Enquanto as cidades crescem, povos desaparecem:
Autor: João Carlos Quelhas
Quando éramos crianças, passávamos muito do nosso tempo no campo e no monte. Corríamos pelos caminhos de terra, mas também jogávamos à bola onde o caminho alargava. Chamávamos-lhe simplesmente o largo. Muitas vezes, o nosso largo não era uma praça, nem tinha bancos ou jardins, era uma encruzilhada, um espaço mais largo onde vários caminhos se encontravam e onde nós também nos encontrávamos. Jogávamos à bola, ao botão, à macaca, ao pião e a tantas outras brincadeiras que não precisavam de grandes equipamentos nem de espaços preparados. Bastavam-nos os amigos, a imaginação e um pedaço de chão.
No campo e no monte encontrávamos o silêncio, mas na povoação havia barulho, e ainda bem. Havia crianças a brincar, a correr e a gritar, havia gente nas ruas, ouvíamos os passarinhos e havia movimento nas casas e nos campos. Era uma vida simples, mas era uma vida com gente.
Depois crescemos, tornámo-nos adultos e aqueles amigos de infância foram ficando para trás, não porque tivéssemos decidido esquecê-los, mas porque a vida nos espalhou pelo mundo. Uns emigraram para França, Suíça, Alemanha, Luxemburgo ou outros países, outros deixaram a aldeia e foram viver para uma vila ou para uma cidade maior e muitos nunca mais regressaram definitivamente ao lugar onde nasceram.
Foi assim que, enquanto as cidades cresceram, muitas aldeias começaram a desaparecer. Não desapareceram do mapa de um dia para o outro, foram desaparecendo devagar. Primeiro partiram os jovens, depois ficaram os pais e, mais tarde, ficaram sobretudo os avós. As aldeias foram envelhecendo porque aqueles que poderiam dar-lhes continuidade tiveram de procurar noutros lugares aquilo que não encontravam na sua terra.
A emigração que marcou Portugal durante décadas retirou muita gente às nossas aldeias. A procura de trabalho e de melhores condições de vida levou famílias para o estrangeiro e para os grandes centros urbanos. Contudo, hoje começa também a acontecer o caminho inverso. Muitos daqueles que partiram há trinta, quarenta ou mais anos estão a chegar à idade da reforma e regressam à terra, alguns aos 60 ou 65 anos, e nem sempre regressam sozinhos. Os filhos, já adultos, acompanham-nos ou acabam também por escolher Portugal, e esses filhos têm, por sua vez, crianças.
É assim que uma aldeia que parecia condenada a envelhecer pode voltar a ouvir a voz de uma criança. Há hoje pessoas que vivem nas cidades e escolhem deliberadamente uma aldeia para morar. Conhecemos vários casos. É verdade que muitos são reformados, mas não são apenas eles. Quando regressam os avós, podem regressar também filhos de 30 ou 40 anos e netos ainda pequenos. Pode estar aqui o princípio de uma nova repovoação do Portugal rural.
Mas há problemas que continuam por resolver. Quando percorremos algumas estradas do interior, encontramos bermas cobertas de mato, silvas e vegetação. Antigamente existia a figura do cantoneiro, que cuidava de determinados troços, limpava as bermas e ajudava a manter os caminhos e as estradas cuidados. Hoje, em muitos lugares, aquilo que anteriormente era limpo está abandonado, o mato cresce, as silvas avançam e a vegetação aproxima-se das estradas e das habitações. Depois chega o Verão, chegam os incêndios e voltamos a perguntar como foi possível o fogo avançar daquela maneira.
Também os campos mudaram. Há terrenos a monte e por cultivar porque já não existe juventude suficiente para trabalhar a terra. Os poucos que continuam na agricultura dispõem, muitas vezes, de maquinaria moderna, mas essa maquinaria funciona sobretudo em terrenos grandes, planos e acessíveis. O Portugal rural não foi construído dessa maneira. Nas nossas aldeias existem milhares de pequenas leiras, campos divididos por muros, terrenos estreitos e parcelas onde uma grande máquina dificilmente consegue entrar. Aquilo que durante gerações foi cultivado à mão, com animais ou com pequenas alfaias agrícolas deixou, em muitos casos, de ser viável, e a terra fica ao abandono.
O mesmo acontece com as casas. Quando vemos uma casa antiga em ruínas, é fácil dizer simplesmente que foi abandonada, mas por detrás de muitas dessas ruínas existe uma história familiar. Morrem os pais ou os avós e chega o momento das partilhas. Há vários filhos, netos, primos ou outros herdeiros e nem sempre existe entendimento. Ninguém quer vender, ninguém quer comprar a parte dos restantes ou ninguém quer investir numa casa que não lhe pertence inteiramente. Passam cinco, dez ou vinte anos, o telhado começa a cair, entra água, as paredes degradam-se e aquela que foi a casa de uma família transforma-se numa ruína.
Quando existe bom senso nas partilhas, muitas vezes acontece precisamente o contrário. Um dos irmãos, um primo ou outro familiar fica com a casa, chega a um entendimento com os restantes e recupera-a. A casa continua de pé, volta a ter gente, volta a ter portas e janelas abertas e permanece na família. Por isso, nem todas as ruínas das nossas aldeias podem ser atribuídas apenas à desertificação, algumas são também consequência da incapacidade das próprias famílias para encontrarem uma solução para aquilo que herdaram.
Entretanto, fecharam escolas, fecharam mercearias e desapareceram outros pequenos comércios. Houve um tempo em que tínhamos a mercearia praticamente à porta. Não era necessário percorrer quilómetros para comprar pão, arroz, açúcar ou aquilo que faltava em casa. A pequena mercearia fazia parte da povoação e quem estava atrás do balcão conhecia os clientes pelo nome. Quando desaparecem as pessoas, desaparece também o comércio que vivia dessas pessoas.
Também os transportes públicos pioraram em muitos lugares. Antigamente tínhamos a carreira, era assim que lhe chamávamos. O autocarro passava a determinada hora, por vezes apenas uma vez por dia, outras vezes havia uma carreira de manhã e outra à tarde. Era pouco, mas existia. Em muitos locais até isso acabou. E como podemos pedir a uma família que vá viver para uma aldeia se não lhe damos transportes, escola, comércio e serviços essenciais?
Há ainda outro problema que não podemos esconder, o próprio poder político e as regras de ordenamento do território podem contribuir para afastar pessoas das aldeias. Há emigrantes que trabalharam uma vida inteira no estrangeiro e gostariam de regressar à sua terra. Querem comprar um terreno e construir uma casa, alguns pretendem regressar definitivamente, outros querem simplesmente ter uma habitação para passar férias e preparar um regresso futuro. Encontram terrenos mais baratos do que nas cidades e pensam que finalmente poderão construir a casa que imaginaram durante anos, mas depois começam os obstáculos.
É zona verde, não pode construir, é uma zona condicionada, não pode construir, existe uma linha de água, o terreno tem esta ou aquela classificação, surgem regulamentos, pareceres, licenças, taxas e mais despesas. Naturalmente que têm de existir regras e ninguém defende que se construa em qualquer lugar, destruindo a natureza, ocupando zonas perigosas ou transformando o território numa construção desordenada. Mas uma coisa é proteger o território, outra é criar uma burocracia tão pesada que acaba por afastar precisamente aqueles que querem devolver população às aldeias.
É uma contradição falar de combate à desertificação do interior e, ao mesmo tempo, colocar obstáculos quase intransponíveis a quem quer construir legalmente a sua habitação numa aldeia. As câmaras municipais e o poder político têm aqui uma responsabilidade que não pode ser escondida. Durante demasiados anos falou-se do interior, fizeram-se promessas, programas e discursos, enquanto a população continuava a sair.
Cobram-se impostos sobre terrenos, casas e propriedades, mas quando o cidadão pretende dar utilidade ao terreno que possui ou adquiriu encontra leis, regulamentos, condicionantes, licenças e custos que muitas vezes o fazem desistir. As terras nas aldeias podem ser consideravelmente mais baratas do que nas cidades, precisamente por isso poderiam representar uma oportunidade para novas famílias e para emigrantes que pretendem regressar. Porém, se depois não lhes for permitido construir, ou se o processo se tornar excessivamente caro e complicado, as pessoas procuram outro lugar. Perde a pessoa, perde a aldeia, perde o comércio local, perde o concelho e perde Portugal.
Reabitar o país não pode ser apenas um slogan bonito. É preciso perceber que uma aldeia não se repovoa apenas recuperando casas antigas. É necessário permitir, onde existam condições e sem destruir o território, que também se construam casas novas. É necessário resolver as heranças que condenam edifícios ao abandono, criar melhores transportes públicos, apoiar o pequeno comércio, facilitar a recuperação das casas antigas, cuidar das estradas e dos caminhos, limpar os espaços públicos e encontrar soluções para as pequenas propriedades agrícolas.
Acima de tudo, é necessário criar razões para ficar.
Portugal tem hoje uma oportunidade que talvez não tivesse há algumas décadas. A geração que emigrou está a regressar, alguns dos seus filhos olham novamente para Portugal e alguns netos, nascidos no estrangeiro, começam a descobrir a terra dos avós. Ao mesmo tempo, viver nas grandes cidades tornou-se cada vez mais caro e há famílias que começam a perceber que talvez exista outra forma de viver.
As aldeias não precisam de ficar congeladas no passado para preservarem aquilo que têm de melhor. Podem receber novas famílias, novas casas, novas profissões e novas tecnologias sem perderem a sua identidade. Podemos voltar a cultivar alguns campos, recuperar casas, abrir pequenos negócios e voltar a ter crianças nos antigos largos onde nós próprios brincámos.
Talvez nunca voltemos a encontrar exactamente a aldeia da nossa infância. Os amigos partiram, os tempos mudaram, o pião e o botão deram lugar a outras brincadeiras, algumas mercearias nunca voltarão a abrir e o velho cantoneiro pertence a uma forma de organizar e cuidar do território que praticamente desapareceu. Mas uma aldeia não precisa de voltar ao passado para ter futuro, precisa de gente, gente para viver, trabalhar, cuidar e construir, e crianças para continuar aquilo que os mais velhos começaram.
Enquanto as cidades crescem, não podemos aceitar como inevitável que os povos desapareçam. Talvez esteja na altura de inverter o caminho. Os nossos avós ficaram, os nossos pais partiram, nós espalhámo-nos pelo mundo e talvez os nossos filhos e os nossos netos possam fazer parte do regresso.
Vamos reabitar Portugal?
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