PORTUGAL PRECISA DE RESPOSTAS PARA AS CRIANÇAS, MAS QUEM QUER CRIAR NOVAS SOLUÇÕES FICA SEM RESPOSTAS:
Categoria: Sociedade / Educação / Infância
Autor: João Carlos Quelhas
Encontrar uma vaga numa creche em Portugal tornou-se uma preocupação para muitas famílias, algumas das quais começam a procurar soluções ainda durante a gravidez. Ter um filho significa também pensar antecipadamente onde ficará a criança quando chegar o momento de a mãe e o pai regressarem ao trabalho.
Informações recolhidas pela Repórter X apontam para uma realidade que merece reflexão. Em Portugal existem cerca de 240 mil crianças com idade para frequentar uma creche, perante 141.692 vagas. A diferença entre estes dois números é de 98.308.
Os dados apresentados mostram ainda Porto e Setúbal assinalados como zonas particularmente pressionadas pela falta de resposta.
Ao mesmo tempo, nove creches foram encerradas este ano por ilegalidade, segundo a informação recolhida pela Repórter X. Há ainda estabelecimentos que funcionam sob outras designações, como centros de baby-sitting, levantando-se necessariamente a questão das regras, da fiscalização e das condições exigidas para que uma verdadeira creche possa funcionar legalmente.
O problema não termina nas crianças. Atinge directamente as famílias e o próprio mercado de trabalho.
Há mães e pais que precisam de trabalhar e não encontram onde deixar os filhos. Há mulheres grávidas que já procuram uma vaga antes mesmo de a criança nascer. E há profissionais que podem ficar impossibilitados de regressar normalmente à sua actividade profissional porque não conseguiram encontrar uma resposta para os filhos.
A legislação e as próprias políticas públicas portuguesas reconhecem a importância destas respostas na conciliação entre a vida familiar e profissional. A regulamentação da gratuitidade das creches, por exemplo, apresenta o acesso aos equipamentos de apoio à infância precisamente como uma forma de apoiar as famílias e facilitar essa conciliação.
Perante esta realidade, há uma pergunta inevitável: o que acontece quando alguém manifesta vontade de criar uma nova resposta?
A Repórter X acompanhou um caso relacionado com o concelho da Póvoa de Lanhoso.
A Professora Ângela Tinoco contactou a Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso, apresentando a possibilidade de abertura de um espaço baseado na filosofia Montessori, destinado a crianças dos 3 aos 6 anos.
No contacto enviado ao Município foi explicado que se encontrava em estudo a criação deste espaço e que a pessoa interessada no projecto reside actualmente na Suíça, possuindo formação na área de Jardim de Infância, Montessori e SPITEX obtida naquele país.
As perguntas colocadas à Câmara eram claras.
Pretendia-se saber se existia procura ou falta de oferta nesta área no concelho, se havia famílias com dificuldades em conseguir vagas para crianças destas idades e se a criação de um novo espaço Montessori poderia constituir uma mais-valia para a comunidade.
Mas havia outras perguntas igualmente importantes.
A Câmara Municipal dispunha de algum espaço ou edifício que pudesse eventualmente ser utilizado para este projecto? Existiam apoios municipais ou outros incentivos que pudessem facilitar a sua instalação?
A resposta chegou através de uma profissional da Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso, profissional da área.
Foi informado que já existe no concelho um espaço destinado a crianças dos 3 aos 6 anos que desenvolve actividades segundo a filosofia Montessori, sobretudo como complemento ao horário escolar.
Foi igualmente referido que a rede pública de educação pré-escolar tem capacidade para integrar todas as crianças e que, segundo a informação transmitida pela Câmara, não existem situações de crianças sem colocação nessa rede.
Mas a resposta da profissional do Município terminou aí.
Não foi dito se a Câmara considera ou não que um novo projecto desta natureza poderia representar uma mais-valia para o concelho.
Não foi respondido se existe algum espaço ou edifício municipal que pudesse ser utilizado.
Não foi esclarecido se existem apoios ou incentivos municipais.
E também não foi manifestado claramente se existe ou não interesse do Município em analisar a instalação de um projecto desta natureza no concelho.
Não estamos, por isso, perante uma recusa formal da Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso. Seria incorrecto afirmar que o projecto foi recusado.
Mas também não encontramos na resposta uma manifestação de interesse em conhecer melhor a proposta, estudar as suas possibilidades ou esclarecer várias das questões concretamente colocadas.
E é precisamente aqui que surge a questão que a Repórter X considera importante colocar.
Se Portugal necessita de respostas para as crianças e para as famílias, por que razão alguém que demonstra disponibilidade para estudar a criação de um novo serviço não obtém resposta a todas as perguntas apresentadas?
Existe ainda uma diferença que não pode ser ignorada. Uma creche e a educação pré-escolar dos 3 aos 6 anos não são exactamente a mesma resposta. Da mesma forma, afirmar que existem lugares disponíveis na rede pública pré-escolar não responde necessariamente à questão de saber se existe procura por uma oferta Montessori ou por serviços com características e horários diferentes.
Aliás, as próprias orientações relativas às creches reconhecem que os horários destes estabelecimentos devem considerar as necessidades locais e os horários de trabalho dos pais, incluindo o tempo necessário para as deslocações.
A questão ultrapassa, portanto, a existência física de uma cadeira disponível para uma criança.
Trata-se de perceber de que respostas necessitam realmente as famílias.
E é também por isso que uma iniciativa privada ou uma nova resposta educativa não deveria ser analisada apenas perguntando se já existe alguma coisa semelhante no concelho. Importa perceber o que pretende oferecer, a quem se destina, quais os horários, qual a procura e que contributo pode representar para as famílias e para a economia local.
Quem pretende investir precisa igualmente de uma resposta clara.
Há interesse? Então importa explicar de que forma o Município pode colaborar ou orientar.
Não há interesse? Também isso deve ser dito claramente.
O que não esclarece a situação é deixar perguntas concretas sem resposta.
A Repórter X, que tem acompanhado esta realidade a partir da Suíça, considera que o caso não tem necessariamente de terminar na Póvoa de Lanhoso.
Se um concelho não demonstrar interesse numa determinada iniciativa, poderão existir outros municípios portugueses onde a necessidade seja maior e onde um projecto desta natureza possa ser estudado.
Porto e Setúbal aparecem entre as zonas destacadas na informação recolhida sobre a pressão existente nas respostas destinadas às crianças.
Talvez seja precisamente aí, ou noutros concelhos onde existam necessidades comprovadas, que uma porta possa abrir-se.
Porque quando existem famílias à procura de soluções e profissionais dispostos a criá-las, a pergunta não deveria ficar sem resposta.
Portugal precisa de respostas. Quem está disposto a ajudar a criá-las também merece recebê-las.
PORTUGAL PRECISA DE RESPOSTAS PARA AS CRIANÇAS, MAS QUEM QUER CRIAR NOVAS SOLUÇÕES FICA SEM RESPOSTAS
Revista Repórter X / Repórter Editora

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