embaixada, meios de comunicação social ou outras estruturas?
Estas perguntas tornaram-se particularmente relevantes para João Carlos Quelhas porque a mudança aconteceu depois de conflitos recentes relacionados com o deputado pela Europa e com o BOM DIA.
João Carlos Quelhas levantou, por isso, a suspeita de que alguém pudesse ter falado com Jorge Santos e influenciado esta decisão. Nunca afirmou que isso tivesse acontecido como facto, nem apresentou prova de que o cônsul, o embaixador, representantes políticos, o BOM DIA ou qualquer outra entidade tivessem exercido pressão sobre o InfoSuíça. A proximidade temporal entre os conflitos e a mudança editorial foi, contudo, suficiente para lhe levantar essa dúvida.
Confrontado directamente com esta suspeita antes da publicação deste artigo, Jorge Santos respondeu e rejeitou-a categoricamente.
O responsável pelo InfoSuíça afirma que a decisão de alterar a linha editorial foi exclusivamente sua e garante não ter sido contactado, pressionado ou influenciado por consulados, Embaixada, governantes, deputados, partidos, BOM DIA ou qualquer outra das entidades referidas. Jorge Santos assume inteiramente a responsabilidade pela decisão e reafirma aquilo que anteriormente tinha explicado a João Carlos Quelhas: pretende regressar ao conceito inicial que tinha definido para o InfoSuíça antes de começar a publicar com maior frequência notícias e artigos desta natureza.
Segundo Jorge Santos, as críticas que mencionou referiam-se ao retorno que foi recebendo relativamente à orientação que o site estava a tomar e à quantidade de notícias publicadas. Acrescenta que foi com base nesse retorno e na sua própria avaliação que decidiu regressar ao conceito inicial do projecto.
A resposta do director do InfoSuíça fica registada e esclarece a sua posição. Não elimina, contudo, o direito de João Carlos Quelhas manter as dúvidas que o levaram a fazer estas perguntas, sobretudo perante a coincidência temporal dos acontecimentos. Uma suspeita não é uma acusação nem constitui prova de que tenha existido qualquer interferência. Jorge Santos, por sua vez, afirma de forma inequívoca que essa interferência não existiu e assume a decisão como exclusivamente sua.
Fica igualmente esclarecido que esta mudança não significa necessariamente o desaparecimento absoluto dos artigos de João Carlos Quelhas dos canais do InfoSuíça. Jorge Santos transmitiu que os artigos que considere de interesse e adequados ao Facebook ou ao site poderão continuar a ter espaço, mantendo aquilo que entender enquadrar-se no conceito do projecto, conforme acontecia anteriormente e como pretende que continue a acontecer daqui para a frente.
Também considera João Carlos Quelhas que muitas das críticas que lhe são dirigidas não resultam necessariamente dos artigos. Na sua opinião, várias reacções nas redes sociais nascem de rivalidades, invejas, antagonismos pessoais ou políticos e até de pessoas que comentam sem ler ou sem interpretar correctamente aquilo que está escrito.
João Carlos Quelhas tem a certeza de uma coisa:
Grande parte dos artigos que produz é estudada, trabalhada, assinada e baseada em casos concretos, documentos, experiências, reuniões, informação recolhida e convicções que assume publicamente. Podem ser contestados e podem ser criticados, mas devem ser discutidos pelo conteúdo.
O que João Carlos Quelhas pretendia saber era exactamente o que tinha acontecido. Não necessita do InfoSuíça para continuar a publicar, pois a Revista Repórter X possui os seus próprios canais, os seus leitores e a sua identidade editorial.
A questão não é espaço, é transparência.
Depois de cerca de dois anos de colaboração, considerou legítimo perguntar se esta mudança resultava apenas de uma nova orientação editorial ou se alguém, incomodado com determinados textos, teria procurado influenciar Jorge Santos. A resposta do director chegou: garante que ninguém o fez e assume pessoalmente a decisão.
O próprio InfoSuíça apresenta-se como um site independente, sem ligações políticas ou institucionais, e convida os leitores a enviarem notícias e artigos de opinião. Por isso, a independência não deveria ser incompatível com a publicação de textos assinados por autores externos.
Um artigo de opinião identificado não transforma automaticamente a opinião do autor na posição institucional do meio que o publica, e um meio independente não deixa de o ser por publicar opiniões diferentes. A independência mede-se, precisamente, pela capacidade de não ficar condicionado por partidos, governos, instituições, grupos ou interesses particulares.
João Carlos Quelhas não acusa Jorge Santos de ter cedido a qualquer pressão. Levantou perguntas, apresentou as razões das suas dúvidas e recebeu agora uma resposta clara do responsável pelo InfoSuíça, que nega qualquer intervenção exterior e assume inteiramente a mudança editorial.
Para João Carlos Quelhas, esta é também uma questão de honra. Não por precisar do InfoSuíça, mas porque quem assina aquilo que escreve, dá a cara, entra em reuniões, questiona instituições e assume as suas opiniões também tem o direito de perguntar quando alguma coisa muda.
A liberdade editorial pertence ao InfoSuíça, a liberdade de questionar pertence a João Carlos Quelhas. A suspeita foi colocada, a pergunta foi feita e Jorge Santos deu a sua resposta: a decisão foi sua e de mais ninguém.
João Carlos Quelhas
Revista Repórter X

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