Cristiana pede ajuda, relata abuso, perda de mobilidade, falta de terapias e silêncio institucional:

Categoria: Sociedade / Saúde / Direitos Humanos

Autor: João Carlos Quelhas


A Revista Repórter X acompanha há vários meses a situação de Cristiana de Jesus, uma mulher jovem, com cerca de 30 anos, cuja condição de saúde, mobilidade, autonomia e acompanhamento institucional levanta questões sérias que continuam por esclarecer.

Cristiana poderá apresentar alguma fragilidade emocional e, por vezes, algum desequilíbrio na forma como interpreta ou relata determinadas situações, por isso, aquilo que diz não pode ser automaticamente apresentado como verdade comprovada, mas também não pode simplesmente ser descartado. Onde há fumo há fogo! Há relatos, mensagens escritas, telefonemas, publicações no Facebook, testemunhos de pessoas próximas e questões médicas suficientemente graves para justificarem esclarecimentos.

Uma das pessoas que melhor conhece o percurso de Cristiana é Rosa Lacalete, que foi sua tutora e a acompanhou directamente. Segundo nos foi transmitido, essa tutela ou responsabilidade terá sido retirada sem que Rosa tivesse assinado qualquer documento a abdicar dela, situação que nunca ficou devidamente esclarecida.

Quem decidiu retirar essa responsabilidade, quando, com que fundamento, se foi uma decisão judicial, administrativa ou institucional, se Rosa foi ouvida, formalmente notificada ou chamada a assinar algum documento, são perguntas que continuam sem resposta conclusiva. Segundo a Rosa, nunca assinou e nem consentiu perder a guarda da Cristiana!

Rosa continua, porém, a acompanhar a situação, vai visitar a Cristiana e está a par de praticamente tudo aquilo que Cristiana tem vindo a relatar. Muitas das conversas telefónicas com Cristiana decorreram na presença de Rosa e com o telefone da Rosa, que conhece as queixas relacionadas com o telemóvel, as mensagens, a alegada relação sexual, a perda de mobilidade, as terapias, a medicação, as injecções, as feridas nas mãos e as preocupações relacionadas com o estado físico e emocional da jovem.

Antes da situação actual, a Revista Repórter X já tinha acompanhado problemas relacionados com Cristiana quando esta ainda vivia com a mãe, tendo existido contactos com a GNR, a Segurança Social e outras entidades. Foi na sequência desses acontecimentos que Cristiana acabou por ser internada.

Entre os assuntos mais graves que Cristiana veio posteriormente relatar encontra-se uma situação de natureza sexual envolvendo um homem ligado ao local onde se encontrava.

Este é um dos pontos que exige maior prudência.

Cristiana chegou a escrever publicamente no Facebook que tinha sido violada. Contudo, em conversas posteriores, segundo aquilo que nos foi transmitido, explicou que a relação sexual teria sido consentida.

À primeira vista poderá parecer uma contradição, mas precisamente por isso o assunto não pode ser reduzido a uma palavra ou a uma publicação no Facebook.

A Revista Repórter X não afirma que existiu violação, apenas ouviu a versão da Cristiana.

Não afirma que existiu crime.

Não afirma que o homem referido por Cristiana seja culpado de qualquer ilícito.

Mas também não considera responsável ignorar aquilo que a jovem relatou.

Há uma diferença entre perguntar se existiu consentimento formal e perguntar em que circunstâncias esse consentimento foi dado.

Cristiana encontrava-se numa situação de vulnerabilidade e dependência de terceiros. Se a pessoa envolvida conhecia a sua condição, se tinha responsabilidades profissionais perante ela, se exercia autoridade, influência, controlo ou poder sobre a sua vida quotidiana, essas circunstâncias devem ser apuradas.

É precisamente aqui que surge a questão de um possível abuso de poder ou aproveitamento de uma situação de vulnerabilidade, não como facto provado, mas como hipótese que merece esclarecimento.

Uma pessoa vulnerável pode dizer que aceitou determinada relação e, ainda assim, ser necessário perceber se estava verdadeiramente numa posição de igualdade perante a outra pessoa.

Que função desempenhava esse homem?

Que relação tinha com Cristiana?

Estava profissionalmente responsável por ela?

Tinha acesso privilegiado à jovem devido às funções que exercia?

Conhecia as suas limitações e a sua situação emocional?

Existiu alguma relação de dependência?

A instituição teve conhecimento?

Foi aberta alguma averiguação?

O homem foi ouvido?

Cristiana foi ouvida formalmente?

A situação foi comunicada a alguma autoridade competente?

Foram tomadas medidas para proteger simultaneamente Cristiana e os direitos da pessoa acusada?

São estas as perguntas que devem ser respondidas.

A Revista Repórter X não pretende destruir a reputação de ninguém com base numa declaração não confirmada. Pelo contrário, também a pessoa visada tem direito a que os factos sejam devidamente apurados e, se a acusação não corresponder à realidade, a que isso fique esclarecido.

Foi precisamente essa a posição assumida desde o princípio: nem condenar antecipadamente o homem referido por Cristiana, nem silenciar uma acusação grave feita por uma mulher vulnerável.

Rosa Lacalete conhece esta situação, e a Revista Repórter X já falou com Rosa e Cristiana sobre o assunto.

Existem igualmente mensagens privadas e textos escritos por Cristiana, além de conteúdos que a própria publicou no Facebook.

A Revista Repórter X aconselhou Cristiana a não continuar a fazer acusações públicas através das redes sociais, explicando-lhe que matérias desta natureza devem ser investigadas e não transformadas numa sucessão de confrontos públicos.

Foi-nos ainda transmitido que Cristiana terá sido levada a apagar determinadas mensagens. Algumas, porém, já tinham sido preservadas.

Isto levanta outra pergunta: por que razão lhe terão pedido ou ordenado que apagasse mensagens?

Se aconteceu, quem o fez?

Que mensagens eram?

Por que motivo deveriam desaparecer?

Novamente, não afirmamos aquilo que não conseguimos provar, perguntamos.

Outra questão que começou a repetir-se foi o telemóvel. Cristiana afirma que o aparelho lhe é retirado ou que a sua utilização é limitada, e diz que nem sempre consegue falar livremente.

Para Cristiana, o telemóvel não é apenas entretenimento, é contacto com o exterior, companhia, escrita, música, criação de canções, publicação de conteúdos e comunicação com outras pessoas. Para alguém que passa longos períodos numa cama ou numa cadeira, pode ser uma das poucas janelas abertas para o mundo.

Por que razão lhe é retirado, quem determina essa retirada, durante quanto tempo, se existe determinação médica ou legal e se há alguma medida de protecção que justifique essas limitações, são perguntas que continuam a precisar de resposta.

No dia 15 de Agosto de 2026, às 17h36, a Revista Repórter X / Repórter Editora enviou à Casa de Saúde do Bom Jesus uma comunicação intitulada «Pedido de esclarecimento e um pedido: caso Cristiana».

Nesse primeiro e-mail foram colocadas diversas questões, entre elas a situação de Rosa Lacalete, a retirada da tutela ou responsabilidade que anteriormente exercia, o telemóvel, as mensagens, a alegação de natureza sexual relativamente a um funcionário, a liberdade de comunicação da jovem, a sua condição física e a reabilitação.

Foi dito expressamente que não afirmávamos que os factos relacionados com o homem referido por Cristiana tivessem acontecido exactamente como ela os relatava e que não acusávamos antecipadamente ninguém.

Mas dissemos também que uma alegação daquela gravidade não podia simplesmente ser ignorada.

Nesse mesmo primeiro contacto foi ainda transmitida uma preocupação de extrema gravidade: Cristiana tinha afirmado que se iria suicidar.

Perante uma declaração dessa natureza, a Revista Repórter X não podia permanecer calada, por isso, a instituição foi avisada para que os profissionais responsáveis avaliassem a situação e tomassem as medidas de protecção consideradas necessárias.

No mesmo e-mail foi colocada uma questão que continua central, a reabilitação física.

Cristiana caminhava.

Hoje não caminha.

Foi-nos transmitido que um médico terá afirmado acreditar que poderia obter progressos significativos na mobilidade de Cristiana, inclusivamente através de acompanhamento no Hospital de São João.

Não possuímos ainda documentação clínica que confirme exactamente essa afirmação, mas ela merece esclarecimento.

Quem era esse médico, que avaliação fez, que tratamento propôs, se considerava possível voltar a colocar Cristiana de pé ou fazê-la recuperar alguma capacidade de marcha, por que razão esse caminho não avançou, são questões fundamentais.

A resposta da Casa de Saúde do Bom Jesus, assinada por Paula Gomes, foi a seguinte:

«Acusamos a receção do vosso e-mail e informamos que a situação se encontra a ser analisada internamente.»

Foi tudo.

Não recebemos resposta concreta sobre a alegação de natureza sexual, não recebemos esclarecimentos sobre a tutela de Rosa, sobre o telemóvel, sobre as mensagens, sobre a reabilitação ou sobre as restantes questões colocadas.

Depois disso, silêncio.

Entretanto, Cristiana continuou a contactar a Revista Repórter X.

No dia 27 de Agosto de 2026, escreveu:

«Estou fechada numa sala com o telemóvel.»

No dia 28 de Agosto, pediu:

«Liga-me.»

E acrescentou:

«Queriam que eu assinasse um papel, pedi uma cópia, não me deram e não assinei.»

A Revista Repórter X respondeu-lhe para não assinar documentos cujo conteúdo não compreendesse ou dos quais não tivesse conhecimento suficiente. No dia seguinte, Cristiana confirmou:

«Não assinei.»

Que documento era, quem pretendia que ela o assinasse, qual era o seu conteúdo e por que razão, segundo Cristiana, não lhe foi entregue uma cópia?

No dia 29 de Agosto, Cristiana escreveu:

«Sou obrigada a comer.»

E:

«Sou obrigada a ir a festas a que não quero ir.»

A Revista Repórter X respondeu-lhe que tinha de se alimentar e que participar numa festa poderia até ser positivo para evitar a solidão.

Este pormenor é importante porque demonstra que não aceitamos automaticamente como errada qualquer decisão tomada relativamente a Cristiana, nem alimentamos todas as suas queixas.

No dia 31 de Agosto, Cristiana escreveu:

«Estou numa sala fechada com o telemóvel, ouvem as minhas conversas.»

No dia 1 de Setembro, afirmou que não queria mais visitas de Rosa nem da família, dizendo que a tinham abandonado. A Revista Repórter X respondeu-lhe que Rosa não a tinha abandonado e que a distância e os custos dificultavam as visitas.

Cristiana respondeu:

«Ela escolheu.»

Nesse mesmo período foi-lhe recordado que a instituição ainda não tinha respondido concretamente às questões colocadas. Cristiana chegou a perguntar:

«Que e-mail?»

Foi-lhe explicado que se tratava do e-mail enviado acerca das suas queixas e das preocupações conhecidas por Rosa.

No dia 5 de Setembro, voltou ao telemóvel:

«Trata disto do telemóvel para eu poder falar à vontade, parece que me estão a culpar, se quiseres, liga para aqui e eu explico-te.»

Estas mensagens não provam, por si só, que exista qualquer ilegalidade, mas mostram que as questões relacionadas com liberdade de comunicação, telemóvel e privacidade foram repetidamente levantadas pela própria Cristiana.

Entretanto, começaram a chegar novas preocupações relacionadas com a saúde.

Cristiana afirmou que lhe estão a administrar injecções e que se sente pior depois delas, disse que quase já não sente as pernas, que perdeu muita força, que tem as mãos inflamadas, com feridas e fissuras, e que não recebe as terapias de que necessita. A Dona Rosa ao telefone confirmou!

São declarações sérias, mas continuam a ser declarações da própria Cristiana e neste caso da Rosa, sendo que as fissuras nas mãos eram visíveis.

A Revista Repórter X não tem acesso ao processo clínico, não sabe quais são as injecções administradas, que medicamentos recebe, quais as dosagens ou se existe alguma relação entre esses tratamentos e os sintomas descritos.

Por isso perguntamos, as queixas foram comunicadas aos médicos, foram avaliadas, as injecções foram revistas, a medicação foi reavaliada, foram efectuados exames, foi estudada a diminuição de força e sensibilidade das pernas? Quando qualquer medicação tem efeitos secundários, o médico tem a obrigação de reparar para não prejudicar o paciente e levá-lo a piorar a situação clínica.

As mãos merecem igualmente atenção.

Cristiana refere feridas, fissuras e inflamação.

Não podemos afirmar que essas lesões resultem directamente de falta de terapia, porque seria necessária avaliação médica para estabelecer a causa, mas é legítimo perguntar se foram examinadas, diagnosticadas e tratadas, e se existe alguma relação com imobilidade, medicação, condição dermatológica, circulação ou outra situação clínica.

A questão da mobilidade é talvez o centro médico de todo este caso.

Cristiana andava e deixou de andar.

Uma pessoa que permanece longos períodos acamada ou sentada pode perder massa muscular, força, mobilidade articular e capacidade funcional, e essa deterioração pode tornar-se progressivamente mais difícil de recuperar.

Por isso, a pergunta não é apenas se Cristiana voltará algum dia a caminhar.

A pergunta é também se está a ser feito tudo aquilo que clinicamente pode ser feito para preservar o que ainda possui.

Há fisioterapia?

Há mobilização regular das pernas?

Há trabalho muscular?

Há exercícios destinados a impedir maior perda de massa muscular?

Há acompanhamento fisiátrico?

Há avaliação neurológica?

Há avaliação ortopédica?

Foi avaliada por Medicina Física e de Reabilitação?

Foi estudada a diminuição da sensibilidade?

Foi analisada a capacidade de permanecer de pé com apoio?

Foi avaliada a possibilidade de recuperar movimentos?

Se não existe possibilidade clínica de voltar a andar, existe uma avaliação especializada que explique porquê?

E, se existe alguma possibilidade de recuperar força, mobilidade, sensibilidade ou autonomia, o que está a ser feito para a aproveitar?

Quer a Cristiana, quer a Rosa afirmaram que não lhe fazem terapias musculares, falaram foi na ortopedia.

No dia 18 de Setembro de 2026, depois de mais de um mês sem resposta concreta, a Revista Repórter X voltou a escrever à Casa de Saúde do Bom Jesus.

O segundo e-mail tinha como título «Caso Cristiana, pedido urgente de esclarecimentos e resposta no prazo de 24 horas.»

Nesse contacto recordámos a resposta de Paula Gomes e o facto de a instituição ter comunicado que o assunto estava a ser analisado internamente, mas sem nos apresentar posteriormente qualquer resultado concreto dessa análise.

Foram então acrescentadas as novas preocupações que entretanto tinham surgido, o telemóvel, as injecções, o agravamento que Cristiana dizia sentir, as feridas e fissuras nas mãos, a perda de força e sensibilidade nas pernas, a ausência alegada de terapias adequadas e a necessidade de avaliar seriamente a sua reabilitação.

Foi também reafirmada a necessidade de uma avaliação por Medicina Física e de Reabilitação, Fisiatria, Ortopedia e outras especialidades consideradas necessárias, defendendo-se igualmente uma avaliação externa especializada, e não apenas acompanhamento dentro da própria instituição.

Foi pedido que se estudasse a preservação ou recuperação da massa muscular, da força, da sensibilidade, da mobilidade articular e da capacidade funcional.

Voltámos também à alegação de natureza sexual.

Perguntámos se tinha sido investigada, se tinha sido comunicada às entidades que legalmente devessem apreciá-la e se tinham sido adoptadas medidas que protegessem simultaneamente Cristiana e os direitos da pessoa visada.

Voltámos ainda a recordar a declaração de suicídio anteriormente comunicada.

Até agora, continuamos sem uma resposta concreta.

Há ainda a questão financeira.

Cristiana afirma que cerca de metade da pequena pensão que recebe é utilizada ou retida para despesas relacionadas com a instituição.

Também aqui queremos esclarecimentos.

Quanto recebe Cristiana, quanto é retirado, para que finalidade, quem determina esse valor, qual é o fundamento legal e quanto fica efectivamente à sua disposição?

Não afirmamos que essa cobrança seja ilegal.

Queremos saber como funciona.

O mesmo princípio se aplica a todo o caso.

A Revista Repórter X não pretende condenar antecipadamente a Casa de Saúde do Bom Jesus, médicos, funcionários ou qualquer outra pessoa.

Também não pretende apresentar como verdade tudo aquilo que Cristiana diz.

Mas não pode ignorar uma mulher jovem que pede ajuda repetidamente, nem ignorar Rosa Lacalete, que foi tutora, acompanhou Cristiana e está a par de grande parte dos acontecimentos relatados.

Não podemos ignorar uma alegação sexual grave apenas porque a própria Cristiana apresentou versões que necessitam de esclarecimento.

Não podemos ignorar a possibilidade de ter existido uma relação de poder ou aproveitamento de vulnerabilidade.

Não podemos afirmar que existiu abuso, mas temos o dever de perguntar se existiu.

Não podemos ignorar que Cristiana caminhava e deixou de caminhar.

Não podemos ignorar a perda de força, a diminuição de sensibilidade, as feridas nas mãos, a alegada falta de terapias, as injecções, a medicação, o telemóvel, as mensagens apagadas, o documento que diz terem querido que assinasse, a declaração de suicídio, a tutela retirada a Rosa e as dúvidas relacionadas com a sua pensão.

Não são acusações.

São questões que necessitam de resposta. Foi a falta de resposta que nos levou a fazer deste caso público!

A verdade poderá confirmar algumas das declarações de Cristiana, poderá desmentir outras, poderá mostrar que determinados acontecimentos foram mal interpretados, poderá afastar suspeitas ou poderá revelar falhas que necessitam de ser corrigidas.

É exactamente por isso que a verdade deve ser apurada. A Cristiana precisa de ajuda, não tem uma família com capacidade para a ajudar segundo nos foi dito. Haja dignidade e justiça.

A Revista Repórter X continua à espera das respostas da Casa de Saúde do Bom Jesus e continuará a procurar esclarecimentos junto das entidades competentes.

Porque proteger uma pessoa vulnerável não significa acreditar cegamente em tudo aquilo que ela diz.

Significa ouvi-la, verificar, investigar e não permitir que perguntas sérias desapareçam no silêncio.


Revista Repórter X / Repórter Editora

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