Póvoa de Lanhoso: não se gasta água, mas a factura continua a correr

Póvoa de Lanhoso: não se gasta água, mas a factura continua a correr:


Revista Repórter X analisa factura municipal e encontra tarifas pouco claras, dados de morada contraditórios e referência a um banco que já não existe com esse nome...

Há contas que merecem ser pagas e há contas que, antes de serem pagas, merecem ser explicadas. Na Póvoa de Lanhoso, uma factura municipal levanta várias questões, desde o peso das tarifas fixas até à existência de dados que deveriam estar actualizados há muito.

Uma habitação pode passar meses sem consumir um único metro cúbico de água. O contador não anda, não há consumo, mas a factura continua a chegar.

E não chega vazia.

O histórico da factura analisada pela Revista Repórter X demonstra uma sucessão de meses sem qualquer consumo de água e, apesar disso, existem cobranças mensais relativas a diferentes componentes do serviço.

É legal? Poderá ser. Mas ser legal não significa que o cidadão não tenha o direito de perguntar se o tarifário é justo, proporcional e razoável.

É precisamente isso que o Município da Póvoa de Lanhoso deve explicar: quanto custa simplesmente ter o contador e os serviços activos, mesmo sem gastar água, e qual é o fundamento de cada parcela cobrada.

Na factura aparecem, inclusivamente, duas parcelas com exactamente a mesma designação de «Tarifa Fixa, Doméstico», mas com valores diferentes. Se correspondem a serviços ou componentes diferentes, deveriam estar claramente identificadas. Uma factura deve informar o consumidor, não obrigá-lo a interpretar aquilo que a própria entidade emissora não distingue.

Dois números de porta na mesma factura

Há depois uma situação que dificilmente pode ser atribuída ao consumidor.

A morada do imóvel foi alterada oficialmente, passando de um antigo número de porta para um novo número. Contudo, a factura continua a apresentar os dois números, um na identificação do local de instalação e outro na zona destinada à correspondência.

Ou seja, a alteração foi feita, mas não foi feita em todo o sistema.

O resultado é curioso: uma única factura municipal consegue atribuir dois números de porta diferentes à mesma situação contratual.

Se a numeração foi alterada, o sistema deve ser actualizado por inteiro. Não cabe ao consumidor continuar indefinidamente a receber documentos com dados antigos misturados com os actuais.

Em 2026, o Banco Espírito Santo ainda aparece na factura

Mais surpreendente é a informação bancária.

Na factura emitida pelo Município continua expressamente escrito «Banco Espírito Santo, SA», acompanhado dos dados bancários associados ao débito directo.

Mas o banco do cliente é actualmente o novobanco.

Não estamos a falar de uma pequena gralha num nome próprio. Estamos perante a identificação de uma instituição bancária numa factura oficial emitida em 2026.

E isto conduz a uma questão inevitável.

Com tanta tecnologia, tanta digitalização e tantas dificuldades que hoje são colocadas ao cidadão para actualizar dados, preencher formulários, entrar em plataformas, utilizar códigos, senhas e autenticações, porque não dão também as entidades públicas o exemplo, fazendo as coisas bem feitas?

Ao cidadão exige-se rigor. Um número errado pode obrigá-lo a apresentar documentos. Uma morada desactualizada pode criar problemas. Um campo mal preenchido pode impedir um procedimento administrativo.

Então, o mesmo rigor deve começar em casa.

Se uma Câmara Municipal exige que os cidadãos mantenham os seus dados actualizados, também deve garantir que os documentos que emite apresentam informações correctas e actuais.

E continua a questão principal: pagar sem consumir

Nada disto apaga a questão central.

Quando uma habitação passa um longo período sem consumir água e continua sujeita a uma factura mensal, é legítimo perguntar até onde devem ir as tarifas fixas.

Naturalmente, existem redes de abastecimento, saneamento e recolha de resíduos que precisam de manutenção. Um serviço público tem custos mesmo quando determinado consumidor não abre uma torneira.

Mas isso não dispensa transparência.

A Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso deve explicar publicamente o seu tarifário, esclarecer cada uma das parcelas cobradas, dizer quanto paga obrigatoriamente uma habitação com consumo zero e permitir que esse custo seja comparado com aquilo que se pratica noutros municípios portugueses.

E deve corrigir aquilo que está errado.

Dois números de porta numa factura não são rigor. Um banco identificado por uma designação ultrapassada não é actualização. Duas tarifas diferentes apresentadas com o mesmo nome não são clareza.

Num tempo em que tudo se exige ao cidadão através da tecnologia, talvez seja altura de a tecnologia começar também a servir para que a Administração Pública faça aquilo que exige aos outros: ter os dados certos, explicar o que cobra e fazer as coisas bem feitas.

Se quiser, também posso deixá-lo com uma entrada mais forte, em estilo de notícia de investigação da Revista Repórter X.


Revista Repórter X / Repórter Editora

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