Categoria: Eurovisão, Música e Televisão
Autor: João Carlos Quelhas
A Eurovisão faz parte das minhas memórias desde criança. Não porque o festival tenha começado quando comecei a vê-lo, nasceu muito antes, em 1956, mas porque houve um tempo em que a própria televisão ainda era uma novidade dentro das casas portuguesas.
Nasci em 1966 e as minhas primeiras recordações do Festival da Eurovisão levam-me aos primeiros anos da década de 1970, sobretudo a 1974. Foi por essa altura que a electricidade chegou à nossa freguesia e a nossa família esteve entre as pioneiras a ter televisão. Era um aparelho a preto e branco, mas aquela pequena caixa abria uma janela enorme para o mundo.
Foi através dela que comecei a acompanhar o Festival da Canção e a Eurovisão. Vi passar gerações de cantores, canções que ficaram e outras que o tempo levou, classificações boas, derrotas difíceis de compreender e, finalmente, a vitória portuguesa que demorou mais de meio século a chegar.
Portugal estreou-se na Eurovisão em 1964, com António Calvário e «Oração». Seguiram-se Simone de Oliveira, Madalena Iglésias, Eduardo Nascimento, Carlos Mendes e tantos outros nomes que fazem parte da história da música portuguesa.
Em 1974, precisamente um dos anos que guardo nas minhas primeiras memórias televisivas, Paulo de Carvalho representou Portugal com «E Depois do Adeus». Ficou em 14.º lugar, mas aquela canção acabaria por ocupar um lugar muito maior na História de Portugal, ao ser utilizada como uma das senhas que antecederam o 25 de Abril.
Vieram depois muitos outros. Fernando Tordo levou «Tourada», Carlos do Carmo cantou «Uma Flor de Verde Pinho», José Cid alcançou em 1980 um extraordinário 7.º lugar com «Um Grande, Grande Amor», e passaram pela Eurovisão nomes e grupos como Manuela Bravo, Carlos Paião, Doce, Armando Gama, Maria Guinot, Adelaide Ferreira, Dora, Da Vinci, Dulce Pontes, Anabela, Sara Tavares, Lúcia Moniz e muitos outros.
Lúcia Moniz conseguiu em 1996, com «O Meu Coração Não Tem Cor», o 6.º lugar, então a melhor classificação portuguesa de sempre.
Foi preciso esperar até 2017 para Portugal finalmente vencer. Salvador Sobral, com «Amar pelos Dois», conquistou a primeira vitória portuguesa e trouxe, no ano seguinte, a Eurovisão para Lisboa.
Mais recentemente, MARO alcançou o 9.º lugar em 2022 com «Saudade, Saudade», e Iolanda chegou ao 10.º lugar em 2024 com «Grito».
Agora a Eurovisão prepara novas regras para 2027.
Uma delas parece-me perfeitamente compreensível. A idade mínima dos intérpretes passa dos 16 para os 18 anos. Se estamos perante uma competição internacional desta dimensão, com enorme pressão mediática, exposição pública e responsabilidade, compreendo que se estabeleça a maioridade como limite. Para os mais novos existe, aliás, a Eurovisão Júnior. A Eurovisão principal pode perfeitamente ser reservada aos adultos.
Mais discutível é a questão dos países envolvidos em conflitos armados.
Um país em guerra pode continuar a participar e pode vencer a Eurovisão. Porém, ao abrigo das novas regras, poderá não receber a edição seguinte se a organização considerar que não estão reunidas as condições necessárias de segurança e estabilidade.
Aqui tenho reservas.
Se um país reúne condições para participar, enviar uma delegação, competir em igualdade com os restantes e ser declarado vencedor, então deve, em princípio, ter igualmente o direito de organizar o festival no seu território.
Naturalmente, a segurança está acima de tudo. Ninguém pode levar milhares de artistas, técnicos, jornalistas e espectadores para um lugar onde não existam condições mínimas. Mas estar em guerra não significa necessariamente que todo o território de um país esteja sem segurança.
As guerras também conhecem cessar-fogos, tréguas e períodos de negociação. A História mostra-nos que os conflitos começam, prolongam-se, interrompem-se e acabam, porque não há guerra que dispense, mais cedo ou mais tarde, uma solução. Entre o momento em que um país vence a Eurovisão e a realização do festival no ano seguinte decorrem muitos meses. Nesse espaço de tempo pode existir um cessar-fogo, pode ser alcançado um acordo ou podem surgir condições de segurança que antes não existiam. Por isso, não me parece correcto condenar antecipadamente um país vencedor apenas porque, no momento da vitória, se encontra envolvido numa guerra. A situação deve ser avaliada no momento adequado e segundo as condições reais existentes.
Se esse Estado conseguir apresentar uma cidade segura, instalações adequadas e um dispositivo de segurança capaz de proteger participantes e público, incluindo, quando necessário, as suas próprias forças de segurança e Forças Armadas, entendo que deveria conservar o direito de receber o festival.
Caso contrário, podemos chegar a uma situação estranha: o país serve para competir, serve para receber votos, serve para vencer, mas deixa de servir quando chega a altura de receber aquilo que conquistou.
As regras têm de ser iguais e, sobretudo, claras.
A Eurovisão mudou muito desde aquela televisão a preto e branco que entrou na nossa casa quando eu era criança. Mudaram os palcos, mudaram as luzes, mudou a votação, mudou a tecnologia e mudou a própria Europa.
Mas há coisas que deveriam permanecer.
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