Experiência com IA para criar vídeo acaba em cobrança e plafond consumido por sucessivos erros:

Categoria: Tecnologia / Sociedade

Autor: João Carlos Quelhas


Uma primeira experiência com inteligência artificial para a criação de um vídeo musical acabou numa reclamação, depois de aquilo que inicialmente era apresentado como gratuito ter resultado numa cobrança e, posteriormente, no esgotamento do plafond através de sucessivas tentativas que não correspondiam ao solicitado.

Tudo começou através da IA, ChatGPT. O objectivo era experimentar a criação de um vídeo musical recorrendo às possibilidades actualmente oferecidas pela inteligência artificial.

Neste caso, a inteligência artificial não foi chamada a escrever a letra nem a criar ou interpretar a música. O pedido feito à IA foi apenas a criação do vídeo, ou seja, da componente visual que acompanharia uma música que já estava pronta.

A letra era da autoria de João Carlos Quelhas, na voz de Rui Alves e musicada por Rui Alves.

Para a realização do vídeo foram fornecidos os elementos necessários: a letra da música, uma imagem de João Carlos Quelhas, uma imagem da mulher e uma imagem do cantor Rui Alves.

A partir desse material, o pedido era que a inteligência artificial criasse a componente visual e construísse o respectivo vídeo musical.

Era a primeira vez que João Carlos Quelhas tentava utilizar este tipo de serviço.

Inicialmente, a experiência foi apresentada como gratuita. Contudo, para avançar com o trabalho acabou por ser necessário efectuar um pagamento de cerca de 15 francos.

O pagamento foi feito.

Seria então de esperar que o plafond adquirido permitisse realizar, pelo menos, o vídeo que tinha levado àquela primeira experiência. Mas foi precisamente aí que surgiu o problema maior.

A inteligência artificial começou a gerar vídeos que não correspondiam ao que tinha sido solicitado.

Foram realizadas várias tentativas, três, quatro ou cinco, não sendo possível neste momento precisar o número exacto. Em diferentes versões surgiram imagens repetidas, elementos que não tinham sido pedidos e composições que não correspondiam às instruções fornecidas.

Houve, portanto, necessidade de repetir o trabalho porque os resultados apresentados pela própria IA não correspondiam ao pedido.

E cada tentativa errada consumia créditos.

O resultado foi simples: o plafond acabou antes de o vídeo correcto estar concluído.

Ou seja, aquilo que começou por ser apresentado como uma experiência gratuita passou para um pagamento e, mesmo depois desse pagamento, o dinheiro disponibilizado não chegou para concluir o vídeo, porque uma parte dos créditos foi consumida em resultados errados produzidos pela própria inteligência artificial.

Esta situação levanta uma questão difícil de ignorar: por que razão deve o cliente pagar pelos erros da própria IA?

Se alguém fornece a letra, a música e as imagens necessárias e pede apenas a construção da componente visual de um vídeo, mas a inteligência artificial apresenta imagens repetidas, acrescenta elementos que não foram solicitados ou produz um resultado diferente daquele que lhe foi pedido, o plafond continua a ser consumido.

Depois, para continuar a trabalhar, é necessário adquirir mais créditos.

É precisamente este funcionamento que João Carlos Quelhas contesta.

Não é aceitável, na sua perspectiva, que um cliente pague para obter determinado resultado e veja o dinheiro desaparecer em sucessivas tentativas erradas, ficando depois perante a necessidade de voltar a pagar para terminar o mesmo trabalho.

Foi neste contexto que surgiram posteriormente contactos com referências à Runway e à Google.

João Carlos Quelhas afirma que não conhecia previamente esses nomes no âmbito do serviço que estava a experimentar, não procurou directamente a Runway e não iniciou esta experiência por conhecer ou pretender contratar especificamente essa empresa.

O seu contacto inicial foi com a inteligência artificial e com a possibilidade que lhe foi apresentada de criar o vídeo.

Na resposta recebida à reclamação, Ethan, identificado como membro do apoio da Runway, informou que a assinatura teria sido adquirida através da Google e que a Google possui o seu próprio sistema de pagamentos. Por essa razão, indicou que o cancelamento deveria ser tratado através da Google.

Mas essa resposta não esclarece o essencial da reclamação apresentada.

O problema não é apenas saber onde se cancela uma assinatura.

Há outras perguntas que permanecem: se a experiência era gratuita, por que razão foi necessário pagar? Depois de pago o valor solicitado, por que razão o plafond terminou sem que o vídeo estivesse correctamente concluído? E por que razão as sucessivas gerações erradas da inteligência artificial foram descontadas dos créditos disponíveis?

João Carlos Quelhas nem sequer está, neste momento, a exigir simplesmente a devolução dos cerca de 15 francos.

Pretende que o valor que já pagou lhe permita fazer aquilo que queria fazer desde o princípio: um vídeo musical completo de teste.

Depois desse vídeo concluído, poderá decidir conscientemente se o serviço lhe interessa e de que forma pretende continuar a utilizá-lo.

O objectivo é também obter uma explicação clara sobre o modelo de pagamento.

Para quem pretende produzir regularmente vídeos musicais, é necessário saber se existe uma assinatura mensal através da qual seja possível fornecer músicas, letras e imagens e produzir os respectivos vídeos dentro de determinado plafond, ou se cada novo vídeo implica pagamentos sucessivos conforme os créditos utilizados.

Neste caso concreto, a matéria-prima artística já existia. A letra era de João Carlos Quelhas, a voz e a música de Rui Alves e as imagens foram fornecidas para o trabalho.

À inteligência artificial foi pedido o vídeo.

Não se contesta que um serviço tenha um preço.

Contesta-se que algo apresentado inicialmente como gratuito acabe por ser cobrado e que, depois do pagamento, os créditos possam ser consumidos em sucessivos erros sem que o trabalho fique concluído.

A inteligência artificial abriu uma nova porta para a criação de imagem e vídeo. Mas, se o futuro passa por estas ferramentas, também terá de passar pela transparência.

O consumidor precisa de saber quanto paga, aquilo que recebe e, sobretudo, quem paga quando é a própria inteligência artificial que erra.

Neste caso, essa resposta continua por chegar.


Revista Repórter X / Repórter Editora

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