Categoria: Cultura / Literatura
Autor: Artur Silva
A noite na Serra da Estrela não pede licença; impõe-se com um frio que corta a pele e purifica a alma. Procurando abrigo da nortada que começava a uivar entre as fendas das rochas, os dois viajantes avistaram o fulgor trémulo de uma fogueira. Era um abrigo de pastores, uma corte de pedra e colmo perfeitamente camuflada na paisagem agreste.
Lá dentro, o calor era um abraço. Um velho pastor de mãos calejadas pelo pastoreio e rosto sulcado pelo sol e pela neve acolheu-os com a hospitalidade silenciosa, mas profunda, das gentes da serra. Sem pressa, o homem partilhou o que a montanha generosamente dá a quem a respeita. Sobre uma tábua de madeira tosca, dispôs o pão de centeio denso e escuro, saído de um forno comunitário, e um Queijo da Serra amanteigado, cujo aroma intenso contava a história das ovelhas Bordeleiras e do cardo que coalha o leite nos invernos rigorosos. Para aquecer o sangue, verteu num copo de corno um vinho purpúreo e encorpado, acompanhado pelo sabor forte do chouriço assado no borralho.
Enquanto os viajantes saboreavam aquele banquete telúrico, os olhos do geógrafo fixaram-se na abertura da porta, por onde se avistava o céu mais limpo e estrelado que alguma vez já vira. O topo do mundo parecia tocar o firmamento.
— Esta terra tem uma luz antiga — murmurou o poeta, com o paladar ainda marcado pela envolvência do queijo e do vinho.
O velho pastor sorriu, os olhos brilhando como brasas moribundas, e começou a falar com uma voz que parecia ecoar do fundo dos vales.
— Dizem os antigos que, há muitos séculos, este lugar era apenas uma montanha sem nome, erguida entre as nuvens. Nela vivia um jovem pastor que passava as noites a olhar para o céu. Ele não tinha posses, mas tinha o coração cheio de música. Uma noite, uma estrela invulgar, mais brilhante do que todas as outras, fixou-se no topo da mais alta penha. Ela não brilhava para o mundo; brilhava apenas para ele.
Os viajantes escutavam, imóveis, embalados pelo crepitar da lenha de urze.
— Durante anos — continuou o pastor —, estabeleceu-se um pacto sagrado entre a terra e o céu. O rapaz compunha melodias na sua flauta de cana, e a estrela descia num raio de prata para iluminar os seus caminhos nas noites de lobos e de nevoeiro cerrado. O pastor guiava o seu rebanho em segurança pelos trilhos mais perigosos do planalto superior, protegido por aquele farol celeste. Sabia exatamente onde a erva era mais tenra e onde a água das lagoas glaciares era mais pura.
O geógrafo anotava mentalmente a fusão entre o mito e a dura realidade da transumância, aquela viagem sazonal em que os pastores cruzavam os caminhos da serra desafiando os abismos.
— Mas a beleza atrai a cobiça dos reis — suspirou o velho, ajeitando a capa de pardo que lhe cobria os ombros. — Um monarca poderoso soube da estrela que guiava o pastor e subiu à montanha com o seu exército. Ofereceu ao rapaz rebanhos de ouro, terras férteis nas planícies do sul e um palácio de mármore. Em troca, queria a estrela para a coroa da sua rainha. O pastor olhou para as suas mãos vazias, olhou para a imponência das fragas que o viram nascer e recusou. Disse ao rei que a estrela não era um objeto de posse, mas uma companheira de solidão.
O poeta sorriu, tocado pela integridade do herói serrano.
— O rei partiu irado, prometendo roubá-la — concluiu o pastor. — Mas aquela noite foi a mais escura de que há memória. A estrela, percebendo o perigo e o amor puro do seu pastor, desprendeu-se do firmamento. Em vez de subir, desceu e fundiu-se para sempre com o topo da rocha mais alta, transformando o granito num farol eterno de pedra. O rapaz chorou a perda da sua amiga, mas compreendeu que ela se sacrificara para nunca o deixar. Desde esse dia, a montanha passou a chamar-se Serra da Estrela. E nós, os que aqui ficámos, continuamos a guiar-nos pela sua luz silenciosa, gravada na alma destas gentes.
O silêncio instalou-se na cabana, interrompido apenas pelo vento que lá fora continuava a esculpir as fragas antigas. Os dois viajantes entreolharam-se. O geógrafo já não via apenas a altitude e as coordenadas geográficas; via a poesia da sobrevivência. O poeta já não via apenas a metáfora; sentia o peso do granito e o sabor do xisto.
Ao amanhecer, quando a névoa se dissipou e revelou a Torre banhada pelo primeiro sol dourado, os dois caminhantes despediram-se do pastor. Desceram a encosta por caminhos diferentes, mas ambos levavam nos olhos o reflexo daquela estrela que, algures no topo da serra, nunca deixa de brilhar para quem sabe escutar o silêncio da montanha.
O sol de outono dourava as arestas frias do planalto quando o geólogo e o poeta se despediram à porta da corte de pedra. O pastor, com o cajado firme e o olhar perdido na imensidão, observava os dois homens seguirem direções opostas. Cada um levava consigo o eco da lenda da estrela, mas cada um traduzia o silêncio do granito à sua própria maneira.
O geólogo iniciou a sua descida pelo Vale Glaciar do Zêzere. Para ele, o trilho não era apenas um caminho de terra; era uma linha do tempo vertical profunda. Caminhava com o martelo de campo à cintura e a bússola na mão, mas os seus olhos liam a poesia oculta na própria estrutura da terra. Olhava as encostas abruptas que ladeavam o rio e via, desenhada na rocha, a perfeita calha de um vale em "U". Sabia que ali, onde agora corria um fio de água cristalina, uma massa colossal de gelo avançara há 20.000 anos, exercendo uma pressão titânica sobre as paredes laterais, polindo o granito com a paciência dos séculos.
A cada passo, o cientista tocava a ossatura da serra: o Granito Porfiroide. Passava os dedos calejados pelos fenocristais gigantes de feldspato que brilhavam sob o sol, como estrelas aprisionadas numa matriz de grão fino desde o coração da era Paleozoica.
Ao atingir o Covão da Ametade, o geólogo parou diante dos Cântaros. Onde outros veriam apenas penedos selvagens, ele identificava um Horst, um bloco levantado pelas forças tectónicas da orogenia Alpina, erguido com orgulho enquanto as planícies em redor se afundavam em vales profundos. Nas margens do trilho, as moreias contavam-lhe a história do degelo. Eram gigantescos amontoados de pedras e areia abandonados pela retirada dos glaciares, verdadeiras cicatrizes geológicas que mostravam até onde o inverno do mundo estendera o seu domínio. No meio de um prado, deparou-se com um bloco errático, uma rocha colossal deixada cair no meio do nada pela língua de gelo moribunda. Para o geólogo, a montanha era um monumento vivo à mecânica do universo.
Na vertente oposta, o poeta descia em direção ao abismo de Loriga, mas os seus passos eram guiados por uma cartografia invisível: a alma das gentes serranas. O vento que batia nas Penhas Douradas trazia-lhe o eco dos cantares da transumância, melodias antigas entoadas à capella que falavam de partidas e saudades. Na sua mente, ressoava o Canto da Partida, o lamento dos pastores que no outono deixavam as suas famílias para descer com o gado rumo ao sul: "Adeus, ó Serra da Estrela, / Coberta de branca neve... Vou para terras alheias, / Sem saber se vos volto a ver." O poeta sentia a dor daquela solidão gravada na pedra.
Ao atravessar um planalto superior, o poeta deparou-se com uma sucessão de rochas aborregadas. O geólogo diria que eram afloramentos polidos e riscados pela fricção do glaciar; o poeta, contudo, via nelas um rebanho de pedra, carneiros de granito adormecidos na crista do mundo. O som do vento nas fendas das rochas transformava-se, no seu ouvido, no toque do chocalho. Lembrou-se da moda tradicional que o pastor trauteara à lareira: "O chocalho da ovelha / Tem um som que me fascina, / Acorda a serra que dorme, / Faz cantar a alma minha."
Mais à frente, onde o caminho se estreitava junto ao desfiladeiro, o poeta parou diante da silhueta imponente da Cabeça do Velho. Olhou para aquele rosto antropomórfico esculpido pelos elementos e não viu apenas a meteorização física do granito. Viu o guardião da lenda, o velho sentinela petrificado pelos deuses para vigiar eternamente as fronteiras da serra contra os lobos e os homens gananciosos.
Ao fim do dia, quando as sombras se alongaram sobre os socalcos de Loriga, os dois viajantes atingiram os seus destinos. O geólogo, no silêncio do seu alojamento, organizava os dados, medindo fraturas e mapeando os vestígios da Idade do Gelo. O poeta, na taberna da aldeia, escrevia versos sobre homens que falavam com estrelas e pedras que guardavam saudades.
Mas algo, um magnetismo invisível, deteve o olhar de ambos no Mirante de Loriga. Saíram em simultâneo — o cientista, desprendendo-se do isolamento do seu alojamento; o poeta, abandonando o bulício caloroso da taberna —, arrastando os passos tardios em direção àquela varanda suspensa, que distava escassos metros dos seus refúgios. Ali, o tempo suspendeu-se. Ficaram atónitos, não apenas pelo reencontro inesperado, mas pelo prodígio que se desenhava diante dos olhos: uma coreografia misteriosa que parecia ganhar vida naquele alto, emoldurada pelas imponentes muralhas de granito da aldeia e pela poesia silenciosa dos socalcos talhados na serra.
Ali, onde a terra se fustiga contra o céu, o geólogo e o poeta contemplavam o poente. Para lá das agulhas de pedra, o sol iniciava a sua lenta agonia, vertendo sobre a cordilheira uma torrente de ouro velho e púrpura que parecia incendiar as arestas frias do mundo.
Para os olhos do geólogo, aquela luz rasante não era apenas beleza; era a revelação da própria anatomia da montanha. O sol, ao deitar-se no horizonte, projetava sombras longas e milimetricamente perfeitas nas fraturas do Granito Porfiroide, acentuando cada aresta que os glaciares haviam polido. As rochas aborregadas, que a escassos metros se estendiam como um rebanho adormecido, ganhavam uma tridimensionalidade dramática, revelando as estrias profundas deixadas pelo gelo há vinte milénios. Naquela penumbra geométrica, as moreias distantes desenhavam-se no relevo como linhas de um mapa inacabado. O cientista via a luz extinguir-se sobre um Horst colossal, uma fortaleza de pedra erguida pelo choque tectónico das eras, que agora arrefecia lentamente, devolvendo ao espaço o calor acumulado na sua matriz de quartzo e feldspato. Tudo nele era a constatação de uma física grandiosa e paciente.
Ao seu lado, o poeta respirava o crepúsculo como quem escuta um fado antigo, cantado baixinho pela própria serra. Para ele, o sol não se limitava a descer; desfazia-se num sacrifício de luz, fundindo-se com o topo das fragas exatamente como a estrela da lenda se fundira com o granito para nunca mais deixar o seu pastor. Naquela transição sangrenta entre o dia e a noite, o vento da tarde trazia o lamento invisível da transumância, o eco distante de mil chocalhos que silenciavam os vales. A Cabeça do Velho, recortada contra o céu cor de fogo, parecia fechar os olhos de pedra, cansada de vigiar os abismos. O poeta sentia que o manto da noite que se aproximava era a mesma capa de pardo que aconchegava os pastores na solidão dos invernos; um abraço escuro e frio, mas imensamente terno.
Quando o último raio de sol se fincou na linha do horizonte, restou apenas um vislumbre azul-escuro e a promessa das primeiras estrelas. O geólogo fechou o seu caderno de campo, guardando as coordenadas da geometria solar. O poeta guardou a sua caneta, retendo na alma o peso daquela despedida. Ali, no topo de Portugal, a ciência e a poesia calaram-se perante o mesmo mistério: a montanha, imensa e eterna, adormecia sob o olhar atento da primeira estrela da noite.
Ambos tinham decifrado a Serra da Estrela: um através da precisão da sua ciência, o outro através da verdade da sua emoção. E a montanha, eterna e imutável, continuava lá fora, unindo a rocha e o canto sob o mesmo céu estrelado.


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