Categoria: Sociedade / Trabalho
Autor: João Carlos Quelhas
Há profissões em que as mãos falam antes das palavras. Há trabalhos onde o conhecimento se demonstra na forma como se pega numa máquina, como se escolhe um produto, como se dobra um pano, como se limpa uma superfície ou como se deixa um espaço verdadeiramente limpo. A língua é importante, ninguém o contesta, mas será que deve valer mais do que aquilo que uma pessoa sabe realmente fazer?
Esta é uma questão que me surgiu durante a minha passagem pela Fachhaus, em Schwerzenbach, onde participei num programa de ocupação temporária ligado à área da limpeza e da manutenção.
O certificado pode fazer a diferença
Para quem procura emprego, um certificado pode representar muito mais do que uma simples folha de papel. Pode ser a confirmação de conhecimentos adquiridos, uma forma de provar competência perante uma empresa e, em determinados casos, uma porta de entrada para uma nova oportunidade profissional.
Foi nesse contexto que tomei conhecimento da possibilidade de realização de uma certificação prática relacionada com a Steinfels.
Estamos a falar de uma avaliação ligada ao trabalho que é efectivamente realizado, à utilização de equipamentos, aos métodos de limpeza e aos procedimentos que devem ser respeitados.
Cinco provas práticas
A avaliação está dividida em cinco áreas práticas, com cerca de 30 minutos destinados a cada uma.
Uma das provas envolve a utilização da máquina monodisco, outra a lavadora secadora, seguindo-se a limpeza de escritórios, a limpeza de instalações sanitárias e a limpeza de janelas.
Não se trata, portanto, apenas de falar sobre limpeza. É necessário demonstrar que se sabe trabalhar.
Há procedimentos concretos que devem ser respeitados. É necessário conhecer os equipamentos, utilizar correctamente os produtos, saber que panos correspondem a determinadas áreas através do sistema de cores, saber dobrar e utilizar os panos de forma correcta, preparar os materiais e cumprir uma sequência de trabalho.
São conhecimentos que não se demonstram apenas através de palavras. Demonstram-se sobretudo através da execução.
E a língua?
É aqui que surge a questão que considero importante.
Naturalmente, quem trabalha na Suíça deve procurar aprender alemão. A língua é necessária para compreender instruções, comunicar com colegas e responsáveis, perceber regras de segurança e integrar-se melhor no mercado de trabalho.
Não coloco isso em causa.
Mas uma coisa é reconhecer a importância da língua, outra é transformar a língua numa barreira que impeça alguém de demonstrar aquilo que sabe fazer.
Se uma pessoa compreende as instruções necessárias para executar determinada tarefa e consegue demonstrar correctamente, na prática, como essa tarefa deve ser realizada, deve o seu nível de alemão valer mais do que a competência demonstrada?
É uma pergunta legítima.
O que diz o documento
No documento que analisei relativamente a esta certificação são apresentadas as diferentes áreas práticas da avaliação e aquilo que deve ser executado.
Nesse documento não encontrei a indicação de um nível mínimo concreto de alemão, como A2, B1 ou B2, necessário para a realização da prova.
Isso não significa que não possam existir outras regras ou outros documentos onde sejam estabelecidas condições adicionais. Significa apenas que, no documento que tive oportunidade de analisar, essa exigência não estava indicada dessa forma.
Por isso, considero importante que as regras sejam claras desde o início.
Se existe uma exigência linguística obrigatória para ter acesso à certificação, ela deve ser comunicada claramente aos participantes. Se não existe, então deve ser dada a possibilidade de realizar a prova e demonstrar os conhecimentos adquiridos.
A formação deve preparar para a avaliação
Existe também outra questão que considero fundamental.
Uma formação prática deve preparar as pessoas para aquilo que depois lhes será exigido.
Não basta colocar alguém a executar tarefas repetidamente. Formar significa explicar, demonstrar, acompanhar, observar os erros, corrigi-los e permitir que a pessoa pratique até conseguir executar correctamente.
Há uma diferença entre ocupar uma pessoa e formar um profissional.
Quem está num programa destinado a melhorar as possibilidades de regressar ao mercado de trabalho deve sair desse programa com mais conhecimentos, mais capacidades e, sempre que possível, com instrumentos que possam ser apresentados a um futuro empregador.
Um certificado pode ser um desses instrumentos.
Fazer a prova e aceitar o resultado
A solução mais simples parece-me também a mais justa.
Deixar a pessoa fazer a prova.
Se sabe, demonstra que sabe.
Se não sabe, não passa.
É assim que uma avaliação deve funcionar.
Não peço que ninguém receba um certificado sem possuir os conhecimentos necessários. Pelo contrário, uma certificação só tem valor quando existe exigência.
Mas também não considero correcto impedir antecipadamente alguém de demonstrar aquilo que sabe apenas porque ainda não domina suficientemente bem uma língua que continua a aprender.
A avaliação deve servir precisamente para distinguir quem sabe fazer de quem ainda não sabe.
As mãos também têm currículo
O mercado de trabalho precisa de pessoas capazes, responsáveis e dispostas a trabalhar.
A língua abre portas e deve continuar a ser aprendida, mas também existem competências construídas durante anos de trabalho, experiência e vida que não desaparecem por alguém cometer erros em alemão.
Há pessoas que talvez não consigam explicar perfeitamente em palavras como se faz determinado trabalho, mas colocam as mãos nele e sabem exactamente o que fazer.
Porque há profissões em que as palavras contam.
Mas as mãos também têm currículo.
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