Portugal: um país adiado

Categoria: Economia e Sociedade

Autor: José Maria Ramada


Vivemos num país onde a esperança parece cada vez mais um luxo reservado a poucos.

Portugal orgulha-se de estar na União Europeia, mas continua a exibir um dos salários médios mais baixos do bloco. Trabalhamos tanto quanto os outros, mas recebemos muito menos, com a eterna desculpa da produção. Mas não serão salários dignos o melhor incentivo à produção?

Muitos teimam em afirmar que somos o país com a menor taxa de produtividade, mas temos de reconhecer que a qualidade do trabalho dos portugueses é a mesma que, no estrangeiro, é valorizada e acarinhada.

É o paradoxo português: esforço de primeiro mundo, recompensas de terceiro. Cerca de 30% dos portugueses vivem no limiar da pobreza, muitos deles a passar fome, a escolher entre comer ou comprar medicamentos. É um retrato cruel de uma sociedade que envelhece mal e que abandona os seus mais frágeis à margem da dignidade.

A Justiça, tantas vezes proclamada como pilar da democracia, é cada vez mais injusta e lenta. Os casos de corrupção arrastam-se eternamente nos tribunais, porque esses mesmos que roubam milhões podem também corromper, de certa forma, a Justiça.

A Segurança, quando mais precisamos dela, parece ausente, não tem autoridade e cada vez é mais marginalizada por uma política que parece dar jeito que o nosso país não seja seguro.

A Saúde Pública está à beira do colapso e já nem surpreende sabermos que há crianças a nascer nas ambulâncias ou nas ruas por falta de resposta hospitalar. Há falta de tudo nas instituições da Saúde, mas o que falta acima de tudo é vontade política de valorizar o sector, para que os profissionais sintam que podem fazer mais e melhor.

Quanto à Educação, deveria ser o motor do futuro, mas tornou-se um sistema cansado, burocrático e desmotivado, incapaz de educar para a cidadania ou para o pensamento crítico. Quando os encarregados de educação não respeitam as escolas, como podem os jovens respeitar os professores?

Metade dos reformados vive com menos de 500 euros por mês. Depois de uma vida inteira de trabalho, são condenados a sobreviver, não a viver. E, enquanto isso, os políticos, entre promessas e discursos, continuam a assobiar para o lado, protegendo interesses, alimentando a corrupção e iludindo o povo com estatísticas que dizem que «a pobreza baixou», mas este valor das reformas baixas de quem sempre contribuiu é o mesmo valor dos subsídios de inserção pagos àqueles que nunca contribuíram.

Baixou o PIB, talvez, a pobreza de espírito e de inteligência de quem assina tais notícias, tentando transformar a miséria em sucesso político. O que não baixa é a conta da luz, o preço da habitação, a fila no centro de saúde ou o desespero de quem sente que o país ficou preso no tempo.

Portugal não precisa de milagres, precisa de coragem, transparência e justiça social. Até lá, continuaremos a ser o país das promessas, das desigualdades e dos adiamentos.

Dizem-nos os políticos que a remuneração bruta total média mensal por trabalhador em Portugal subiu para 1.602 euros, um aumento nominal de 6,3% em relação a 2023 e um aumento real, descontando a inflação, de 3,8%. Em termos mais restritos, a remuneração bruta regular, excluindo subsídios de férias e de Natal, atingiu 1.294 euros em 2024, e a componente base 1.213 euros. No primeiro trimestre de 2025, o salário médio bruto dos trabalhadores portugueses foi de 1.525 euros por mês.

Relativamente ao salário anual ajustado a tempo inteiro, em 2023 Portugal tinha um valor de 22.933 euros, posicionando-se em 18.º lugar entre os 27 países da União Europeia. O salário mínimo nacional, em 2025, foi actualizado para 870 euros por mês, segundo o Boletim Económico do Banco de Portugal. Em 2024, apenas cerca de 5,8% dos trabalhadores tinham remuneração bruta regular média superior a 2.000 euros por mês, ou seja, o grosso dos trabalhadores está abaixo desse patamar.

Mas pergunta-se: tantos aumentos? E quanto aumentou o custo de vida ao longo dos anos? Ganhou ou perdeu poder de compra o comum do cidadão português?

Sobre a pobreza, em 2025, a taxa de risco de pobreza, definida por rendimentos monetários líquidos inferiores a 632 euros por mês, foi de 16,6% da população residente. Ainda em 2025, cerca de 1,8 milhões de portugueses viviam em agregados familiares com rendimento mensal inferior a 632 euros.

Sobre pobreza «extrema», no relatório de 2025, 10,4% da população residente vive com menos de cerca de 300 euros por mês. No ranking europeu de rendimento mediano mensal das famílias, Portugal ocupava a 18.ª posição entre os 27 países da União Europeia em 2025.

Este não é o país desejável, mas infelizmente é o país que temos, por falta de políticos capazes e com coragem para fazer mudar o rumo de Portugal.


Revista Repórter X / Repórter Editora

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