Categoria: Sabores
Autor: João Carlos Quelhas
Hoje apeteceu-me voltar a um daqueles sabores que atravessam os anos e nos levam, por instantes, ao lugar onde fomos felizes. Preparei uma chávena grande de leite com café, acrescentei açúcar até ficar bem doce e besuntei generosamente algumas fatias de broa de milho com manteiga. Outra parte da broa foi metida dentro da chávena e comida à colherada, tal como fazia na infância.
Naquele tempo, o leite era de cabra e vinha de casa. Agora, é leite de vaca comprado num pacote. O sabor não é exactamente o mesmo, mas o gesto permanece. Há hábitos antigos que não desaparecem, apenas ficam adormecidos até ao dia em que a memória os chama.
Sei que a lactose, quando consumida todos os dias, pode não fazer bem a algumas pessoas. Sei também que o café pode aumentar a tensão arterial e que o açúcar em excesso é prejudicial, sobretudo para quem sofre de diabetes. Ainda assim, uma pequena quantidade, tomada de vez em quando e com moderação, pode servir para recuperar um gosto antigo sem transformar o prazer num abuso.
Hoje comi o leite com café, açúcar e broa com manteiga. Mais logo, se Deus quiser, quero comer broa com laranja. Tenho a broa em casa e apetece-me voltar a apreciar aquela combinação simples, deixando o sumo da laranja humedecer a broa dentro da boca. Não será apenas água a vir à boca, porque a laranja já lá estará.
Também aqui deve existir moderação. A laranja pode não ser indicada para todas as pessoas, sobretudo para quem sofre de determinados problemas na vesícula ou no aparelho digestivo. Porém, uma pequena porção, saboreada lentamente, não é o mesmo que comer em excesso.
Há alguns dias, assei sardinhas num assador eléctrico colocado no balcão. Não tinham sido preparadas sobre brasas, mas quase sabiam às sardinhas assadas nos antigos arraiais e nas tardes de Verão. Para quem tem colesterol elevado ou necessita de controlar a alimentação, a quantidade e os acompanhamentos devem ser considerados. Ainda assim, uma sardinha bem assada traz consigo muito mais do que alimento. Traz o cheiro da rua, o fumo das festas e a lembrança das mesas rodeadas de gente.
Nos próximos tempos, com pausas entre cada desejo, quero voltar a provar muitos dos alimentos que a memória me vai recordando. Não pretendo comê-los todos de seguida, nem em grandes quantidades. A intenção é saborear um de cada vez, em pequenas porções, deixando passar algum tempo antes de procurar outro gosto.
Noutra ocasião, quero usar novamente a broa para a molhar em ovos batidos, bem doces, com um fio de vinho verde tinto. Não será para encher a barriga, mas para provar e recordar.
Também não pode faltar o caldo verde, que de vez em quando já preparo para matar o desejo. Leva chouriço caseiro, azeite puro e um fio de vinagre branco ou tinto. Um prato pequeno pode ser suficiente para trazer de volta o calor das cozinhas antigas e das noites frias em que uma sopa quente alimentava o corpo e a alma.
Depois virão, moderadamente, os rojões, os farinhatos, a tripa, o sangue de porco e outros sabores ligados à matança tradicional. Não quero apenas lembrar que existem. Quero voltar a prová-los nos próximos tempos, em pequenas quantidades, sem pressa e sem exageros.
São alimentos pesados, geralmente ricos em gordura e sal, razão pela qual não devem ser consumidos todos os dias nem em abundância. Contudo, fazem parte de uma memória gastronómica que atravessou gerações e ajudou muitas famílias a enfrentar os meses mais difíceis do ano.
Também quero voltar a comer uma boa punheta de bacalhau, preparada com cebola caseira, azeite puro e broa. Pode ser acompanhada por um pequeno caneco de vinho verde tinto da região do Minho.
Porém, nem tudo tem de ser vinho. Também quero voltar a beber aquele refresco simples, feito com água fresca da bica da aldeia, limão do campo e açúcar amarelo. Não é uma bebida qualquer. É uma recordação líquida dos dias quentes, das fontes antigas e da simplicidade de outros tempos.
Num futuro piquenique, também gostaria de voltar a encontrar os bolinhos de bacalhau, os ovos cozidos, o bacalhau frito, o pão, a cerveja, o vinho, os sumos e a água. Não será necessário comer tudo em abundância. Bastará provar um pouco de cada coisa, partilhando a comida e a conversa.
Os piqueniques sempre foram feitos de mesas improvisadas sobre mantas, bancos de pedra ou compridas mesas de madeira. Cada pessoa levava alguma coisa e tudo era repartido. O alimento ganhava outro sabor porque era comido em conjunto.
Apesar de viver na Suíça, ainda se vão encontrando produtos frescos e caseiros vindos de Portugal. Alguns trazem no rótulo a origem portuguesa. Outros trazem algo mais importante, o sabor da terra, das mãos que os fizeram e das tradições que não se deixam apagar pela distância.
Sobre aquilo que faz bem ou mal à saúde, nem sempre existe uma resposta simples. Depende da idade, das condições de saúde, da quantidade, da frequência e do modo como cada alimento é preparado.
As pessoas não reagem todas da mesma maneira. Quem sofre de diabetes, colesterol elevado, tensão arterial alta, problemas na vesícula ou outras doenças deve ter cuidados próprios e seguir as recomendações médicas adequadas. Estas referências são gerais e não significam que uma só pessoa sofra de todas essas doenças.
Isto também não significa que seja necessário abandonar todos os alimentos tradicionais. Significa apenas que devem ser consumidos com moderação e bom senso.
Provar não é comer até não poder mais. Provar é comer uma pequena quantidade, saborear devagar, guardar a memória e fazer uma pausa antes de procurar outro alimento.
Hoje foi o leite com café, açúcar, broa e manteiga. Mais logo, se Deus quiser, será a broa com laranja. Depois, nos próximos dias e nos próximos tempos, virão os outros alimentos já citados e aqueles de que a memória ainda se lembrar.
Um de cada vez, pouco de cada vez, porque não é necessário encher a barriga para matar o desejo.
A fome nasce no estômago, mas o desejo começa muitas vezes no cérebro e na memória. E há sabores que não alimentam apenas o corpo. Alimentam a infância, a família, a aldeia e a saudade.

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