Categoria: Sociedade e Redes Sociais.
Autor: João Carlos Quelhas.
Cada vez mais pessoas se queixam do mesmo. Entram numa plataforma à procura de uma conversa, de uma amizade ou até de um companheiro para a vida e acabam por encontrar uma mentira.
Há quem diga:
«Tenho notado que a maioria das mulheres nesta plataforma são perfis falsos. Eu adoraria encontrar uma mulher bonita, com idade entre 55 e 78 anos. Mesmo que seja apenas para conversar. Por que isso é tão difícil?»
A resposta de outra pessoa não tardou:
«Bom dia... É verdade também há perfis falsos de homens e eu já encontrei muitos e conheço-os porque muitos só trocam de nome. Mas eu não sou perfil falso, só não tenho a minha foto porque tenho medo. Mas também ninguém me fala aqui.»
Outra opinião acrescentava:
«Eu também tenho notado que aqui só tem homens fake e tem homens que só querem ganhar mídia.»
E, entre centenas de comentários, surgiram ainda frases bem mais duras:
«O pior é que não são homens, são aberrações da natureza.»
«Depois tem culpa quem anda nas redes sociais à procura de alguma coisa, esse aí talvez seja gay e noutros casos lesbianas e trocam de identidade porque lhes dá gozo.»
E houve quem deixasse um conselho simples:
«Sugestão, vão aos bailes, não faltam lá mulheres e homens e muitos com a família e é mais seguro conhecer a identidade.»
E, no meio da revolta, surgiu ainda a expressão:
«Fodei-vos.»
Estas palavras podem chocar, mas revelam a indignação de quem sente que a Internet se transformou, demasiadas vezes, num terreno fértil para a mentira.
Existe hoje uma verdadeira prostituição digital da identidade. Pessoas escondem o rosto, inventam nomes, roubam fotografias, fingem idades, profissões, doenças, fortunas e sentimentos. Criam personagens para conquistar a confiança de quem, muitas vezes, apenas procura alguém com quem conversar ao fim de um dia de solidão.
Depois começam as histórias dramáticas. Um filho doente. Um acidente. Um bloqueio bancário. Uma viagem que nunca acontece. Um pedido de ajuda financeira.
Noutros casos enviam fotografias íntimas, ou convencem a vítima a fazer o mesmo. Mais tarde surge a chantagem. Exigem dinheiro para não divulgar as imagens, ameaçam destruir famílias, carreiras e reputações. É uma forma de extorsão que todos os anos faz inúmeras vítimas.
Entre estes indivíduos podem existir burlões profissionais, manipuladores, pessoas sem qualquer escrúpulo e, nalguns casos, personalidades com traços psicopáticos, capazes de explorar emocionalmente alguém vulnerável sem qualquer remorso.
Quem está sozinho, quem perdeu o cônjuge, quem vive longe da família ou quem simplesmente procura um pouco de carinho acaba por ser o alvo ideal. A esperança torna-se uma armadilha.
Nada disto significa que todas as pessoas sejam falsas. Existem relações verdadeiras que nasceram através da Internet e duram até hoje. Mas a prudência nunca foi tão necessária.
No entanto, também é preciso dizer uma verdade incómoda. Mesmo existindo criminosos e impostores, quem decide confiar cegamente em desconhecidos, enviar dinheiro, partilhar fotografias íntimas ou acreditar em histórias sem qualquer verificação assume um risco enorme.
A responsabilidade pelos crimes pertence sempre aos criminosos, mas a prevenção depende de cada um.
Talvez por isso continue a fazer sentido um conselho antigo. Conhecer pessoas em ambientes reais, bailes, associações, clubes, grupos culturais ou locais onde a identidade é mais fácil de confirmar, continua a ser, muitas vezes, um caminho mais seguro.
A tecnologia aproximou continentes, mas também abriu portas à mentira. Cabe a cada um escolher entre a ilusão de um perfil e a realidade de um rosto.
João Carlos Quelhas
Director da Revista Repórter X
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