QUANDO A LÍNGUA VALE MAIS DO QUE AS MÃOS QUE TRABALHAM:

Categoria: Sociedade / Trabalho / Imigração
Autor: João Carlos Quelhas




Uma candidatura à Spitex Zürich, instituição de cuidados domiciliários em Zurique, recebeu uma resposta curta e clara: o candidato não reunia as condições porque o seu alemão não correspondia ao nível B2, oral e escrito, exigido para a função.

A candidatura destinava-se a uma área de limpeza doméstica e acompanhamento. O candidato apresentava experiência de vida, disponibilidade para limpeza, organização da habitação, tratamento da roupa e apoio nas actividades quotidianas. Falava português e possuía conhecimentos de espanhol, italiano, francês e alemão.

Nada disso chegou para ultrapassar uma barreira: o alemão.

Mas a candidatura apresentava também algo que não se mede através de um certificado linguístico.

O candidato descrevia-se como uma pessoa responsável, organizada, dedicada, adaptável e prestável, com gosto por ajudar os outros. Referia experiência no contacto com pessoas de diferentes origens, culturas e meios sociais, capacidade para ouvir, compreender as necessidades de quem precisa de apoio, companhia e assistência e, acima de tudo, a preocupação de tratar cada pessoa com respeito, dignidade e empatia.

E é aqui que começa uma discussão que ultrapassa uma candidatura e uma instituição.

A LÍNGUA É IMPORTANTE. MAS ATÉ ONDE?

Ninguém pode negar que a língua é importante. Num hospital, num serviço de enfermagem, na administração de medicamentos, perante uma emergência ou quando é necessário escrever e compreender documentação clínica, comunicar correctamente pode ser uma questão de segurança.

Mas será necessário colocar exactamente a mesma fasquia linguística a quem limpa uma casa, trata da roupa, arruma uma cozinha ou presta acompanhamento doméstico?

E há outra pergunta ainda mais incómoda.

UMA SUÍÇA DE MUITAS LÍNGUAS

A Suíça não é habitada apenas por pessoas que falam alemão, francês, italiano ou romanche. Vivem aqui pessoas vindas da Albânia, Turquia, Brasil, Japão, Egipto, República Dominicana, Etiópia, Mauritânia, Polónia, Canadá, Austrália e de praticamente todos os cantos do Mundo.

Muitos dos imigrantes mais velhos não falam inglês. Alguns viveram décadas fechados dentro das suas comunidades, trabalharam, constituíram família e envelheceram sem alguma vez dominarem verdadeiramente uma das línguas nacionais suíças.

Quando um profissional de cuidados domiciliários entra na casa de um idoso que apenas fala turco, albanês, português, árabe, polaco ou outra língua que o profissional desconhece, o que acontece?

O alemão B2 deixa de resolver o problema.

É necessário encontrar outra solução.

Recorre-se à família, a colegas, a intérpretes, a traduções, à tecnologia, aos gestos, à observação e àquela linguagem antiga que existia muito antes dos certificados: a capacidade humana de compreender o outro.

Então surge uma pergunta legítima.

Se somos capazes de encontrar soluções quando é o utente que não fala alemão, porque não procurar soluções quando é o trabalhador que ainda está a aprender alemão, sobretudo quando se candidata a funções essencialmente domésticas?

UMA QUESTÃO DE PROPORCIONALIDADE

Não se trata de defender que alguém possa trabalhar sem compreender uma única palavra da língua do local onde vive. Isso seria igualmente absurdo.

Trata-se de discutir proporcionalidade.

Quanto alemão é realmente necessário para limpar uma casa?

Quanto alemão é necessário para lavar roupa?

Quanto alemão é necessário para aspirar um apartamento?

Quanto alemão é necessário para acompanhar uma pessoa numa tarefa quotidiana?

E, sobretudo, será necessário possuir B2 oral e escrito antes sequer de ser dada ao candidato a oportunidade de demonstrar aquilo que sabe fazer?

A INTEGRAÇÃO TAMBÉM SE APRENDE TRABALHANDO

A integração também se aprende trabalhando.

Aprende-se no café da manhã com os colegas, nas instruções repetidas todos os dias, na conversa durante uma pausa, no contacto com clientes, nos erros, nas correcções e naquela palavra que ontem não compreendíamos e que amanhã já pronunciamos naturalmente.

Há aqui um círculo que merece ser discutido.

Ao estrangeiro diz-se que deve integrar-se.

Para se integrar, deve aprender a língua.

Para trabalhar, exigem-lhe a língua.

Mas uma das melhores escolas para aprender verdadeiramente uma língua é precisamente trabalhar e conviver diariamente com quem a fala.

Se a porta do trabalho se fecha antes dessa aprendizagem estar concluída, onde começa então a integração?

O MURO DO «ALEMÃO INSUFICIENTE»

Existe ainda outra contradição.

Há pessoas encaminhadas para cursos, programas ocupacionais e instituições destinadas precisamente a melhorar a sua empregabilidade. Aprendem, trabalham, cumprem horários, fazem limpeza e outras tarefas e procuram qualificações que lhes permitam regressar ao mercado de trabalho.

Mas, quando procuram emprego, voltam a encontrar o mesmo muro: alemão insuficiente.

E até determinadas formações e certificados podem acabar condicionados pelo domínio da língua.

Chegamos então a uma situação difícil de compreender: é necessário aprender para trabalhar, é necessário trabalhar para ganhar experiência, é necessário integrar-se para aprender melhor a língua e, simultaneamente, exige-se que uma parte dessa integração já esteja concluída antes de abrir a porta.

AS MÃOS NÃO POSSUEM B2

Não podemos transformar o conhecimento de uma língua numa medida absoluta da capacidade de uma pessoa.

As mãos não possuem B2.

A experiência não possui B2.

A responsabilidade, a pontualidade, a honestidade, a capacidade de limpar, cuidar, organizar, respeitar e trabalhar também não possuem B2.

A língua importa. Naturalmente que importa.

Mas importa igualmente saber distinguir uma profissão em que uma comunicação linguística avançada é indispensável de outra em que um conhecimento funcional pode ser suficiente enquanto o trabalhador continua a aprender.

FOI ASSIM QUE MUITAS GERAÇÕES SE INTEGRARAM

A Suíça construiu uma parte importante da sua prosperidade com trabalhadores vindos de fora. Portugueses, italianos, espanhóis, jugoslavos, turcos e tantos outros chegaram sem falar perfeitamente a língua da região onde foram trabalhar.

Aprenderam também nas fábricas, nas obras, nos hotéis, nos restaurantes, nas cozinhas, nas limpezas e no convívio com os colegas.

Muitos começaram com poucas palavras.

Depois aprenderam outras.

E trabalharam.

Talvez esteja na altura de perguntar se, em determinados sectores, não estamos a colocar certificados linguísticos à frente das pessoas.

Porque uma sociedade verdadeiramente interessada na integração não pode limitar-se a dizer ao estrangeiro:

«Aprenda a língua e depois venha trabalhar.»

Também deveria ser capaz de dizer:

«Venha trabalhar, cumpra as suas responsabilidades e continue a aprender a nossa língua.»

Foi assim que muitas gerações se integraram.

E talvez ainda haja alguma sabedoria nesse velho caminho.

Repórter X, Um Olhar sobre o Mundo


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