Freguesia de Nossa Senhora do Amparo assinalou 96 anos sem música, sem foguetes e sem festa devido a conflito institucional com a Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso;
Freguesia de Nossa Senhora do Amparo assinalou 96 anos sem música, sem foguetes e sem festa devido a conflito institucional com a Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso;
A Freguesia de Nossa Senhora do Amparo assinalou o seu 96.º aniversário sem música, sem foguetes e sem qualquer celebração popular. Segundo informações posteriormente recolhidas, a ausência de festejos esteve relacionada com o conflito existente entre o executivo da Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso e o executivo da Junta de Freguesia de Nossa Senhora do Amparo.
Uma das principais divergências prende-se com a intenção do executivo municipal, presidido por Frederico Castro, de elevar a vila da Póvoa de Lanhoso à categoria de cidade, proposta à qual o presidente da Junta de Freguesia de Nossa Senhora do Amparo, Paulo Silva, e o seu executivo se opõem.
As duas instituições terão entrado num confronto político e institucional. O executivo da Junta de Freguesia não aceita avançar com aquilo que o executivo municipal pretende e, por sua vez, a Câmara Municipal, principalmente o seu presidente e o restante executivo, não permite que a Junta concretize aquilo que pretende fazer.
Esta guerrilha entre os dois órgãos autárquicos terá provocado dificuldades na utilização de espaços e na realização de iniciativas, acabando por prejudicar a comemoração do aniversário da freguesia. É lamentável que duas instituições, que deveriam trabalhar em conjunto ao serviço da mesma população, andem politicamente uma contra a outra.
Quem acabou prejudicado foi o povo. Uma data histórica passou sem festa, sem música, sem foguetes e sem a dignidade que merecia.
A Freguesia de Nossa Senhora do Amparo, na vila e concelho da Póvoa de Lanhoso, assinalou, no passado dia 29 de Julho, o seu 96.º aniversário. Foi nessa data, em 1930, que o Diário da República publicou a lei que oficializou a criação da freguesia, depois de a mesma ter sido promulgada, a 23 de Julho, pelo então Presidente da República, Marechal António Óscar de Fragoso Carmona.
A actual Freguesia de Nossa Senhora do Amparo nasceu da união de parte de duas freguesias históricas, Lanhoso e Fontarcada, até então separadas pelo rio Pontido. A criação da nova freguesia permitiu dotar a sede do concelho de uma estrutura administrativa própria, sem extinguir as freguesias de origem.
Do lado de Lanhoso ergue-se um dos maiores símbolos da história do concelho, o Castelo de Lanhoso, juntamente com a Igreja de Nossa Senhora do Pilar, a Igreja do Horto, várias capelas e um importante património religioso e paisagístico. É também nesta área que se encontra o maior monólito de pedra da região minhota.
Do outro lado do rio Pontido situa-se Fontarcada, conhecida pelo seu Mosteiro, pela sua igreja, marcada pela conjugação de diferentes estilos arquitectónicos e pelos seus arcos, bem como pela tradição da Fonte de Maria da Fonte, local que, segundo a tradição popular, está ligado à heroína da Revolução da Maria da Fonte.
Ao longo dos anos, a localização da estátua de Maria da Fonte também suscitou opiniões distintas. O monumento encontra-se actualmente do lado de Lanhoso, quando anteriormente estava associado a Fontarcada. Há quem considere que esse não será o local mais adequado, independentemente da discussão sobre a verdadeira origem de Maria da Fonte. Uma reflexão que já foi defendida, em diferentes épocas, pelo Padre Casimiro, por Camilo Castelo Branco e por João Carlos Quelhas, entre outros.
Como povoense atento à história e à identidade da sua terra, João Carlos Quelhas destacou igualmente o trabalho desenvolvido pela Confraria de Nossa Senhora do Pilar. As actividades religiosas, culturais e festivas promovidas entre o Horto e o Pilar devolveram vida a um dos locais mais belos da Póvoa de Lanhoso, transformando-o novamente num espaço de lazer, convívio e encontro entre gerações.
Inicialmente, tudo indicava que aquele espaço poderia ter sido escolhido para assinalar o 96.º aniversário da freguesia. Contudo, a data acabou por passar sem música, sem foguetes e sem qualquer celebração popular digna da importância histórica do acontecimento.
Independentemente das razões apresentadas por cada uma das partes, é lamentável que uma divergência política e institucional tenha contribuído para que o aniversário da freguesia passasse praticamente despercebido.
Uma data com esta importância não pertence a um presidente, a um executivo, a um partido ou a uma instituição. Pertence ao povo.
João Carlos Quelhas deixa, por isso, uma reflexão dirigida aos responsáveis locais. O executivo da Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso e o executivo da Junta de Freguesia de Nossa Senhora do Amparo deveriam caminhar lado a lado, preservando o espírito de união que sempre caracterizou a terra.
Cada instituição tem o seu papel, mas nenhuma divergência deveria prejudicar a população ou transmitir a ideia de que a freguesia e o Município vivem numa permanente guerrilha política.
A história da Póvoa de Lanhoso foi construída pela união das suas gentes, pelo trabalho das freguesias e pelo respeito entre as instituições. Quando os responsáveis políticos colocam as suas divergências acima da terra que representam, quem perde não é apenas uma junta ou uma câmara. Perde o povo, perde a freguesia e perde a memória colectiva.
Noventa e seis anos depois da criação da Freguesia de Nossa Senhora do Amparo, esta data deveria ter servido para homenagear todas as gerações que contribuíram para o crescimento da vila da Póvoa de Lanhoso e para preservar um património histórico, cultural e humano que continua a ser motivo de orgulho para todos os povoenses.
Em vez disso, ficou o silêncio. Não houve música, não houve foguetes, não houve festa. Houve apenas a tristeza de ver duas instituições, que deveriam servir a mesma população, caminharem em sentidos diferentes.
João Carlos Quelhas
Autor e fundador da Revista Repórter X.

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