Havia duas amigas que cresceram juntas e engravidaram do mesmo homem, e seus filhos casaram, não sabendo que eram irmãos.
Foram meninas na mesma rua, estudaram juntas, brincaram juntas e atravessaram lado a lado aqueles anos em que a vida ainda parece não guardar segredos. Eram vizinhas, confidentes e amigas desde a infância. Cresceram praticamente como irmãs, embora dentro de casa vivessem realidades profundamente diferentes.
Uma delas cresceu livre.
Podia sair, conviver, escolher a roupa que vestia e, quando chegou a idade dos primeiros amores, pôde conhecer rapazes e namorar.
A outra vivia presa às regras de uma família profundamente ligada à religião. Desde pequena aprendera que havia coisas que uma rapariga não podia fazer, lugares onde não devia estar e sentimentos que não lhe era permitido mostrar.
Usava vestidos compridos e um lenço que lhe cobria a cabeça e escondia parte do rosto. Os pais vigiavam-lhe os passos. Namorar estava fora de questão.
As duas continuavam amigas, apesar das diferenças.
Até que a amiga livre conheceu um rapaz.
Apaixonaram-se e começaram a namorar. Pareciam felizes. Ela falava dele à amiga, contava-lhe os encontros, os sonhos e aquilo que imaginava para o futuro.
O que não sabia era que havia uma segunda história a acontecer nas sombras.
O mesmo rapaz encontrava-se às escondidas com a amiga que não podia namorar.
Ninguém sabia.
Nem os pais dela, nem a família dele e, sobretudo, não sabia a mulher que acreditava ser a única na vida daquele homem.
Os encontros proibidos repetiram-se.
E o destino acabaria por colocar duas vidas dentro daquela história.
Quase ao mesmo tempo, as duas amigas engravidaram do mesmo homem.
A jovem que vivia livre contou-lhe que estava grávida. O namorado assumiu a responsabilidade e casou com ela.
Para todos, começava ali uma família.
Mas havia outra criança a caminho.
Quando os pais da jovem criada sob as rígidas regras religiosas descobriram a gravidez da filha, o mundo daquela casa desabou.
A filha que não podia namorar estava grávida.
Deixaram que a gravidez chegasse ao fim. Deixaram que a criança nascesse.
Era um rapaz.
A mãe viu o filho, soube que o tinha trazido ao mundo e, por breves momentos, acreditou que começaria ali uma nova vida.
Não começou.
Disseram-lhe que o bebé tinha morrido.
Ela chorou um filho que estava vivo.
Chorou um funeral que nunca existiu.
E carregou durante anos o luto por uma criança que continuava a respirar algures longe dos seus braços.
O bebé fora-lhe retirado e colocado num orfanato.
Foi ali que passou os primeiros tempos da sua vida.
Mas os próprios avós tinham outros planos.
Mais tarde, retiraram-no do orfanato e adoptaram-no como filho.
Perante o mundo, aquele rapaz passou a ser filho daquele casal.
Perante a lei e perante a família, era o filho adoptivo.
Na verdade, era o neto deles.
E havia alguém que jamais soube a verdade: a própria mãe.
Ela continuou convencida de que o filho que dera à luz tinha morrido.
O tempo passou.
O menino cresceu junto dos próprios avós, julgando que eram simplesmente as pessoas que o tinham acolhido e criado.
E cresceu perto da mulher que lhe tinha dado a vida.
Conviveu com a própria mãe sem saber que era sua mãe.
E ela conviveu com o próprio filho sem imaginar que aquele rapaz era a criança por quem tinha chorado durante tantos anos.
Só os avós conheciam toda a verdade.
Entretanto, a outra amiga seguira a sua vida de casada.
Também o seu bebé cresceu.
Era uma menina.
As duas amigas continuaram amigas ao longo dos anos. Aquilo que acontecera entre o marido de uma e a outra mulher permaneceu escondido.
A esposa nunca soube que a sua melhor amiga se tinha deitado com o homem que então era seu namorado e depois se tornara seu marido.
A outra nunca lhe contou.
E a mãe do rapaz continuou sem saber que o filho estava vivo.
Assim cresceram as duas crianças.
Um rapaz e uma rapariga, filhos do mesmo pai e de mães que eram amigas desde a infância.
Nenhum deles sabia.
Até que, muitos anos depois, os seus caminhos se cruzaram.
Conheceram-se.
Gostaram um do outro.
Começaram a namorar.
As mães sabiam do namoro dos jovens. Nenhuma viu nele qualquer impedimento, porque nenhuma conhecia toda a verdade.
Mas os avós do rapaz ainda não sabiam quem era a jovem por quem ele se apaixonara.
A relação foi crescendo.
Já não era uma aventura da juventude. Falavam do futuro, faziam planos e começaram mesmo a pensar em casamento.
Até chegar o dia em que o rapaz decidiu levar a namorada a casa para a apresentar aos seus avós.
Entrou orgulhoso.
Queria apresentar-lhes a mulher que amava.
Mas quando os velhos olharam para aquela jovem, reconheceram imediatamente de onde ela vinha.
Perceberam aquilo que os dois apaixonados desconheciam.
Eram irmãos.
Tinham o mesmo pai.
A mentira enterrada tantos anos antes regressara, agora diante dos olhos daqueles que a tinham criado.
Os avós tentaram imediatamente acabar com o namoro.
Disseram que aquela relação não podia continuar.
Proibiram os encontros.
Tentaram separá-los.
Mas como poderiam explicar a verdadeira razão sem destruir a mentira que tinham sustentado durante uma vida inteira?
Os jovens não compreenderam.
Quanto mais os tentavam afastar, mais se agarravam um ao outro.
E então surgiu uma nova verdade.
Ela estava grávida.
Os dois irmãos, sem saberem que eram irmãos, iam ter um filho.
Quando os avós souberam da gravidez, o medo transformou-se em desespero.
Tentaram que aquela gravidez fosse interrompida.
Pressionaram.
Insistiram.
Queriam impedir o nascimento daquela criança.
Mas não conseguiram.
Nem através dela, nem através dele. Nenhum dos dois aceitou.
Foram mais fortes do que aqueles que tentavam separá-los.
A criança nasceu.
Eles não casaram nessa altura. Continuaram juntos, namorando, vivendo o seu amor e criando o filho que tinham escolhido trazer ao mundo.
Os anos continuaram a passar.
Mas havia uma verdade que envelhecia juntamente com os avós.
Eles sabiam que não poderiam levá-la para a sepultura.
Já perto do fim das suas vidas, decidiram finalmente contar ao rapaz aquilo que lhe tinham escondido desde o nascimento.
Contaram-lhe que não eram verdadeiramente os seus pais.
Eram os seus avós.
Contaram-lhe que tinha nascido de uma gravidez que quiseram esconder.
Contaram-lhe que fora levado para um orfanato.
Contaram-lhe que, mais tarde, o tinham adoptado como filho.
E revelaram-lhe aquilo que mudava toda a história da sua vida.
A mulher que ele julgara durante todos aqueles anos ser apenas parte daquela família era, na verdade, a sua mãe.
Mas ela nunca soube.
Nunca lhe disseram que o bebé que julgava morto estava vivo.
Nunca soube que aquele rapaz era o filho que tinha carregado dentro de si.
E havia ainda a última revelação.
A mulher que ele amava, a mãe do seu filho, era também filha do mesmo homem que o tinha gerado.
A sua namorada era sua irmã.
Foi então que todas as peças de uma história construída sobre o silêncio finalmente se juntaram.
Aquele rapaz que, muitos anos antes, namorara uma das amigas e se encontrara secretamente com a outra tinha deixado dois filhos sem que ninguém conhecesse toda a verdade.
Esses dois filhos tinham crescido.
Tinham-se encontrado.
Tinham-se apaixonado.
E tinham tido um filho.
Tudo porque alguém, muitos anos antes, decidira que esconder a verdade era mais importante do que enfrentá-la.
Os avós morreram.
Com eles desapareciam as últimas pessoas que tinham conhecido o segredo desde o princípio.
Mas o amor dos dois jovens não morreu.
Havia demasiado caminho percorrido. Havia uma vida construída. E, acima de tudo, havia um filho que não tinha culpa de nenhuma das decisões tomadas antes de nascer.
Acabaram por casar.
Foram felizes.
Tiveram mais filhos.
A família cresceu, os anos passaram e os filhos tornaram-se irmãos entre si, sem alguma vez conhecerem o segredo que existia por detrás da história dos pais.
Porque os pais decidiram não lhes contar.
Não queriam que carregassem um peso que não lhes pertencia.
Não queriam represálias, comentários, acusações ou as bocas de um povo sempre pronto a julgar aquilo que desconhece.
Guardaram a verdade apenas para os dois.
E havia uma ironia cruel naquele silêncio.
Durante grande parte das suas vidas tinham sido vítimas de uma mentira.
Agora eram eles os guardiões de um segredo.
Não mentiam para esconder uma vergonha. Calavam para proteger os filhos das consequências de actos cometidos muito antes de eles nascerem.
Os anos trouxeram cabelos brancos, aniversários, fotografias de família, filhos crescidos e uma mesa cada vez maior.
Por vezes, quando ficavam sozinhos, olhavam um para o outro.
Não precisavam de falar.
Ambos sabiam.
Talvez, se a verdade tivesse sido dita desde o princípio, nunca se tivessem apaixonado.
Talvez nunca tivessem tido aquele primeiro filho.
Talvez cada um tivesse construído uma família diferente.
Mas essas vidas nunca tinham existido.
A única vida que conheciam era aquela.
E foi naquela que escolheram permanecer juntos.
A mãe dele morreu sem alguma vez saber que o filho que chorara durante uma vida inteira nunca tinha morrido.
A amiga dela morreu sem saber que o marido, quando ainda era seu namorado, também se deitara com a sua melhor amiga e tivera dela um filho.
E os filhos daquele casal cresceram sem saber que o pai e a mãe eram também irmãos.
No princípio, uma família escondera uma criança para proteger a honra.
No fim, outra família escondeu uma verdade para proteger os filhos.
Entre uma geração e a seguinte mudaram as pessoas, mudaram os tempos e mudaram as razões.
Só o segredo permaneceu.
E assim, naquela família, a verdade nunca morreu. Apenas mudou de guardiões.

Comentários
Enviar um comentário
Revista Repórter X / Repórter Editora