Circus Mundial enche a pista de cor, música, humor e acrobacia em Bülach

Categoria: Cultura / Espectáculos / Sociedade

Autor: João Carlos Quelhas



Foi ao som de um saxofone que a Revista Repórter X começou a descobrir um circo diferente.

No Circus Mundial, em Bülach, a primeira figura a prender a atenção foi um palhaço, saxofone nas mãos e uma forma muito própria de comunicar com o público. Entrou acompanhado pela música da banda e depressa se percebeu que a sua presença não ficaria limitada à abertura do espectáculo.

O palhaço do saxofone regressaria muitas vezes ao longo da sessão e acabaria por desempenhar uma função importante na própria continuidade do espectáculo.

Sempre que terminava um número e era necessário transformar a pista para preparar a actuação seguinte, as luzes diminuíam ou apagavam-se e começava, discretamente, o trabalho necessário para a mudança. Era preciso retirar ou colocar bancos, redes, cordas, estruturas e outros equipamentos destinados aos diferentes artistas.

Mas o público praticamente não tinha tempo para ficar à espera. O palhaço já estava pronto.

Saxofone na mão, surgia novamente e, em conjugação com a banda, preenchia aqueles minutos de transição. Por vezes tocava, noutras fingia que tocava, fazia de conta que se enganava, interrompia-se propositadamente ou transformava uma aparente falha numa brincadeira. O público ria e, enquanto isso, a pista ia ficando preparada para o número seguinte.

Era música, mas também humor e uma forma inteligente de manter o espectáculo permanentemente vivo.

O palhaço não se limitava ao circuito normal dos números apresentados na pista. Procurava o contacto com os espectadores, aproximava-se do público e fazia da improvisação parte da sua actuação. Em determinados momentos tocava sozinho, noutros conjugava a sua intervenção com a banda, criando uma ligação entre o humor, a música e aquilo que acontecia no centro do circo.

A própria abertura já anunciava essa característica. O saxofone e os músicos entraram praticamente em paralelo e essa relação manteve-se durante o espectáculo.

A música ao vivo foi, aliás, uma das maiores surpresas encontradas pela Repórter X.

Ao contrário de muitos espectáculos em que a música funciona apenas como acompanhamento gravado, no Circus Mundial os músicos estiveram presentes do princípio ao fim. A música mudava de ritmo, intensidade e ambiente consoante aquilo que estava a acontecer na pista, acompanhando o perigo, o humor, a velocidade, a acrobacia e os momentos de maior tensão.

A Repórter X encontrou assim, pela primeira vez, um circo onde um grupo de músicos tocava praticamente durante todo o espectáculo, adaptando a música às diferentes modalidades e ajudando a construir a emoção de cada actuação.

Outra diferença imediatamente perceptível foi a ausência de animais.

A pista pertence aqui essencialmente às pessoas. O espectáculo assenta no trabalho humano, na acrobacia, no equilíbrio, na destreza, no risco, no humor, na música e na relação dos artistas com o público.

Ao longo da sessão sucederam-se modalidades muito diferentes. Houve trapézio voador, números de corda e acrobacia aérea, bicicleta, equilíbrio, arame, besta, magia e outras demonstrações de habilidade que, vistas das bancadas, ajudam a perceber a preparação e a precisão exigidas a quem trabalha numa pista de circo.

Alguns desses números obrigavam a alterações significativas no espaço. Para os trapezistas, por exemplo, era necessário preparar estruturas e uma grande rede de segurança. Noutros momentos entravam e saíam bancos, aparelhos, cordas e diferentes objectos.

E era precisamente durante essas transformações que a organização do espectáculo se tornava particularmente interessante.

As luzes baixavam, a atenção do público afastava-se naturalmente dos trabalhos que decorriam na pista e a música tomava conta da tenda. O palhaço do saxofone podia reaparecer, a banda continuava a tocar e aquilo que poderia transformar-se numa pausa técnica passava a fazer parte da representação.

Enquanto uns desmontavam, outros preparavam o número seguinte. Enquanto isso acontecia, o público continuava entretido.

Quando tudo estava pronto, as luzes regressavam à pista e começava outra modalidade.

O resultado era um espectáculo com poucas quebras perceptíveis. Música, humor e acrobacia iam-se sucedendo como partes de uma mesma representação.

Os muitos vídeos e fotografias realizados pela Repórter X permitem conservar precisamente essa diversidade: os artistas suspensos nas alturas, a preparação da rede de segurança, os números de equilíbrio, a bicicleta, a música ao vivo, o palhaço, a participação dos espectadores e os diferentes ambientes criados pela iluminação.

As imagens mostram apenas instantes. Os vídeos permitem guardar também aquilo que uma fotografia não consegue transmitir: o movimento, a música, as gargalhadas, a velocidade, a tensão e a reacção do público.

No final do espectáculo, depois de os artistas regressarem à pista e receberem o reconhecimento dos espectadores, foi anunciado que quem desejasse tirar uma fotografia com o palhaço poderia encontrá-lo no exterior.

A Repórter X aproveitou também a oportunidade e tirou uma fotografia com o palhaço do saxofone.

Era uma recordação particularmente adequada de uma personagem que não tinha aparecido apenas para cumprir um número. Desde a abertura, o palhaço regressou sucessivamente, tocando, brincando, fingindo enganar-se, fazendo rir e ajudando a ligar os diferentes momentos da representação.

Talvez seja precisamente essa uma das particularidades que a Repórter X encontrou no Circus Mundial: quando um número termina, o espectáculo não termina com ele.

Enquanto uns desmontam, outros montam. Enquanto a pista se transforma, os músicos continuam. Quando as luzes diminuem, o saxofone pode voltar a ouvir-se. E quando parece que o músico se enganou, talvez seja apenas o palhaço a preparar mais uma gargalhada.

Num tempo dominado por ecrãs e entretenimento digital, o circo continua a oferecer algo que não pode ser repetido através de um botão: artistas e público reunidos no mesmo espaço, perante números executados naquele momento e diante dos seus olhos.

Em Bülach, a Repórter X encontrou um circo sem animais, mas cheio de movimento, cor, música, humor, risco e trabalho humano.

Um Circus Mundial diferente, onde até os minutos necessários para mudar uma pista fazem parte do espectáculo.


Revista Repórter X / Repórter Editora

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