Categoria: Conto, romaria e tradição histórica
Autor: Artur Silva
A noite em Viseu não era feita de escuridão, mas de um veludo antigo, cosido com o fio de ouro das memórias. Para Eduardo, cada passo no recinto da Feira de São Mateus tornara-se um exercício de arqueologia afectiva. Naquela noite de celebração, contudo, os seus olhos não procuravam apenas as luzes dos carrosséis, mas a própria espessura do tempo, que dançava no fumo doce das farturas e no riso das gentes.
Afastou-se um pouco da música vibrante das tasquinhas e caminhou até ao sopé da Cava de Viriato, onde a poeira parecia sussurrar com uma voz mais grave. Era acompanhado pelo neto, Tiago. O rapaz, com os seus catorze anos cheios de pressa, trazia o telemóvel na mão e os olhos colados ao ecrã, impaciente por voltar à vertigem festiva dos amigos. Eduardo sentou-se num banco de pedra, respirou o ar tépido e pousou a mão calejada no ombro do jovem, convidando-o a olhar para o mar de gente iluminado.
«Tiago, desliga lá isso por um breve instante. Consegues ver verdadeiramente o que está ali à frente?», perguntou o avô, com uma voz compassada que carregava o peso e a doçura dos anos.
«A feira, avô», respondeu o jovem, guardando o aparelho no bolso com um suspiro conformado. «Luzes, música, diversão... O normal de todos os anos.»
«Não, meu rapaz. O que está ali não é só a rotina de um calendário. O que vês ali a brilhar é um milagre festivo que se repete há mais de seiscentos anos. Cem anos antes de as caravelas dobrarem o mar em direcção à América, este chão já festejava.»
Tiago arqueou as sobrancelhas, com a curiosidade subitamente desperta pelo brilho invulgar nos olhos do avô.
«Seiscentos anos? A feira é assim tão velha?»
«Mais velha e mais viva do que imaginas», sorriu Eduardo, apontando para o clarão da grande roda-gigante. «Deixa que a tua imaginação viaje até ao inverno profundo de 1392. Pensa num Portugal que ainda curava as feridas da Batalha de Aljubarrota, a erguer-se do sangue e do suor. O rei D. João I, o Mestre de Avis, percebeu que a independência de um reino não se segurava apenas com espadas, mas também com a alegria e a união do seu povo. Foi por isso que, no dia 10 de Janeiro desse ano, estendeu um pergaminho e assinou a nossa Carta de Feira.»
«Uma carta do rei? Para fazer esta festa toda?» Tiago já se esquecera por completo do mundo digital.
«Exactamente. Mas o rei não criou apenas um mercado, Tiago. Outorgou a Viseu uma feira franca, um escudo sagrado de liberdade. Naquele tempo, o camponês que descia a serra com as lãs, o oleiro que trazia o barro moldado e o tecelão podiam caminhar sem medo. Estavam livres de impostos pesados e protegidos pela “paz da feira”. Sob o manto daquela carta régia, ninguém podia ser preso por dívidas antigas. Durante um mês inteiro, esta terra beirã transformava-se no coração livre e pulsante de um país em gestação.»
Eduardo fechou os olhos por um segundo, deixando-se embalar pelo som distante de uma concertina que rompia o ar. Ao abri-los, olhou fixamente para a multidão viva e ruidosa.
«Vês aquele feirante ali ao longe, a apregoar as loiças de barro sob os focos modernos? Ele é o herdeiro invisível do mercador que outrora trocava sal e tecidos sob o olhar dos oficiais do rei. A feira mudou de sítio, adoptou a protecção de São Mateus, cresceu com o fomento do Infante D. Henrique e hoje veste-se de néon e música digital. Mas a alma... a alma permanece intocada. Está no travo rústico do rancho, no aroma das castanhas e na alegria partilhada que une os desconhecidos numa roda de palmas.»
O rapaz guardou silêncio, absorvendo a poesia daquelas palavras. O ruído da feira já não lhe parecia uma distracção passageira; era o eco de um hino secular.
«Nunca tinha pensado nisso assim, avô», confessou Tiago, fitando o mouchão com um respeito novo e deslumbrado. «Estamos a pisar a própria história.»
«Estamos, Tiago. Esta feira é um monumento vivo, uma promessa escrita em pergaminho em 1392, que a cidade insiste em cumprir com alegria todas as noites de Verão. O Mestre de Avis deu-nos o privilégio, mas é o povo de Viseu que lhe dá a imortalidade. E um dia serás tu a trazer os teus filhos para lhes dizer que, enquanto houver São Mateus, a nossa identidade nunca será esquecida.»
Eduardo levantou-se com alguma dificuldade, endireitando as costas cansadas. Tiago, num gesto espontâneo de cumplicidade, amparou-lhe o braço e, em vez de procurar os amigos, ajustou o seu passo jovem ao caminhar lento do avô. Juntos, mergulharam de novo no coração luminoso, festivo e eterno da feira, caminhando lado a lado sob a luz das mesmas estrelas que, há seis séculos, testemunhavam o mesmo milagre.
O ar ali era um corpo espesso e vivo, uma neblina sagrada de fumo branco e oiro vegetal que subia das braseiras para saudar o céu de Viseu. Tiago contemplava o bailado frenético das grandes panelas de ferro e os pratos que cruzavam o ar nas mãos ágeis dos empregados atarefados. Sentia um aconchego misterioso, uma fome antiga que não se saciava apenas com o estômago, mas também com o sentimento de pertença.
«Olha ali, Tiago», murmurou Eduardo, com uma voz que parecia um eco de xisto e tempo, apontando para uma mesa de madeira corrida onde uma família celebrava o reencontro em redor de uma travessa fumegante. «Aquilo é o rancho à moda de Viseu. Não é apenas o sustento do corpo; é a nossa geografia inteira vertida num prato. O grão-de-bico que brota da terra firme, as carnes de fumeiro curadas ao frio da serra, a massa que aconchega... Tudo ali foi apurado em lume brando, com a mesma paciência com que os homens de outrora lavravam os campos antes de virem erguer esta feira.»
Tiago fixou o olhar no vapor denso que subia do rancho, desenhando volutas poéticas sob as lâmpadas da tasca. Pela primeira vez, aquela alquimia de sabores tradicionais pareceu-lhe infinitamente mais fascinante e grandiosa do que as efémeras luzes do mundo moderno. O aroma rústico, impregnado de cominhos e fumo, desafiava a pressa dos seus catorze anos. Logo ao lado, o perfume generoso da vitela de Lafões, assada lentamente até a carne se desprender do osso com a delicadeza de um segredo partilhado, abraçava o travo vivo e festivo do arroz de cabidela, servido em travessas de barro escuro que pareciam moldadas com o próprio pó do mouchão.
«Avô, repara bem... As pessoas aqui comem com uma alegria que canta, não achas?», observou Tiago, com os olhos maravilhados perante os sorrisos descomprometidos, o erguer das tigelas de barro transbordantes de vinho do Dão e o tilintar rítmico dos talheres, que executava a mais bela sinfonia da Beira.
«É a sagrada comunhão da feira, meu rapaz. A mesa, neste chão, é o altar onde nos relembramos de quem somos. Um pretexto divino para estarmos juntos, para gritarmos ao mundo que estamos vivos, festejando a herança e o sangue da Beira», respondeu o velho, com o peito iluminado pelo orgulho ao testemunhar o renascer do neto naquelas raízes.
Deixando para trás o vigor dos pratos fortes, Eduardo conduziu o jovem para o território mais doce e nostálgico do recinto. Onde Tiago antes via apenas roulottes impessoais e ruído, erguia-se agora uma constelação de altares perfumados. Detiveram-se perante o espectáculo dourado da massa das farturas e dos churros a mergulhar no óleo fervente, desenhando espirais perfeitas que desafiavam a gravidade, antes de serem coroadas por uma tempestade perfumada de canela e açúcar.
Eduardo comprou um cartucho de farturas, quente como um pedaço de sol. Tiago segurou uma delas, estaladiça, trincou-a e fechou os olhos. O estalar da massa, o doce que se desfazia na boca e o calor da canela pareceram-lhe, na cadência daquele instante eterno, o sabor autêntico da infância, a essência destilada da Feira de São Mateus.
Ao lado, o fumo cinzento e poético dos assadores de castanhas começava a erguer-se no crepúsculo. O carvoeiro, com as mãos pintadas pela noite do carvão, golpeava as castanhas com sal grosso, num ritual antigo que anunciava o Outono às portas de Agosto. Tiago limpou os dedos açucarados, sorriu e olhou para o avô. Sentia no peito que aquela viagem pelas tasquinhas tinha sido um verdadeiro baptismo de fogo e sabor. Já não caminhava à margem daquela celebração secular; a feira tinha-o abraçado, e ele era, finalmente, o seu herdeiro mais jovem.
O relógio invisível da feira parecia deter-se enquanto a multidão, num pulsar uníssono, se deslocava suavemente em direcção às zonas abertas, partilhando o mesmo silêncio expectante. Eduardo e Tiago caminharam até ao ponto mais alto, onde os olhos podiam abraçar a imponência milenar da Cava de Viriato. A noite beirã, grávida de histórias e sussurros de séculos, estendia-se sobre Viseu como um veludo negro que aguardava a primeira pincelada de luz.
Subitamente, um estrondo seco e profundo rasgou o peito da terra, fazendo vibrar o chão que pisavam.
Um rasto de oiro subiu célere em direcção ao firmamento, explodindo lá no alto num crisântemo de fogo purpurino que pintou os céus de carmesim e esmeralda. Tiago susteve a respiração. Ao seu lado, Eduardo ergueu os olhos cansados, reflectindo nas pupilas a efémera e grandiosa arquitectura de luz. Mais do que um espectáculo, o fogo-de-artifício era o hino visual da Feira de São Mateus, a aclamação ruidosa e colorida de uma promessa que se cumpria desde 1392.
Novas detonações ecoaram pelos vales, e o céu transformou-se numa tela sagrada de clarões e cascatas de luzes cadentes. O reflexo das explosões iluminou, com uma clareza quase mística, os contornos geométricos e misteriosos da Cava de Viriato. Sob o feitiço das cores, os velhos taludes de terra pareciam erguer-se como gigantes adormecidos que acordavam para testemunhar a festa. Era o encontro absoluto do tempo: a fortaleza que vira nascer mitos antigos, banhada pelo fogo da celebração moderna.
Tiago olhou para o avô. Sob a luz intermitente e azulada que agora cobria o recinto, a face de Eduardo exibia uma serenidade eterna, com as rugas transformadas em linhas de pura poesia. O rapaz percebeu, no estrondo festivo daquele clímax, o verdadeiro significado da palavra herança. A feira não terminava ali; acendia-se no peito de cada um, como as faíscas que teimavam em flutuar antes de desaparecerem na escuridão.
No apogeu do espectáculo, uma salva final de morteiros iluminou Viseu com a intensidade de um sol da meia-noite. O estrondo retumbou na alma de Tiago, arrancando palmas e gritos de júbilo da multidão que rodeava o mouchão. Quando o silêncio finalmente regressou, trazendo consigo o perfume acre da pólvora misturado com o cheiro a canela e Outono, a noite parecia mais límpida, mais sagrada.
Tiago guardou o telemóvel no bolso, sabendo que nenhuma imagem capturada conseguiria registar a imensidão daquele instante. Apertou com força a mão do avô enquanto as últimas cinzas de oiro caíam sobre a Cava. A feira tinha gravado a sua carta régia no coração do jovem beirão e, ali, sob o céu lavado de Viseu, o pergaminho de 1392 tornara-se imortal outra vez.
A caminhada de regresso fez-se num silêncio cúmplice e sereno, daqueles que só pertencem a quem partilhou um segredo com as estrelas. À medida que se afastavam da Cava de Viriato, os estrondos festivos davam lugar ao murmúrio distante e abafado da feira que, lentamente, começava a recolher as suas asas de néon. O chão de Viseu, ainda quente, parecia guardar o eco dos milhares de passos que o tinham pisado naquela noite mágica.
Tiago caminhava devagar, compassando os seus passos jovens com a marcha lenta e cansada do avô. Já não trazia pressa nos olhos, nem o telemóvel na mão; trazia os dedos ainda levemente perfumados com o açúcar e a canela das farturas e a mente cheia de reis, mercadores e castelos de fogo.
Quando chegaram ao portão de casa, Eduardo deteve-se por um instante. Olhou para trás, em direcção ao clarão ténue que ainda pintava o horizonte da cidade, e soltou um longo suspiro de quem cumprira, mais uma vez, o seu ritual anual com a vida.
«Obrigado pela companhia, meu rapaz», murmurou o velho, com a voz gasta pela noite, mas profundamente terna. «Sei que o programa de um velho nem sempre é o mais divertido para ti.»
Tiago olhou para o avô e, num impulso emotivo que apanhou o próprio rapaz de surpresa, abraçou-o com força. O casaco de Eduardo cheirava a fumo de brasa, a Outono antecipado e a uma nostalgia reconfortante.
«Não digas isso, avô», disse o jovem, com a voz embargada, mas firme. «Foi a melhor feira da minha vida. No próximo ano... no próximo ano fazemos o mesmo percurso, combinado? Mas, dessa vez, o rancho pago-o eu.»
Eduardo sorriu, com as rugas dos olhos iluminadas na penumbra do pátio por uma alegria que nenhuma idade conseguiria apagar. O pacto estava feito.
Entraram em casa e a porta fechou-se, resguardando-os do fresco que a madrugada beirã já espalhava pelas ruas. Lá fora, Viseu adormecia sob o manto da sua história. A feira continuaria ali, no mouchão, à espera do dia seguinte; mas, no peito de Tiago, a chama do pergaminho de 1392 estava acesa para sempre, garantindo que o passado e o futuro continuariam a dançar, de mãos dadas, no coração daquela cidade eterna.

Comentários
Enviar um comentário
Revista Repórter X / Repórter Editora