Categoria: Sociedade e comunicação.
Bruno Oliveira tem 42 anos, vive em Fiães, no concelho de Santa Maria da Feira, e é administrador e locutor da Rádio Doce Amiga. Tem paralisia cerebral, utiliza uma cadeira de rodas e não fala, mas ouve. Encontrou na escrita, na tecnologia e na rádio os meios para comunicar, desenvolver as suas ideias e participar na vida da comunidade.
A sua condição faz parte do seu percurso, mas a sua história inclui também interesses, responsabilidades, criatividade e uma profunda ligação às pessoas. Ao longo da vida, aprendeu a enfrentar dificuldades com paciência e a procurar caminhos para concretizar aquilo de que gosta.
Através do computador e do programa GRID, Bruno escreve mensagens, expressa pensamentos, prepara conteúdos e comunica com os outros. Esta ferramenta permite-lhe transmitir palavras através de uma voz produzida pelo sistema. A mensagem, as escolhas e os sentimentos são seus.
A comunicação com os ouvintes acontece em ambos os sentidos. Podem escrever-lhe, para que leia as mensagens, ou enviar um clipe de voz, que consegue ouvir. O autor deste texto experimentou precisamente essa forma de contacto, enviando uma mensagem de voz que Bruno passou no programa. Um exemplo concreto da proximidade que mantém com quem acompanha a emissão.
A Rádio Doce Amiga ocupa um lugar central na sua vida. Representa companhia, amizade, liberdade de criação e a possibilidade de chegar a pessoas que talvez nunca venha a conhecer pessoalmente. A música tem, para Bruno, a capacidade de transmitir emoções que nem sempre são fáceis de explicar.
Nas suas funções de administrador e locutor, participa na organização da rádio, prepara programas, selecciona músicas, escreve mensagens, cria conteúdos, contacta artistas e pensa em entrevistas. Por detrás de cada emissão existem preparação, responsabilidade e muitas horas de trabalho, num esforço partilhado com a equipa.
É uma actividade que lhe dá motivação e à qual se dedica com carinho. Procura proporcionar momentos de alegria, esperança e conforto, valorizando cada pessoa que escolhe passar algum tempo na companhia da Rádio Doce Amiga.
Os locutores, colaboradores, artistas, convidados e ouvintes fazem parte desta caminhada. Bruno reconhece o contributo de todos para o crescimento do projecto e atribui especial importância às mensagens de apoio que recebe. É nessa troca que a rádio ganha um sentido de família.
O seu percurso demonstra o valor das oportunidades e dos meios adequados. A determinação pessoal precisa de encontrar condições que permitam transformá-la em participação efectiva. No seu caso, o acesso à tecnologia ajuda a tornar possível o trabalho que desenvolve na comunicação.
Bruno defende uma inclusão presente na vida quotidiana, nas atitudes, nos espaços e nas oportunidades. Para ele, o respeito começa quando se reconhece a pessoa, com os seus direitos, conhecimentos e capacidades, para além de uma cadeira de rodas ou de uma dificuldade na fala.
As barreiras físicas, a falta de acessibilidade e os preconceitos podem limitar a participação de quem vive com uma deficiência. Ultrapassá-los exige atenção às necessidades de cada pessoa e disponibilidade para a ouvir antes de decidir por ela.
Bruno não procura despertar pena. Deseja que o seu percurso seja reconhecido pelo que faz, pelas responsabilidades que assume e pelo contributo que dá. Defende o direito de fazer escolhas, expressar opiniões e desenvolver projectos próprios.
A autonomia pode depender de apoios e assumir formas diferentes. Disponibilizar esses recursos é dar a cada pessoa melhores condições para conduzir a sua vida com independência e dignidade.
Neste contexto, as tecnologias de comunicação aumentativa e alternativa têm um papel importante. Bruno gostaria que fossem mais conhecidas e estivessem ao alcance de quem delas necessita. Podem permitir estudar, trabalhar, estabelecer amizades e concretizar ideias que, sem esses meios, encontrariam maiores obstáculos.
A relação com quem comunica de forma diferente exige também tempo e atenção. Saber esperar por uma resposta, ler uma mensagem e respeitar o ritmo do outro são gestos essenciais. A ausência de fala não significa ausência de pensamento, de sentimentos ou de algo para dizer.
A sua defesa da igualdade de oportunidades estende-se à cultura, à música, à comunicação social, ao desporto, à educação e ao emprego. Considera igualmente importante que as pessoas com deficiência tenham presença nos espaços onde se tomam decisões que afectam as suas vidas.
Cada percurso é diferente. O que Bruno deseja é que existam condições para cada pessoa descobrir os seus talentos e escolher o seu lugar na comunidade, sem ver os seus sonhos limitados antecipadamente por outras pessoas.
A rádio pode contribuir para essa mudança. As entrevistas, as conversas e a divulgação de histórias reais aproximam públicos e ajudam a combater ideias preconcebidas. Através da Rádio Doce Amiga, Bruno procura dar o seu contributo para uma sociedade mais compreensiva e solidária.
Para o futuro, quer continuar a aprender, desenvolver novos conteúdos, preparar entrevistas e acompanhar o crescimento da estação. Reconhece que nem todas as dificuldades se resolvem como gostaria, mas mantém a vontade de construir e participar.
O seu testemunho deixa um convite para conhecermos verdadeiramente as pessoas, escutarmos as suas experiências e reconhecermos aquilo que têm para oferecer. Há muitas histórias que merecem espaço e muitas capacidades que precisam de uma oportunidade.
Bruno agradece à equipa, aos artistas, aos amigos e, em particular, aos ouvintes que o acompanham. O carinho recebido alimenta a dedicação com que continua este caminho.
Tem uma história própria e sonhos que continua a construir. Um deles chama-se Rádio Doce Amiga, um lugar onde as suas palavras chegam aos outros e onde também há espaço para ouvir quem está desse lado.
Revista Repórter X / Repórter Editora
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