Sonhos: Entre o mistério, a memória e a esperança

Sonhos: Entre o mistério, a memória e a esperança


Os sonhos acompanham a Humanidade desde os tempos mais antigos. Reis, camponeses, filósofos, cientistas e religiosos tentaram compreendê-los, mas ninguém conseguiu explicar definitivamente porque sonhamos.

Serão apenas recordações organizadas pelo cérebro?
Reflexos das nossas preocupações?
Medos escondidos?
Esperanças?
Ou haverá algo que a ciência ainda não conseguiu descobrir?

Enquanto dormimos, desaparecem as leis da lógica. O tempo deixa de existir. Misturam-se o passado e o presente, os vivos e os mortos, lugares conhecidos e cenários impossíveis. Em poucos segundos podemos reviver décadas da nossa vida ou encontrar pessoas que já partiram há muitos anos.

Há sonhos que nos fazem acordar a sorrir. Outros deixam-nos inquietos durante dias. Uns desaparecem poucos minutos depois de acordarmos, enquanto outros permanecem gravados na memória para sempre. Sonho muito.

Na maior parte das vezes não me lembro de quase nada. Há também sonhos que prefiro guardar para mim, porque nem tudo o que se sonha precisa de ser contado. Ao longo da minha vida tive sonhos que nunca consegui esquecer.

Já sonhei que regressava ao tempo em que fui vendedor. Cerca de vinte anos depois encontrava-me novamente a vender ao lado de um funcionário que ainda está vivo. De repente apareceu também outro colega que já tinha falecido e continuou a trabalhar connosco como se nunca tivesse partido. Talvez a memória nunca aceite verdadeiramente a despedida de quem fez parte da nossa vida. Nos sonhos, aqueles que partiram continuam presentes, como se apenas tivessem saído por momentos.

Noutra ocasião encontrei um antigo cliente na Suíça. Apesar de lhe recordar o seu nome, o nome da esposa, da filha e de quatro cunhadas, ele não fazia ideia de quem eu era. Só quando lhe disse o meu nome conseguiu recordar-se. Talvez seja um lembrete de que o tempo apaga muitos rostos, mas nem sempre consegue apagar as histórias que vivemos.

Também sonhei com um amigo dos tempos da escola, hoje a viver noutro país. Estava de férias e ao cruzar-se connosco, pegou primeiro no meu neto ao colo, apesar de nem o conhecer. Olhei para ele e perguntei: "Primeiro cumprimentas o neto em vez do avô?" Talvez este sonho represente a esperança de um futuro melhor. As crianças são o futuro da Humanidade e cada geração deseja que os seus filhos e netos vivam melhor do que viveu.

Por breves instantes apareceram também pessoas muito queridas que já partiram, o meu pai, a minha mãe e um vizinho. Não disseram uma única palavra. Apenas estiveram presentes durante alguns segundos e desapareceram. Talvez certas pessoas nunca morram verdadeiramente enquanto continuarem a viver na memória e no coração daqueles que as amaram.

Muitas vezes sonho com situações de grande perigo. Há aflição, dificuldades e momentos em que tudo parece perdido. Contudo, no fim, nada de grave acontece. Acabo sempre por escapar e tudo termina em paz. Talvez estes sonhos sejam apenas o reflexo da própria vida. Também nela enfrentei dificuldades muito sérias e, apesar de tudo, consegui sempre levantar-me e seguir em frente. Quem sabe se os sonhos apenas me recordam que nunca devemos desistir.

Várias vezes entrei num túnel. Caminhava para a frente, mas acabava sempre por voltar para trás. Ficava com a sensação de que, se continuasse, aquele seria o meu fim. Depois do transplante renal, este sonho ganhou para mim um significado ainda mais forte. Talvez aquele túnel represente a fronteira entre a vida e a morte. Enquanto volto para trás, continuo vivo.

Já voei muitas vezes em sonhos. Talvez seja o mais impossível de todos. O ser humano não nasceu para voar. No entanto, enquanto sonho, consigo fazê-lo. Durante alguns instantes sinto-me livre, sem limites e quase invencível, como se o impossível deixasse de existir.

Também já sonhei com cobras. A última vez encontrava-me num local povoado por cobras enormes. Não matavam as pessoas, mas massacravam-nas. Apesar disso, todas acabavam por ser socorridas. Entre elas havia uma cobra branca. Essa não atacava ninguém. Limitava-se a exibir-se. Talvez representem os obstáculos, os medos ou as pessoas difíceis que encontramos ao longo da vida. Curiosamente, é o animal de que menos gosto. Pergunto-me porque motivo não sonho antes com cavalos, cães, gatos, peixes, pássaros ou joaninhas, animais que inspiram confiança e serenidade!

Outro sonho que nunca esqueci foi uma enorme tempestade de água. A inundação cobriu praticamente toda a freguesia. Para escapar fui subindo cada vez mais alto e, por escassos metros, não me afoguei. De repente tudo voltou ao normal. A água desapareceu e as pessoas continuavam lá, como se nada tivesse acontecido. Talvez represente mais uma luta pela sobrevivência. Tal como no túnel, escapei à morte. E, olhando para a minha vida, reconheço que houve momentos em que estive mais perto de partir do que de ficar.

Os sonhos continuarão, provavelmente, a ser um mistério. Talvez nunca saibamos de onde vêm nem porque escolhem determinadas pessoas, lugares ou momentos da nossa vida. Talvez sejam apenas sonhos. Ou talvez escondam significados que ainda não conseguimos compreender. Há, porém, um sonho que gostaria que um dia deixasse de ser apenas um sonho.

Se existir vida para além da morte e se Deus o permitir, gostaria de continuar a sonhar. Gostaria de poder ver, ainda que por breves instantes, como vivem os meus filhos, os meus netos e os meus bisnetos. Não para interferir nas suas vidas, mas apenas para saber se foram felizes, se tiveram uma vida melhor do que a nossa, se o mundo evoluiu para todos e se a Humanidade soube aprender com os erros do passado. Através deles saberia também que a minha família continuou o seu caminho. Porque, para quem sempre procurou proteger os seus, talvez não exista sonho mais belo do que esse.

Para terminar, gostaria de sonhar com um mundo em paz, onde as guerras fossem apenas uma má recordação da História. Nem que fosse apenas durante um sonho, gostaria de ver todos os povos a festejar, unidos, felizes e sem medo. Talvez esse fosse o mais belo de todos os sonhos. Infelizmente, quando abrimos os olhos, percebemos que o mundo continua demasiadas vezes dominado pela hipocrisia, pela ambição desmedida e pela ganância. Ainda assim, enquanto houver quem sonhe com a paz, haverá sempre esperança de a tornar realidade.


Revista Repórter X / Repórter Editora

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